Coisas que dizemos para o universo

– Tá, tá bom. Pode ir – disse o universo

Lucas se assustou. Não esperava uma voz vindo sabe-se lá de onde respondendo sua afirmação com pouco nexo.

– Oi?
– Pode ir no banheiro. Na verdade eu nem ligo muito.
– Hãn? – Disse Lucas tentando identificar de onde vinha a voz. Todos estavam na cozinha, e ele estava no corredor, em frente ao banheiro.

– Você disse “eu vou no banheiro“. Eu vi. Na verdade eu sempre vejo.
– Falei.
– E você não falou alto o bastante para ser alguém específico, mas também não falou no pensamento. Não foi?
– … É, foi…
– Então – suspirou – imagino que foi para mim.

Lucas começou a procurar nos quartos dos irmãos, mas não achou de onde a voz vinha.
– Você caiu ontem na rua, Lucas

Paralisou.

– Caí?
– Caiu sim.
– Em frente a loja da Márcia.
– Foi mesmo.
– E o que você disse depois de cair?
– É…que…que era uma pedrinha no chão.
– E pra quem você disse isso, Lucas? Foi pra alguém em específico?
– Não, na verdade foi pra…pra, sei lá.
– Pro universo.
– Isso.
– Eu sou o Universo, Lucas.
– Eita – se encolheu no canto do corredor.
– E sabe o quanto eu ligo pra você caindo no chão, indo no banheiro, ou fazendo qualquer coisa errada enquanto dirige?

Lucas se encolheu mais ainda. Parecia ser a primeira pessoa a levar uma bronca do universo, e não sabia como funcionava.

Se fosse igual às broncas da sua mãe, a pergunta era retórica, e se ele respondesse tomaria logo um tapa. E não queria tomar um tapa do universo. Mas ali estava, no corredor, na porta do banheiro.

– Lucas, cê tá bem, meu filho?

Era o pai dele. O universo, pelo visto, tinha ido embora.

– Ah, tudo bem, pai. Eu só vou no banheiro rapidinho…

Náufrago, mas não sozinho

Então ele abriu os olhos, e olhou em volta calmamente. Demorou aperceber que estava na situação que tinha visto muitos personagens em filmes e livros que amava: Ele era um náufrago

Logo pela manhã, enquanto caminhava pela praia, se lembrando das coisas que deveria saber neste caso – não beber água do mar, não comer qualquer coisa que aparecer na frente, cuidado com babuínos e ursos polares da floresta, por exemplo – e procurava algo para ser seu café da manhã, pensou numa possibilidade infalível.

Já vivenciou situações constrangedoras em toda a sua vida como empregado, e depois como sócio, dono e até como turista em outros países. Já sabia o que fazer.

Adentrou a floresta em busca de feijões. Qualquer feijão. No caminho, achou algumas frutas, tentou balançar um coqueiro, atirou pedras em galhos altos para caírem frutos que nunca tinha visto no mercado.

Comeu outras coisas que nunca tinha pensado em comer na vida, e nem sabia se tinham nome. Lembrava do que via nos filmes e livros. Tinha que fazer uma fogueira, uma cabana para se proteger das chuvas, uma lança para se proteger de animais. Mas ele só precisava de um feijão.

Depois de dar voltas dentro da floresta, e quase completar uma volta na ilha, chegou à terrível conclusão de que estava sozinho. A loucura chegaria à sua mente em algumas semanas. Ele precisava se virar com as coisas que o universo lhe dava. E o Universo, ele é infalível.

Achou feijões.

Os comeu. Do jeito que estavam, crus. Fariam efeito mais rápido.

Esperou alguns minutos sentado na areia da praia. Seu estômago agiu como se estivesse colaborando com seu plano.

Peidou.

Exatamente dois segundos depois:

– Marcos! Você por aqui!

Só uma reclamação

Nós, seres humaninhos, chegamos a um patamar excelente nas revoluções sociais e tecnológicas de tudo que nos distancia dos demais animais que convivemos.

Temos o ar condicionado, que nos possibilita controlar a temperatura artificialmente por meios naturais de pressão e compressão do ar. Temos a rede de internet e telefonia, que conecta todos na empresa sem saírem de seus assentos, permitindo até mesmo que eu peça para a recepcionista avisar para meu colega de sala que foi pegar café, trazer um copo para mim também.

Olha só, pessoal. Algumas coisas nos aproximam mais de outros animais do que podemos, um simples vislumbre, pensar.

Quem já teve gato sabe que precisa ter uma caixinha de areia. Seu gato vai até lá, faz suas necessidades e as cobre cuidadosamente com areia.

Quem tem cachorro sabe que precisa ter uma pazinha e uma vassoura prontas para qualquer surpresa que seu cachorro deixar bem frente à porta de entrada da casa. Eles ainda fazem um movimento com as patas, como se estivessem limpando o local, por pura sensação de higiene.

Quem aí é humano, e está me ouvindo aqui, nós fazemos nossas necessidades em vasos sanitários. É para isso que evoluímos tanto social e tecnologicamente, inclusive. Para o maior conforto ao momento de suprirmos nossas necessidades mais básicas. Falando nisso, parabéns a todos os seres humanos envolvidos na descoberta e fabricação da cerâmica, até hoje! Continuando…

O bicho homem, antes de tudo, é um ser social. A gente precisa de aceitação, galera. Não é?

É neste ponto que chegamos à finalidade disso tudo, meus amigos. Na busca de aproveitar melhor o espaço da empresa, colocaram a Natália do Telemarketing na frente do banheiro do segundo andar.

Ah não. Aqui é o limite. É muita pressão

A gente precisa de um pouco de espaço e privacidade antes e depois de fazermos nossas necessidades. É uma questão básica de sobrevivência em sociedade. Vocês não concordam?

Depois de um silêncio na sala, eu respirei fundo. O chefe limpou a garganta, e disse “obrigado pelo seu ponto, Rodrigo. Vamos ver o que podemos fazer a respeito. Mais alguém tem alguma reclamação? Não? Terminamos aqui a reunião da empresa. Estão dispensados. Até segunda-feira”

Sala de Espera

O ser humano, em sua natureza, não está acostumado a novos ambientes. No começo, a barriga da mãe estava super legal, e ninguém precisava tirar ninguém lá de dentro. O choro do bebê é, com certeza, um protesto a essa repentina mudança de ambiente. É claro, existe todo aquele negócio de respirar, que é muito complicado. Isso sem falar na mudança de pressão e temperatura de dentro da barriga da mãe para sala fria e branca do hospital.

A partir daí, caro leitor, é só observação. A gente, desde muito pequeno, entende que precisamos nos adequar aos ambientes, com a completa certeza de que, se formos notados, o ambiente nos engolirá vivos.

Então começamos a observar nossos pais falando e conversando, e imitamos. Observamos como eles andam, e tentamos andar também. A vida se torna um único e extenso processo social de observação e imitação até que não exista mais nada para imitar. O que é muito complicado, afinal as pessoas a quem imitamos já imitaram alguém. Essas pessoas imitaram outras pessoas também. Existiu alguém que não tinha referências para imitar.

O ápice deste experimento de sobrevivência social é a sala de espera de qualquer consultório. Você chega, e todos olham para você. Você precisa fazer alguma coisa e sobreviver, senão logo aqueles olhos vão começar a te engolir. Para isso que existe a recepcionista. Ela está pronta para receber os novos visitantes àquele ambiente, e adequá-los às novas condições. Documento, triagem, “sente-se e aguarde ser chamado”.

Obrigado, moça.

Agora preciso escolher uma cadeira não muito perto nem muito longe de alguém, e fingir que sempre fui daqui. Logo chega mais alguém, e eu não vou ser mais o novato.

Protocolo Conversinha

– Isso, isso. Continua andando – disse o comandante, de sua ponte de comando – mais uns dois quarteirões a gente chega lá

De repente aparecem nos monitores um rosto conhecido
– Setor de reconhecimento! 
– Sim senhor! – gritou um dos homenzinhos de sua mesa, lá debaixo
– Rosto familiar. Acionar setor! 

O telefone toca. O comandante atende
– Alô
– Senhor, entraram em contato. Observe no monitor 15
– Monitor 15, monitor 15…aqui! 
– Setor de reconhecimento, senhor – apareceu um homenzinho do seu lado, trazendo uma pasta
– O nome dela é Helena
– De onde conhecemos ela?
– O setor está trabalhando nisso, senhor – disse, apertando o fone na orelha

O telefone tocou de novo
– Ela permanece em contato, senhor.

O comandante digita um código no seu teclado, e aparece em todos os monitores
PROTOCOLO CONVERSINHA

– Rápido, reconhecimento!
– Achamos a ficha, senhor. Ela é caixa do mercado. Compramos duas vezes com ela no último mês…
– E porque ela está mantendo contato?!
– A conhecemos também da festa na Cláudia, dois meses atrás. Parece que ela é esposa do Marcos.
– Protocolo conversinha ativado! – alguém gritou das mesas lá embaixo.
– E aí Helena! Como é que vai o Marcão?…