Pelo bem do coletivo humano

A coletividade humana é impressionante. Qualquer timelapse de uma avenida movimentada, ou da construção de um arranha-céu ou de qualquer obra monumental deixa claro como os pequenos seres humanos, quando trabalhando juntos, conseguem fazer algo grandioso.

Isso porque o serviço de poucas pessoas já é louvável e merece atenção, como as grandes mentes que iluminaram toda a humanidade durante o Renascimento Científico. Mas o conhecimento científico, acadêmico e em cultural cresceu exponencialmente quando a humanidade começou a agir junta e simultaneamente, com a evolução dos meios de comunicação.

Cientistas dedicam suas vidas ao estudo, à pesquisa, ao desenvolvimento. Soldados dedicam suas vidas ao treinamento e aprimoramento de suas táticas. Médicos dedicam suas vidas ao tratamento e cuidado de doenças terríveis. Publicitários dedicam suas vidas ao cursinho de inglês e longas exibições de séries da Netflix.

Enfim, nunca nada foi pedido com tanta ênfase a pessoas de todas as classes, de todas as idades e formações. Países em línguas diferentes, médicos e biólogos, têm repetido e pedido com toda a urgência possível, que todos façam algo pelo bem do coletivo humano.

Essa coisa que estão pedindo não é fazer exercícios físicos, que para muita gente seria impossível. Não é dedicar sua vida a estudos e pesquisas, ou o treinamento intensivo de qualquer habilidade inalcançável.

Nunca, na história humana, precisamos de homens e mulheres, crianças e idosos, que fizessem algo tão importante para salvar a vida de muitos. E esse pedido não é difícil, não é impossível para a maioria:

Fique em casa.

Espionagem de rua

A noite escura da cidade chuvosa esconde as maiores atrocidades que podem ser cometidas contra a sanidade, civilidade, democracia e bom senso da raça humana.

O indivíduo em questão estava postado na esquina, encostado a um poste, enquanto postergava sua hora de jantar para passar uma importante informação.

O que chamaremos de indivíduo Dois chegou, usando um sobretudo e chapéu coco embaixo de um guarda chuva.

– Onde está? – disse, austero
– Onde está o quê? – o primeiro indivíduo disse mostrando uma clara dúvida na sobrancelha por trás dos óculos escuros
– A informação, homem!
– Ah, claro! – começou a mexer nos bolsos, se desencostando do poste – espere só um instante

Neste meio tempo passaram um carro ou dois. O segundo indivíduo olhava atento ao movimento da rua.

– Espera, não tem bilhete, não. Era para eu te dar a informação oralmente.
– Pode dizer – respondeu, se aproximando
– É…
– Diga
– Então…

O primeiro indivíduo tinha um segredo de estado. E era muito importante esse segredo. Mas ele era novo com esse negócio de espionagem e investigação de figuras políticas importantes.

O futuro do país e as revoluções que se iniciariam nas próximas semanas, ou não, dependiam dele.

Ele olhou para sua mão, que tinha uma escrita de caneta borrada com a chuva. Ele jurava que era algo sobre o governador e o presidente. Tinha alguma coisa a ver com uns parlamentares também, e algum plano para desmontar o atual governo em questão.

– É…sobre…o presidente.
– É claro que é sobre o presidente. Desembucha
– Ele… – alguma informação precisava ser passada. Ele estava ali para isso
– … Parece que…- começou a pensar em algo que seria tão relevante quanto o que era para ele ter lembrado.

A informação foi passada.

Revoluções foram feitas, figuras políticas e parlamentares foram subjugados no que foi conhecido como o maior massacre da história daquele país, baseado numa informação improvisada e inventada naquela noite chuvosa e escura.

Nascimento da medicina

Os dois estavam sentados no chão, de frente para o corpo. Era uma situação esquisita mesmo ali, para aqueles dois homens do seu tempo, vivendo as suas vidas na tribo.

– É, ele morreu, né
– Como você sabe? Ele pode estar dormindo, sei lá. Ou quando as pessoas quase morrem…
– Não. Ele não está, não. Olha… – disse, levantando as pálpebras. O homem parecia mesmo morto.
– Sei lá, hein. Pode ser que ele esteja…como é que o Mameq falou? …
– Desmaiado.
– Isso. Não gostei muito dessa palavra.
– Também não. Mas ele tá aqui assim faz horas.
– E agora, o que a gente faz?
– É a primeira vez que você vê um desses?
– É. Desse jeito é a primeira vez. Teve o Daok, mas ele foi caçando Mamute, né. Aí morre diferente.
– É.

Os dois pararam, olhando para o corpo.
– O que acontece agora? – Perguntou o mais novo.
– Você tem uma faca?
– O que?! Você vai caçar ele?
– Não, não. Vou só abrir. Ver como é por dentro.
– Como assim, Bal-kuh? Tá ficando maluco?
– Você nunca imaginou como era por dentro? – disse, olhando para o próprio bucho.
– Não. Lógico que não. E você não vai fazer isso com ele. Nós nem sabemos de que tribo ele é, ou o que aconteceu com ele…
Mah-kao, se a gente não fizer…alguém vai fazer um dia
– Não.
– …se é que já não fizeram
– Tá errado.
– É por questão de cultura, Mah-kao.
– Eu não vou participar disso
– Conhecimento. Você não quer sobreviver?

Um silêncio entre os dois.
– Afinal, algum dia alguém vai ter que fazer isso. Vão saber como somos por dentro, fazer…experimentos.
– O que é experimento, Bal-kuh?
Cirurgia. É abrir o bucho com a pessoa viva. Mexer nela por dentro, pra que ela fique mais viva.

Mah-kao fez cara de nojo.
– Vamos. Isso aqui é para o futuro. Logo vamos estar modificando DNA, fazendo implantes no cérebro. Pegue lá a sua faca de pedra.

Mah-kao se levantou. Saiu resmungando…
– Isso vai dar trabalho. Eu já tô até vendo…

Tática de Guerra

A grande porta de madeira foi meio que aberta, e meio que metade de um rosto apareceu devagarinho, com medo de incomodar.

– General…General!

– Diga, capitão. O que aconteceu?

– Temos um problema. O exército inimigo sitiado está adotando uma nova estratégia, que não estamos conseguindo saber lidar.

– O que eles estão fazendo dessa vez?!

– Parece que eles estão festejando e dançando, general

Pareceu bobo dizer isso, e na verdade era. O general iria querer ver isso com seus próprios olhos.

– Eu preciso ver isso com meus próprios olhos.

– Este é o problema, general. Não creio que seja possível.

– Por quê?! O que está acontecendo que eu não deva saber?

– Então…

– Por um acaso, capitão… eles estão bêbados?

– Seria muito bom, general. Mas eles parecem estar sóbrios. Estão bebendo um tipo de bebida que, segundo nossos informantes…uma bebida que pisca. Não estão fazendo nada de incomum além de dançarem, e…

– E o que, homem?! Desembucha!

– Estão tocando tambores e instrumentos de cordas. Também têm outros sons que nosso povo não conhece.

– Ora, eles estão nos provocando! Mande enviar ma saraivada de flechas imediatamente! Essa guerra terá um desfecho ainda esta noite!

O Capitão não queria mesmo incomodar

– Este também é um problema, general. Os arqueiros estavam em posição para atacar há quatro horas. Nas últimas duas horas eles sucumbiram ao bum bum chacabum, e não estão mais aptos a guerrear.

– Bum o quê?! Do que você está falando, homem?!

– Então, eu consegui vir avisar o senhor, mas os batuques são realmente muito fortes. Nossa infantaria já está caindo nos efeitos do Molejão, e…

– Eu não acredito! Não pode ser verdade! Eu vou ver o que está acontecendo com o meu exércit…

Disse o general, passando pelo capitão e saindo da sala.

A guerra não teve um desfecho exatamente naquele dia, mas, sim, na quarta-feira da semana seguinte. Todos voltaram para os seus treinamentos e afazeres militares depois de um longo fim de semana de tududupá e tiraopédochão.

Diplomatas negociaram tratados de paz e cultura com o povo inimigo, e passaram a organizar micaretas entre os dois povos, e até hoje são um sucesso.

Vida de mosquito

Meu bisavô dizia que todos os homens da nossa família eram dos mais bravos e valentes. Todos eles, sem exceção, já haviam enfrentado o grande…chinelo.

Então ele morreu por uma palma de mão. Nem estava caçando, não. Estava só passeando entre a casa da minha tia e o rancho que ele gostava de passar o fim de tarde. Era uma parede que não pegava sol, e era perfeita, porque passavam cachorros deliciosos depois que anoitecia. Um dia passou alguém, e ele fez barulho demais. Bobeou. Morreu de uma palma de mão.

Meu avô que era valente. Encarava dos piores desafios parar conseguir comida e trazer para casa. Na verdade ele era o que chamamos de ZZzzzz, que, no caso, vai na frente e descobre onde tem comida pra seguirmos depois.

Morreu de veneno. Daqueles SBP, que deixa meio grogue antes de matar de verdade. Ele ainda tentou sair voando, mas não conseguiu. Suas asas estavam molhadas, e estava desorientado. Bateu em um móvel da sala e caiu. Tomou outro spray de veneno. Ficou ali mesmo.

E eu esperava mais do meu pai. Mas os humanos estão melhorando mesmo. Ele morreu de raquete elétrica. Não deu nem tempo de descobrir o que foi. Tá! Morto eletrocutado.
Eu não sei se é o nosso jeito de sentir o tempo passando, ou o que faz parecer que essas histórias aconteceram há muito tempo. Na verdade aconteceram ontem e antes de ontem.

Mas tudo bem. Está na hora do almoço, e preciso achar um ser humano fresquinho que esteja dormindo, para eu voar perto da orelha dele com meus amigos, depois picar a sola do pé, só de brincadeira. Depois vamos passar a tarde descansando na parede da sala, assistindo TV.

Vai ser legal…