O vermelho patenteado

O lucro da montadora cresceu cerca de 12% no último ano. Segundo os números do fechamento cerca de 40% do crescimento da empresa veio de processos e resultados de entradas em fóruns, devido à decisão controversa de patentear a cor vermelho.

E não é simplesmente qualquer vermelho, mas sim o vermelho da próxima frota de carros que sairá por volta de novembro deste ano. Algumas marcas e agências desavisadas usaram o mesmo vermelho em campanhas e logos, e foram processadas. O mesmo aconteceu com inúmeras empresas que usaram o tom de vermelho para uniformes e campanhas publicitárias.

A montadora disse estar ciente da controvérsia que é patentear uma cor, mas ela acredita que a próxima frota de carros ficará marcada com a cor, no exato tom de vermelho patenteado, e acredita estarem fazendo o certo para o branding da empresa e do novo modelo.

Também disse que se preparou para o ocorrido, contratando o máximo número de advogados e estando atentos a marcas ou bancos de imagens que usarem o tom de vermelho patenteado.

Algumas poucas empresas conseguiram não sofrer processo, ou ganharam causas por argumentarem que o vermelho que usaram era um pouco puxado para o verde, ou tinham alguma porcentagem de ciano que o vermelho patenteado não tinha. Ainda outras conseguiram vencer causas por dizerem que o vermelho patenteado é metálico, enquanto o que eles usaram era digital ou fosco.

Por enquanto não saíram fotos, nem material promocional ou propagandas sobre o novo modelo do carro que levará a cor vermelha patenteada, mas com certeza ele já trouxe mais lucros para a montadora do que muitos outros fizeram.

Quebrando a Quarta Parede

– Ah, finalmente você acordou.

Os dois estavam em uma sala escura com ladrilhos brancos e azuis.

– Quem é você? Onde nós estamos?
– Acalme-se, rapaz. Está tudo bem. Eu me chamo Lírico. Não vou te machucar. Estamos juntos aqui – disse, abrindo os braços e apontando para as paredes frias da imensa sala branca e azul.

– Que lugar é esse?
– Não se preocupa. Já já estaremos longe daqui. Esse é o blog do Pedro.
– Blog de quem?
– Não importa. A questão é que ele se só se deu conta que não tinha texto pra hoje às 9h da manhã, e teve que escrever um texto correndo só pra não passar em branco. – disse, mostrando um calendário enorme em uma das paredes.

– Texto..nós estamos dentro de um texto, presos aqui? – Começou a tocar as paredes.
– Mais ou menos. É só enquanto as pessoas ali leem, olha só…

E eles caminharam por uns passos até verem uma janela.

– Tem alguém lendo isso aqui?
– Claro que tem. Acene para eles.

O mais jovem acenou. Você, logicamente, não acena de volta.

– E quando nós vamos embora? Demora muito?
– Geralmente, não. Ele só precisava de um texto rápido pra hoje. E também ele acha que quebrar a quarta parede faz ele parecer inteligente, igual falar sobre viagem no tempo ou psicologia, essas coisas…
– Hum…
– Agora. Está acabando. Conte comigo…um…dois…
– O quê? – perguntou o mais jovem.

E o mais velho desapareceu. O personagem restante gritou e berrou, mas não havia mais ninguém para ler…

Robô Pedinte #1

Naquela esquina estavam o semáforo, os carros autônomos passando, e o asfalto cansado de tudo aquilo. Ninguém questionou a existência de um semáforo em pleno século XXI, mas também, ninguém notou a presença dele ali. Todos estavam bem atentos às telas de seus dispositivos.

Tanto que não notaram, os transeuntes que por ali passavam, um robô sentado no chão. Era de uma lataria antiga e parecia ser daqueles feitos de ferro. Imersos em suas lentes e telas, e presos a seus fones e dispositivos, não conseguiam ouvir o que aquele pequeno robô parado na esquina tinha a dizer.

Menos o Maicon, que esqueceu o powerbank em casa, e o seu celular já acabou a bateria bem no meio da reunião da empresa. Ele já estava chateado e entediado, porque há décadas todo mundo sabe que ninguém presta atenção em reuniões de empresas, e somente ele teve que prestar atenção, já que não tinha bateria.
Depois de ter recebido uma promoção por isso, saiu em busca de um powerbank ou um carro autônomo para levá-lo para casa. E foi naquela esquina em que ouviu as palavras robóticas vindo do seu lado direito “pode d-dar uma ajudinha, por favor?”

Não dá pra explicar se era a cor da sua lataria enferrujada, o fato de ele ser um modelo super ultrapassado, ou dele estar exatamente ali naquela esquina onde só passavam pessoas presas em suas telas ou carros. Não era o seu discurso, pedindo dinheiro em qualquer quantia, ou qualquer outro tipo de ajuda.

Ele estava lá todo o tempo, mas ninguém percebeu.

Náufrago, mas não sozinho

Então ele abriu os olhos, e olhou em volta calmamente. Demorou aperceber que estava na situação que tinha visto muitos personagens em filmes e livros que amava: Ele era um náufrago

Logo pela manhã, enquanto caminhava pela praia, se lembrando das coisas que deveria saber neste caso – não beber água do mar, não comer qualquer coisa que aparecer na frente, cuidado com babuínos e ursos polares da floresta, por exemplo – e procurava algo para ser seu café da manhã, pensou numa possibilidade infalível.

Já vivenciou situações constrangedoras em toda a sua vida como empregado, e depois como sócio, dono e até como turista em outros países. Já sabia o que fazer.

Adentrou a floresta em busca de feijões. Qualquer feijão. No caminho, achou algumas frutas, tentou balançar um coqueiro, atirou pedras em galhos altos para caírem frutos que nunca tinha visto no mercado.

Comeu outras coisas que nunca tinha pensado em comer na vida, e nem sabia se tinham nome. Lembrava do que via nos filmes e livros. Tinha que fazer uma fogueira, uma cabana para se proteger das chuvas, uma lança para se proteger de animais. Mas ele só precisava de um feijão.

Depois de dar voltas dentro da floresta, e quase completar uma volta na ilha, chegou à terrível conclusão de que estava sozinho. A loucura chegaria à sua mente em algumas semanas. Ele precisava se virar com as coisas que o universo lhe dava. E o Universo, ele é infalível.

Achou feijões.

Os comeu. Do jeito que estavam, crus. Fariam efeito mais rápido.

Esperou alguns minutos sentado na areia da praia. Seu estômago agiu como se estivesse colaborando com seu plano.

Peidou.

Exatamente dois segundos depois:

– Marcos! Você por aqui!

Deve Ser Engano

O telefone de Carlos tocou. E tocou e tocou. Ele atendeu.

– Alô?
– Alô, é o Marcio?
– Marcio? Não..aqui não tem nenhum Márcio
– Quem ta falando?
– Carlos. Acho que é engano
– É, que esse número ta marcado aqui como o do Márcio
– Mas não é não, senhor
– Desculpa, então
– Ah, tudo bem
– Tchau
– Hum..tchau

Na mesa do lado, Matheus achou melhor não comentar nada. Reconsiderou e cutucou Carlos.

– Tudo bem, cara?
– Tudo.
– Você tava mandando mensagem pra alguém?
– Não, não. É que me ligaram. Mas era engano.

Matheus achou melhor não contrariar. Reconsiderou.

– Cara, não é a primeira vez que acontece, e o pessoal do escritório já percebeu…se você quiser parar um pouco, esticar as pernas, sei lá…fica tranquilo
– Não, foi só uma ligação aqui. Era engano.
– Não, Carlos. Ninguém te ligou, não.
– Ligou sim. Queria falar com um tal de Márcio.
– Tá no silencioso?
– Não tá, aqui olha… Ô Rafa, não tocou aqui, agora a pouco?

Rafa subiu o olhar por sobre a baia de frente a de Carlos. 

– Não tocou não, cara.

Olhou no registro de chamadas, e não havia ligação nenhuma.

Carlos viveu cerca de sessenta anos depois deste ocorrido, passando sequer um dia sem pensar nas coisas que aconteciam só pra ele e mais ninguém.