Rir é um ato de resistência

São 8h44 e tive um desejo de me olhar no espelho. Percebi novos fios brancos ao interromper uma coceira. Observei alguns cravos perto do nariz e ao virar minha cabeça vi uma marca antiga no meu olho. O sinal de uma pedrada quando resolvi comemorar um gol. Estranho, como ficar diante deste objeto faz gritar em mim uma frase que me persegue há dias: “Rir é um ato de resistência”.

Quando terminei de escrever, nenhum sorriso pulsou de minha boca. Ela ficou imóvel. Apenas a língua, de vez em quando, se movimentava para umedecer meus lábios. Se estou ansioso, minhas sobrancelhas ficam subindo e descendo, em um descompasso desafinado. O que tem a ver risos com resistência? Fiquei por volta de 10 minutos, sem comunicação para ouvir meus pensamentos. 

Talvez na velhice tenha problemas de coluna. Não fico sentado corretamente na cadeira. Há um conflito quando olho no espelho, talvez seja pela necessidade de resistir, talvez seja pelo desejo de rir, de sorrir, de dar gargalhadas, de chorar, de sentir o maxilar doer e da barriga ranger de tanto movimentos dos lábios. Comecei a encarar a outra imagem. Ele me intimidou e aos poucos abaixei a cabeça para não encarar suas provocações. 

Ele estava com o olhar fixo em mim e diante da minha aversão comecei a fracionar minha inteligência. Já se passaram quase duas horas e em tempos de aridez e propagação do ódio, rir transformou-se em um ato de resistência. Sim, com a aniquilação dos afetos, dos abraços e do negacionismo, pessoas tornaram-se virtuais e dominadas pelas redes sociais.

Rir significa: “Contrair os músculos faciais por alegria, por achar algo engraçado: piada que me faz rir; riu-se com a piada; riu da piada”. Resistência é “ação ou efeito de resistir, de não ceder nem sucumbir’. Tendência para suportar dificuldades, como doenças, fome, grandes esforços: atleta de muita resistência”. 

Neste momento, muitas representações gritaram e pequenas histórias foram ganhando vida diante de tantas outras estórias mal contadas. Recordei das mães da Sé, movimento de busca por filhos desaparecidos no país. As escadas da Sé tornaram-se um símbolo de resistência, de jamais desistir de encontrar seus filhos. Para muitas mães o mundo desabou, porém, foi o começo de uma grande luta.

Enquanto mães resistem, circos abaixam as lonas e lutam pela sobrevivência. Muitos artistas tentam se reinventar ou apenas resistir durante os meses de sofrimento. Ainda há esperança e o desejo de colocar um sorriso no rosto das famílias nesta realidade duríssima. Já são 12h51 e meu conflito ainda persiste. A imagem do espelho olhou fixamente a mim e parecia querer dizer algo, as marcas de expressão no rosto chegaram a me amedrontar e quando ele virava o rosto à 45º e coçava atrás da orelha, sentia seu desejo de se comunicar e dizia: “ria, ria sempre e resista a qualquer preço”.

Precisei me afastar um pouco. Fiz pequenas tentativas para despreguiçar e desejei resistir como se estivesse em 1968, com os “Panteras Negras”, grupo revolucionário norte-americano que lutava pelos direitos da população negra. São tantas resistências, são tantas lutas, das quais devemos conhecer, participar, estar presente, para fazer parte da história

Vi a imagem rindo, dando um sorriso daqueles que deixam marcas. Ao mesmo tempo recordei da luta dos professores diante do cenário nacional. São tantas histórias comoventes, das quais, mesmo sem uma infraestrutura adequada conseguiram interagir com criatividade, ética e responsabilidade com o ensino-aprendizagem. Nessa hora, soltei um grande sorriso, daqueles que dá para contar todos os dentes da boca.

Quando olhei para o espelho, percebi a imagem encostando as mãos em sinal de oração. Fiquei observando, tentando descobrir quem irá receber suas preces e logo veio à mente uma contradição, enquanto políticos se fartam com altos salários e suas comidas importadas, por outro lado, é possível ver geladeiras vazias, já dizia Carolina Maria de Jesus (1960), “a tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impede a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago”.

Neste momento, compreendi que a imagem do espelho deu um sorriso curto. Não foi algo agradável, senti certa ironia e senti a culpa amargar meu estômago. Às 13h35, levantei e senti a outra pessoa fazer o mesmo, ambos foram a janela e gritaram. Um grito de ódio, um grito de arrependimento, um grito de tristeza. Os vizinhos saíram na rua e sem entender nada ouviam a frase: “Temos que resistir. Resistir é um ato de amor. Resistir às indiferenças. Temos que lutar. Temos que parar de reclamar. Temos que ir a luta”. 

Dei um forte suspiro e a imagem do espelho me olhou, percebi seus olhos úmidos, senti por um instante seu abraço, seu calor e quando me aproximei do espelho, ele deu um forte sorriso, daqueles que te faz sobreviver. Compreendi a necessidade de deixar o personagem que criamos para estar na militância do amor. A vida cotidiana exige de cada um de nós um estado permanente de atenção. 

São 14h20, das histórias reais, daqueles combatentes, resistir foi a principal alternativa para superar a dificuldade. Rir é a principal junção, em dias com pouca luminosidade. Se sua vida está em um breu, perceba qual destino seus passos estão te levando, quando disse essa frase, a imagem do espelho piscou, como se confirmasse essa informação. Resista e reescreva sua história. Deixe seus comentários e esteja no combate, depois da vitória, risos de gratidão serão ouvidos em todos os lugares. Às 14h29, me levantei, olhei fixamente ao espelho, em silêncio, fomos embora.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s