Espionagem de rua

A noite escura da cidade chuvosa esconde as maiores atrocidades que podem ser cometidas contra a sanidade, civilidade, democracia e bom senso da raça humana.

O indivíduo em questão estava postado na esquina, encostado a um poste, enquanto postergava sua hora de jantar para passar uma importante informação.

O que chamaremos de indivíduo Dois chegou, usando um sobretudo e chapéu coco embaixo de um guarda chuva.

– Onde está? – disse, austero
– Onde está o quê? – o primeiro indivíduo disse mostrando uma clara dúvida na sobrancelha por trás dos óculos escuros
– A informação, homem!
– Ah, claro! – começou a mexer nos bolsos, se desencostando do poste – espere só um instante

Neste meio tempo passaram um carro ou dois. O segundo indivíduo olhava atento ao movimento da rua.

– Espera, não tem bilhete, não. Era para eu te dar a informação oralmente.
– Pode dizer – respondeu, se aproximando
– É…
– Diga
– Então…

O primeiro indivíduo tinha um segredo de estado. E era muito importante esse segredo. Mas ele era novo com esse negócio de espionagem e investigação de figuras políticas importantes.

O futuro do país e as revoluções que se iniciariam nas próximas semanas, ou não, dependiam dele.

Ele olhou para sua mão, que tinha uma escrita de caneta borrada com a chuva. Ele jurava que era algo sobre o governador e o presidente. Tinha alguma coisa a ver com uns parlamentares também, e algum plano para desmontar o atual governo em questão.

– É…sobre…o presidente.
– É claro que é sobre o presidente. Desembucha
– Ele… – alguma informação precisava ser passada. Ele estava ali para isso
– … Parece que…- começou a pensar em algo que seria tão relevante quanto o que era para ele ter lembrado.

A informação foi passada.

Revoluções foram feitas, figuras políticas e parlamentares foram subjugados no que foi conhecido como o maior massacre da história daquele país, baseado numa informação improvisada e inventada naquela noite chuvosa e escura.

Tática de Guerra

A grande porta de madeira foi meio que aberta, e meio que metade de um rosto apareceu devagarinho, com medo de incomodar.

– General…General!

– Diga, capitão. O que aconteceu?

– Temos um problema. O exército inimigo sitiado está adotando uma nova estratégia, que não estamos conseguindo saber lidar.

– O que eles estão fazendo dessa vez?!

– Parece que eles estão festejando e dançando, general

Pareceu bobo dizer isso, e na verdade era. O general iria querer ver isso com seus próprios olhos.

– Eu preciso ver isso com meus próprios olhos.

– Este é o problema, general. Não creio que seja possível.

– Por quê?! O que está acontecendo que eu não deva saber?

– Então…

– Por um acaso, capitão… eles estão bêbados?

– Seria muito bom, general. Mas eles parecem estar sóbrios. Estão bebendo um tipo de bebida que, segundo nossos informantes…uma bebida que pisca. Não estão fazendo nada de incomum além de dançarem, e…

– E o que, homem?! Desembucha!

– Estão tocando tambores e instrumentos de cordas. Também têm outros sons que nosso povo não conhece.

– Ora, eles estão nos provocando! Mande enviar ma saraivada de flechas imediatamente! Essa guerra terá um desfecho ainda esta noite!

O Capitão não queria mesmo incomodar

– Este também é um problema, general. Os arqueiros estavam em posição para atacar há quatro horas. Nas últimas duas horas eles sucumbiram ao bum bum chacabum, e não estão mais aptos a guerrear.

– Bum o quê?! Do que você está falando, homem?!

– Então, eu consegui vir avisar o senhor, mas os batuques são realmente muito fortes. Nossa infantaria já está caindo nos efeitos do Molejão, e…

– Eu não acredito! Não pode ser verdade! Eu vou ver o que está acontecendo com o meu exércit…

Disse o general, passando pelo capitão e saindo da sala.

A guerra não teve um desfecho exatamente naquele dia, mas, sim, na quarta-feira da semana seguinte. Todos voltaram para os seus treinamentos e afazeres militares depois de um longo fim de semana de tududupá e tiraopédochão.

Diplomatas negociaram tratados de paz e cultura com o povo inimigo, e passaram a organizar micaretas entre os dois povos, e até hoje são um sucesso.

Guerra de Unboxing

Olá pessoal, sejam bem vindos a mais um vídeo, e dessa vez vamos abrir alguns recebidinhos da Terceira Guerra! Lembrando que essa série de vídeos é uma parceria com a linha nova da Nike, WW3.

Com os tênis novos da Nike, você está preparado para qualquer terreno, qualquer dificuldade. Sua performance, sua corrida e sua sobrevivência estão garantidos com qualquer tênis da linha Nike WW3! Além disso eles contam com a nova tecnologia anti-furto da Nike, que garante que ninguém vai roubar seu tênis durante a guerra, mesmo depois que você morrer! Agora vamos ao unboxing…

Bem, pessoal..chegou essa pequena caixa aqui. Veio toda embalada nesse papel parecendo camuflagem de exército, estão vendo? Excelente, super temático. Deixa eu abrir aqui…pronto. É um headphone! Uau, o modelo dele é impressionante. Super confortável. Veio também o cabo para carregar, e um manual. Ele é bluetooth, e você consegue parear com a sua metralhadora semi-automática. Não é o máximo?! Vamos para o próximo item da nossa lista!

Olha só, galera…dentro dessa embalagem tem um kit de maquiagem camuflável ma-ra-vi-lho-so! Perfeito para qualquer batalha, seja na praia, na floresta, no deserto. E o melhor, olha aqui: Não sai na água. Não borra. Você pode morrer num mangue, no mar, que vai continuar perfeita!

Agora para o último item que recebi nessa última semana. Espera que eu vou buscar…Aqui, gente. Olha o tamanho dessa caixa?! O que será que veio aqui dentro? Vamos abrir!

Uau, galera. Aqui dentro da caixa veio uma submetralhadora eletrônica! Ela tem mira automática, com reconhecimento facial, e trava com digital. Você também pode conectar ela via bluetooth no seu celular, e saber quantos disparos e quantos acertos você deu durante o dia. Além disso ela vem com uma câmera aqui na frente, para o seu instagram não deixar de bombar durante a guerra!

Limpadores 3000

A ideia era fazer um robô ecológico. Simples assim. Nós, da HallTech, criamos máquinas que ajudam nossa vida a ser mais fácil, prática, e que nos dê conforto. Estávamos preocupados com a recepção que nosso novo produto teria, mas estamos felizes por termos atendido grande parte das necessidades humanas por um preço acessível. Próxima pergunta?
– Eu!
– Pois não
– Quais são algumas funções do novo robô?
– Bom, ele possui todas as funções a favor da natureza que nós deveríamos ter. Você pode mandar ele plantar árvores, se tiver mudas próximo a ele. Pode mandar ele jogar o lixo, que é uma tarefa simples, mas vejam aqui no vídeo…instalamos sensores de diversos tipos, e eles conseguem distinguir o lixo, e separar o que é reciclável, o que é orgânico, e coloca nas cores certinhas dos latões de lixo…

Todos aplaudem a imagem. Alguns fazem expressão de maravilhados.

– … Olha, olha! Essa é minha parte favorita. Ele deixa cair um papel de bala. Não é de propósito. Vejam só. Ele para, volta e pega o papel!

Todos aplaudem novamente. Um dos jornalistas levanta a mão.

– Com este novo robô, estamos próximos do primeiro passo de restaurar nosso planeta, senhor. O que vocês esperam de resposta daquelas empresas e governos que procuram apressar o apocalipse?
– Como eu disse antes, estávamos preocupados com a recepção desse novo produto. Até agora não houve pronunciamento de nenhuma dessas empresas e governos. Acredito que o mercado é gigantesco para todas as partes, e todo mundo pode ter seu lugar ao sol, especialmente depois das explosões solares da última semana..

Alguns riram. Outros acharam a brincadeira de mal gosto, talvez só porque perderam algum conhecido ou parente que morreu de câncer.

– Qual você espera que seja o impacto na natureza e no planeta terra para o futuro? – Perguntou um outro jornalista

Silêncio. O entrevistado parou por uns segundos para pensar na resposta, mas não vinha nada à mente.

– Ah, bom…futuro…a gente sabe que não vai ter, né. Não pra nós. O objetivo deste novo robô, que foi anunciado nessa exposição, é tornar mais confortável nossa vida nos próximos anos ou décadas. Vamos continuar produzindo novos modelos que desfaçam algumas coisas que fizemos de mal para a natureza, e coisas assim…mas isso não vende. Agora, respondendo à sua pergunta, sobre o futuro. Essa primeira linha de Limpadores inteira está programada para se jogar no mar assim que o apocalipse começar. Pelo menos no mar não tem ninguém morando, e as baterias de lítio não vão explodir na cara de ninguém.

Desta vez ele riu, mas riu sozinho.

Cinco anos depois o apocalipse começou. Os Limpadores 5000 começaram a matar os humanos que faziam mal à natureza. Governos caíram. A HallTech fechou e disse não se responsabilizar pelo ocorrido. Hoje o planeta vive super bem, sendo cuidado pelos Limpadores 6000 que não se jogaram no mar, e cuidam da terra como ela deveria ser cuidada.

Porão

O pai disse que, na época dele, as crianças corriam para a rua quando passava avião. Que elas gostavam do som e da sensação de ouvir os motores no ar. Disse que elas até acenavam para o avião, como se ele pudesse responder.

O vô disse pro pai parar de contar lorotas pra gente, e que nada vai voltar a ser como era. Falou também que sonhar não leva ninguém a lugar nenhum, e ficou olhando pela janelinha do quarto.

A mãe disse que quando o vô fica olhando pela janela, é porque ele tá lembrando da vó, e que não é pra atrapalhar.

Falou também que o que o pai falou era verdade, e disse que era assim mesmo. As crianças ficavam brincando na rua. Que passavam muitos carros na rua. Os carros é que eram perigosos. Tinha combustível pra muitos carros andarem, e eles eram perigosos.

O pai falou que as buzinas dos carros eram como as sirenes. Os caminhões faziam a terra tremer, como fazem as bombas quando caem.

Eu só queria brincar na rua com meus amigos. Queria ainda ter amigos. Que nenhum deles fossem levados pra longe pelos moços de roupa verde, e que eles tivessem todos vivos.