Pelo bem do coletivo humano

A coletividade humana é impressionante. Qualquer timelapse de uma avenida movimentada, ou da construção de um arranha-céu ou de qualquer obra monumental deixa claro como os pequenos seres humanos, quando trabalhando juntos, conseguem fazer algo grandioso.

Isso porque o serviço de poucas pessoas já é louvável e merece atenção, como as grandes mentes que iluminaram toda a humanidade durante o Renascimento Científico. Mas o conhecimento científico, acadêmico e em cultural cresceu exponencialmente quando a humanidade começou a agir junta e simultaneamente, com a evolução dos meios de comunicação.

Cientistas dedicam suas vidas ao estudo, à pesquisa, ao desenvolvimento. Soldados dedicam suas vidas ao treinamento e aprimoramento de suas táticas. Médicos dedicam suas vidas ao tratamento e cuidado de doenças terríveis. Publicitários dedicam suas vidas ao cursinho de inglês e longas exibições de séries da Netflix.

Enfim, nunca nada foi pedido com tanta ênfase a pessoas de todas as classes, de todas as idades e formações. Países em línguas diferentes, médicos e biólogos, têm repetido e pedido com toda a urgência possível, que todos façam algo pelo bem do coletivo humano.

Essa coisa que estão pedindo não é fazer exercícios físicos, que para muita gente seria impossível. Não é dedicar sua vida a estudos e pesquisas, ou o treinamento intensivo de qualquer habilidade inalcançável.

Nunca, na história humana, precisamos de homens e mulheres, crianças e idosos, que fizessem algo tão importante para salvar a vida de muitos. E esse pedido não é difícil, não é impossível para a maioria:

Fique em casa.

Nascimento da medicina

Os dois estavam sentados no chão, de frente para o corpo. Era uma situação esquisita mesmo ali, para aqueles dois homens do seu tempo, vivendo as suas vidas na tribo.

– É, ele morreu, né
– Como você sabe? Ele pode estar dormindo, sei lá. Ou quando as pessoas quase morrem…
– Não. Ele não está, não. Olha… – disse, levantando as pálpebras. O homem parecia mesmo morto.
– Sei lá, hein. Pode ser que ele esteja…como é que o Mameq falou? …
– Desmaiado.
– Isso. Não gostei muito dessa palavra.
– Também não. Mas ele tá aqui assim faz horas.
– E agora, o que a gente faz?
– É a primeira vez que você vê um desses?
– É. Desse jeito é a primeira vez. Teve o Daok, mas ele foi caçando Mamute, né. Aí morre diferente.
– É.

Os dois pararam, olhando para o corpo.
– O que acontece agora? – Perguntou o mais novo.
– Você tem uma faca?
– O que?! Você vai caçar ele?
– Não, não. Vou só abrir. Ver como é por dentro.
– Como assim, Bal-kuh? Tá ficando maluco?
– Você nunca imaginou como era por dentro? – disse, olhando para o próprio bucho.
– Não. Lógico que não. E você não vai fazer isso com ele. Nós nem sabemos de que tribo ele é, ou o que aconteceu com ele…
Mah-kao, se a gente não fizer…alguém vai fazer um dia
– Não.
– …se é que já não fizeram
– Tá errado.
– É por questão de cultura, Mah-kao.
– Eu não vou participar disso
– Conhecimento. Você não quer sobreviver?

Um silêncio entre os dois.
– Afinal, algum dia alguém vai ter que fazer isso. Vão saber como somos por dentro, fazer…experimentos.
– O que é experimento, Bal-kuh?
Cirurgia. É abrir o bucho com a pessoa viva. Mexer nela por dentro, pra que ela fique mais viva.

Mah-kao fez cara de nojo.
– Vamos. Isso aqui é para o futuro. Logo vamos estar modificando DNA, fazendo implantes no cérebro. Pegue lá a sua faca de pedra.

Mah-kao se levantou. Saiu resmungando…
– Isso vai dar trabalho. Eu já tô até vendo…

Cachorros da rua

O primeiro cachorro latiu porque um bêbado passou na rua. O bêbado nem ligou, e nem ouviu. Enquanto passava, arrastava uma perna, e uma mala com alguma coisa que fazia barulho, e fazia o cachorro latir.

O segundo cachorro, mais pra cá na rua, latiu porque o cachorro da esquina latiu. Não pensou muito bem no porquê de estar latindo, até porque cachorros, em geral, não pensam. Mas ele latiu. Seu companheiro estava latindo, e ele o fez apenas para fazer companhia. Não estava vendo o bêbado.

Muito menos o terceiro cachorro. Ele não via o bêbado, nem o segundo cachorro. O portão da sua casa era todo fechado, e ele latia justamente porque ouvia seus companheiros de latido, latirem. Não sabia o que era nem queria saber. Era seu protesto por ter um portão que não dava pra ver a rua.

Todos seus sentidos eram a audição e o olfato. E o quarto cachorro só tinha a audição, já que era velho, e não conseguia latir muito. Mas ele uivava, e era muito bom nisso.

Após isso, os cachorros cinco e seis, e todos os outros da rua latiam. E foi assim durante meia hora.

Meia.

Hora.

O bêbado já estava em casa. Os cachorros latiam, e nem sabiam para quê ou para quem. Mesmo os que começaram latindo sem saber porquê.

Alguém reclamou alguma coisa no Twitter…

Terra Dois

Como vocês acabaram de ver no comercial Nova Terra, nós já estamos conseguindo colonizar este planeta maravilhoso!

Na primeira viagem vieram os astronautas, médicos, engenheiros e cientistas. Eles estudaram o solo, as propriedades da atmosfera do planeta e fizeram todas as medições que as sondas não conseguiram fazer. Eles constataram que é possível sustentar a vida por aqui, e fizeram algo que nenhuma sonda conseguiria fazer, Mark. Um filho!
Exatamente, a primeira criança nascida aqui na Terra Dois! Ela é filha de uma Engenheira Botânica com um Geólogo, e ambos vieram na primeira excursão.

Depois disso vieram outras excursões com Advogados, Baristas Técnicos em Informática e mais Jornalistas para documentarem as novas descobertas no planeta. Tudo aconteceu perfeitamente. As pessoas demoraram um pouco para se adequar aos novos horários diários, e à nova rotina de trabalho, num dia de 70 horas. Mas os advogados estavam aqui para resolver tudo, e os baristas para ajudar no que fosse preciso também.

Já estão em processo de aprovação dois feriados nacionais, que também terão certa dificuldade de ser comemorados, tendo em vista que o ano na Nova Terra tem a duração de cerca de três gerações de humanos.

Atualmente existem muitas vagas de escritores especialmente na área de fantasia e ficção científica. Operadores de Telemarketing com experiência e Marketeiros conseguirão vagas facilmente, e já existem vias de patinetes elétricos, então eles se sentirão em casa.

Também os jornais abertos na terra nova precisam de astrólogos, visto que a visão do céu aqui é um pouco diferente da Terra, e a sessão de horóscopo do jornal foi um pouco descredibilizada quando um dos leitores questionou isso.

Venha descobrir uma nova vida na terra nova!

É com você, Evaristo.

Nova Vida, Nova Terra

Narrador: Nós somos da Terra.
Cena: Plantações. Uma flor crescendo e brotando numa timelapse.
Narrador: Crescemos, e fizemos nossa civilização crescer aqui. Mas sempre queremos mais.
Cena: Cidades, movimentações de pessoas. Uma criança olhando para o céu num telescópio
Narrador: Sempre queremos ir mais longe
Cena:O primeiro homem a pisar na Lua
Narrador: E mais longe
Cena: Segunda viagem à Lua
Narrador: E mais longe
Cena: Plantações em Marte
Narrador: E agora estamos encontrando uma nova terra
Cena: Primeira excursão ao Exoplaneta. Chegada, aterrissagem e descida dos astronautas.
Narrador: Venha descobrir uma nova vida
Cena: Família feliz na Terra 2
Narrador: Venha descobrir uma nova Terra
Logo da empresa, em Fade Out.