A nossa fotografia

Subi correndo a escada, todo eufórico, batendo os pés. Parei para respirar apenas uma vez em meio aos vinte e cinco degraus. Fui direto ao quarto de papai. Não bati à porta, ao entrar, soltei um sonoro grito de felicidade. Havia superado milhares de concorrentes no concurso de fotografia, além do troféu, ganhei um prêmio em dinheiro.

Diante da minha euforia, meu pai pediu para sentar ao lado dele e apresentar minha imagem. Há cinco anos a meningite havia levado sua visão. Seus olhos azuis perderam o brilho e foram coagidos a viver escondidos, quase fechados. Senti sua respiração e seus movimentos para melhor se acomodar na sua poltrona. Instalei-me próximo a ele e com emoção nos olhos começo a narrar minha fotografia.

Era domingo. Não chovia. Era o último dia para fazer a inscrição. Quando percorri toda a orla da praia, no último estágio, já desanimado, resolvi sentar e esperar a chegada da escuridão. Foi quando me deparei com o pôr do sol sendo acolhido por duas pequenas ilhas. Na esquerda, ilhas maiores preenchiam a cena.

Os raios solares eram laranja, meio amarelados, em tons fortes, tão fortes que coloriram nuvens e parte do céu. Os tons de branco e azul ficaram tímidos diante de tanta beleza. A cor vibrante do sol chegou à margem da praia e deu vida a uma canoa presa por duas madeiras, uma à frente da proa e outra na popa. Estava ancorada e à espera dos pescadores. Há cinco divisórias feitas com pedaços de madeira. Pode ser o local para quem está prestes a se posicionar para conseguir o alimento para casa.

Esqueci de mencionar que entre as quatro ilhas e a canoa, há um pequeno ipuã. Essa parece se mover conforme as ondas vão agitando o mar. Próximo à margem é possível sentir a vibração d’água arrastando pequenas pedras de volta a areia que parece ter vida conforme os raios vão perfurando seus grãos. As nuvens vão aumentando de tamanho quando se aproxima da lente, parece querer adentrar a câmara fotográfica. 

A noite não demorou a dar um sinal de vida, no entanto, nos minutos que me restavam, fiquei imóvel, como o senhor está agora, as palavras não saíram, mas ficaram percorrendo todos os cantos do passado, do presente e do futuro. O ápice dessa foto é quando a imagem do sol fica espelhada na água. O seu reflexo e sua força me fizeram inquietar e querer interromper os ponteiros do relógio, o qual marcaria o fim do dia.

Quando fui editar a foto para enviar ao concurso, as emoções não puderam ser contidas. Voltei ao tempo. Lembrei-me das nossas viagens e das aventuras nas praias e matas. Foram tantos aprendizados e percebi o quanto o passado me fez forte e parece que este local descrito era o nosso de tantos anos atrás. Talvez eu tenha recortado uma parte da memória para transformar em uma fotografia: a nossa fotografia.

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