Sobrevivência ou Ganância?

Maria tinha 72 anos, olheiras profundas e olhos castanhos. O rosto aparentavam ser muito mais velho do que deveria para sua idade. Não pintava mais os cabelos curtos, deixando-os sempre brancos. Suas roupas eram simples, Fazia muito tempo que não cuidava das unhas das mãos e no calcanhar havia um calo se formando por causa da sandália gasta com seus quase cinco anos de uso. Ela tinha uma boa aposentadoria que daria para se cuidar e viver uma vida mais tranquila. Mas, para ela não era possível. Haviam os remédios, o convênio médico, o táxi para poder ir ao hospital fazer exames ou visitar o filho internado. Desde que quebrou o fêmur e a bacia, não tinha mais a mesma mobilidade para conseguir andar em um ônibus e seus solavancos. Uma outra queda podia lhe render outras fraturas. Tudo era muito difícil na sua vida. O filho mais novo era viciado e estava sempre internado, o mais velho era debilitado e mesmo que lhe tratava tão mal todos os dias, precisava da sua ajuda. Mesmo que a vida seja tão difícil, ela lutou diariamente para continuar em pé. Quase sempre ajudava alguém de alguma forma. Na rua a sua vizinha era divorciada e para ajudar em casa, vendia bolos e salgados.

A dona Maria, como sempre foi chamada, tentava ajudar de alguma forma. Todo mês ela comprava um bolo e um cento de salgados. Quase todos os dias, ela recebia visitas dessa e de outras vizinhas, seja para almoçar ou tomar um café da tarde. Tinha também a empregada que só nessa casa, trabalhava umas seis horas por dia ou menos, assistia a novela da tarde, quase não arrumava a casa e sempre reclamava que tinha que lavar a louça. Sem contar que tirava férias duas vezes por ano e recebia o dobro do salário em cada uma delas.

Os filhos da Dona Maria já diziam que não era certo ela fazer isso, pois deixava de por comida na mesa ou comprar roupas novas para atender os pedidos dessa empregada. Eles quiseram demiti-la, pois vez ou outra a Dona Maria era mal tratada e apareciam marcas escuras nos seus braços. Mas ela dizia que não era nada e precisava ajudar a mulher. O tempo passou e foi criada a obrigatoriedade do registro em carteira.

A Dona Maria, sempre muito honesta, tentou inúmeras vezes registrar a funcionária, mas por haver os descontos do FGTS e mais alguma outra coisa, a empregada não aceitou e também se negava a assinar qualquer recibo de pagamento.

Em 2019, a vida decidiu, de uma forma muito dolorosa, levar a simpática senhora para o outro mundo e três meses depois, o seu filho mais velho.

Dois anos se passaram e a filha da senhora, que mora e cuida da casa, recebeu uma intimação. A empregada que nunca foi registrada, mas recebia seu pagamento todo dia 5, com direito a duas férias e décimo terceiro salário, exige uma indenização de cinquenta mil reais e uma pensão por tempo indeterminado no valor de dois mil reais.

Curiosamente, as pessoas que visitavam a Dona Maria semanalmente para almoçar e tomar café e que também foram ajudadas pela senhora que só queria o bem de todos, são testemunhas a favor dessa empregada. Os parentes que quase sempre recebiam alguma ajuda financeira dessa senhora, se recusaram a prestar depoimento para ajudar a filha.

É muito triste ver o interesse que as pessoas têm pelo dinheiro, a falta de empatia e honestidade. Alguém que deveria ser lembrado e honrado pela sua bondade é esquecida por qualquer que seja a cédula recebida.

Me questiono algumas coisas sobre isso.

Será que essa é uma questão de sobrevivência e por isso agem contra sua lealdade ou a ganância é maior que qualquer outra coisa? Será que é tão difícil assim agir a favor do certo, sem receber algo em troca?

Seria esse um perfil do povo brasileiro, ou esse tipo de situação também aconteceria em países como Inglaterra, Holanda e etc?

Só espero que no futuro as pessoas sejam mais honestas consigo e com o próximo antes de qualquer coisa. Infelizmente, não é só no governo que vemos pessoas agindo por ganância.

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