Do outro lado da cama

Não posso chorar. Não devo chorar. Não se permita chorar. Todos os dias a voz de um adulto sussurrava em mim. Eu tinha apenas 12 anos e diante dos sofrimentos dentro de casa precisei resgatar um amigo imaginário, entretanto, o meu já tinha barba, expressão sofrida, olhos marcados por olheiras, pelos pelo corpo e um jeito solitário de encarar a vida.

Quando estava dentro do meu quarto tudo parecia diferente. Após o almoço, o local a estar seria em um campo de futebol, na rua a jogar bolinha de gude, soltar pipa ou brincar de pião. O portão sempre estava trancado e para me libertar era preciso articular um plano de fuga. Nunca consegui atingir a missão, talvez seja por não permitir errar ou apenas medo por não querer ser livre.

Sentia profunda tristeza e diante dos problemas não achei alternativa, a não ser: amadurecer. No seu pequeno quarto não havia ninguém. As noites em claro seguiam até a lâmpada em cima da mesa interromper seu brilho. A noite avançava e os pensamentos ruminavam a cada instante, fazendo meus olhos meigos e graves arderem de medo.

Fitei profundamente meu reflexo no espelho. Parecia dormir. A imagem chorou desconsoladamente, como se estivesse só. Ajoelhei diante da cama como se estivesse em prece, exausto, adormeci com a cabeça apoiava em um dos braços. Neste dia tive um sonho esquisito. Como se houvesse a chance de apagar o passado e começar tudo outra vez.

Neste local não havia muitas cores, na verdade, eu só conseguia enxergar o branco e no final do corredor alguém fixou uma placa: Recomece. Não entendi. Aos poucos comecei a rir, um riso satisfeito. Acordei e em todos os lugares onde olhava eu lia a palavra Recomece. Era como se não existem outras palavras ou de certa forma havia ficado louco.

Queria tanto ter recebido ajuda, mas, sendo um adulto, não me permitia ser fraco. Desejei tanto a companhia dos meus pais em minhas aventuras, porém, sempre estavam ocupados com seus problemas. Era como se a perfeição estivesse alojada em mim e ninguém fosse capaz de chegar perto com medo de se sentir inferior.

Quando isso acontecia meu coração se despedaçava em mágoas e o meu refúgio estava em girar a chave e trancar a porta do meu quarto. Foram anos dessa forma e até hoje há momentos que só ouço o barulho da chave a interromper o silêncio do meu quarto. Quando o medo do passado ronda meu quarto, busco imaginar um funeral, onde desejo enterrar minha perfeição e seguir o caminho rumo a novas descobertas.

Ainda desejo fazer terapia. Não apenas relatar o meu passado. Quero falar sobre mim, das mágoas, das conquistas, das dores e das partidas de futebol. Desejo ainda me desligar do meu amigo imaginário e de todas suas articulações pecaminosas. Assim, ser apenas um jovem, perfeito para os outros e imperfeito a si mesmo.

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