Coisas complicadas por aqui

Caro amigo extraterreno!

Tudo bem com você? Espero que as coisas estejam bem aí fora.

Eu já te disse que as coisas por aqui mudam muito rápido. Além disso, acontecem coisas simples que se tornam tão complicas em pouquíssimo tempo.

Por exemplo, há menos de seis meses um senhorzinho do outro lado da Terra tossiu bastante. O médico dele disse que ele não estava bem, e tinha alguma coisa estranha com aquela tosse. O senhorzinho e o médico morreram. E agora pessoas aqui do outro lado do globo estão morrendo dessa mesma tosse. Outras estão perdendo o emprego, que, não sei se já te falei, é meio que essencial para a vida por aqui também. Às vezes parece até mais importante que a vida, mas enfim.

Eu sei, parece muito simples, e na verdade é.

E você deve ter percebido daí de cima, como lugares que antes viviam cheios de gente agora estão vazios. Isso porque todos os esportes foram meio que adiados. O turismo foi cancelado por um bom tempo, parece. As pessoas estão tendo que praticar sua religião em casa. E de casa que elas estão assistindo muito filme e série, e fazendo várias lives e memes sobre tudo isso.

Se pretendia vir para a Terra, por favor, espere pelo menos um ano até as coisas se acalmarem por aqui.

Longe da Terra

– Capitão, recebemos um sinal! – Foi mais ou menos o que quis dizer aquela forma de vida estranhíssima para outra forma de vida igualmente estranha.

O que atendia por capitão se aproximou. Parecia estar atento ao que seu subordinado, se é que essa era a forma dessa espécie estar atenta.

– Que tipo de sinal recebemos?
– Um sinal de Rádio
– Rádio?
– É, uma tecnologia nova em que estamos trabalhando. Olha aqui – e mostrou um mapa da galáxia, e de onde provavelmente o sinal de rádio vinha.
– Interessante – disse o capitão
– Estamos recebendo esse sinal há dias, mas acabamos de decodificá-lo – acrescentou, puxando das tralhas embaixo da mesa uma caixa de som. – Vou tocar para o senhor ouvir.

E ligou os fios, mexeu em uns programas no computador. A caixa começou a tocar Johnny B. Goode.
– tchi, tchi, tchhhhhh, tchiiii…

Pausou o som.

Depois de um breve silêncio.

– É…É estranho, né
– É sim, capitão. Mas acreditamos ser uma mensagem de alguma civilização distante. Podemos fazer pesquisas e descobrir o que querem dizer, e finalm…
Foi interrompido por uma longa risada do capitão. Se é que isso pode ser considerado uma risada.
– Continue fazendo seu trabalho, garoto. Somos só nossa espécie no universo.

E saiu

Meses depois, aquele mesmo planeta foi atingido pela Voyager 1. A maior cidade daquela espécie, e daquela civilização, perdeu grande parte dos seres vivos que moravam sobre a superfície. Acharam isso uma afronta, e vieram à guerra contra o planeta Terra.

Quando chegaram aqui constataram que, há um bom tempo, estavam mesmo sozinhos no universo.

Nuvenzinhas Cinzas

Caro amigo extraterreno,

Não sei se você ainda nos observa aqui embaixo. Acredito que o universo tem muita coisa mais legal que a gente para ser observado.

Mas, se você ainda faz isso, deve ter percebido umas pequenas nuvenzinhas cinzas onde antes era verde.

Desculpa. Nós que fizemos isso.

Acontece que nós, aqui do planeta Terra, precisamos de oxigênio. Usamos esse gás para quebrar partículas de açúcar, e gerar energia para o nosso corpo. É mais ou menos assim que a vida funciona por aqui.

Esse problema vem de algo que eu ainda não expliquei: Nós não produzimos oxigênio. Só o gastamos, e expelimos outro gás depois. Quem produz oxigênio são as árvores. Elas são essas nuvens verdes que você vê daí. Nas árvores também vivem bichos e insetos que são essenciais para a nossa vida.

Só que a vida tem parado de funcionar direito. Estamos, aos poucos, queimando os pulmões da Terra, meu caro amigo. Parece que é muito melhor tirar árvores e plantar soja. Rende mais desmatar para dar lugar a vacas, e fazer churrascos.

Aliás, churrasco é um ponto forte de visita à Terra. Nós aqui fazemos um churrasco como ninguém. É uma arte que dominamos tão bem, que não consigo explicar direito como funciona, caro ET. Coincidentemente, as coisas começaram a dar errado por aqui quando começamos a fazer churrasco.

Só gostaria de explicar que, quanto menos áreas verdes e mais fumaças cinzas você ver aí de cima, mais perto estamos de deixar de respirar. Venha visitar a Terra enquanto ainda existe vida. Porque, depois disso, pelo visto, vai ser só nuvenzinhas cinzas.

Comunicação Intergaláctica

Quando as grandes civilizações extraterrestres entraram em contato com os povinhos aqui da Terra, a maior dificuldade foi a comunicação. Não só porque a tecnologia e a linguagem deles já estava muito avançada em comparação com a nossa, mas simplesmente por não termos aparelhos fonadores naturais para entendermos e reproduzirmos muitos dos fonemas falados por nossos vizinhos de galáxia.

E, falando em aparelhos, nossos robôs já se viam entediados há muito tempo, por não terem mais o que aprenderem com os humanos e nem consigo mesmos. A capacidade de nossas inteligências artificiais já tinham atingido seu ápice, tendo absorvido tudo o que a humanidade poderia dar. Então eles aprenderam a língua dos extraterrestres.

Aprenderam não só a língua, como também a cultura, os costumes, e toda sua ciência disponível. Descobriram, em poucos minutos de processamento, muito mais coisas sobre o universo do que nossa pífia existência tinha aprendido em tantos séculos. A própria razão da existência de nossas máquinas voltou à vida. Eram nossos elos com essas criaturas de outra galáxia.

Então, tendo aprendido seu idioma e cultura, eles passaram a se comunicar com os visitantes, passando a eles parte de nosso conhecimento. Foi então que descobrimos um fato engraçado: A risada é universal. Depois de alguns minutos rindo de nosso “vasto conhecimento”, permitiram que nossos computadores traduzissem à nossas linguagens algumas informações sobre o universo. Não muitas. Para que nós, humanos, não nos assustássemos tanto.

Depois deste primeiro embate, entendemos, como raça humana, que aquela civilização extraterrestre estava muito longe do que podia se chamar de “grande”. Em comparação com o restante do universo agora conhecido, nada é realmente “grande”. E, mais importante ainda, nada é como nos filmes e séries de TV, e mais ninguém na galáxia fala e entende fluentemente em inglês.

O maior predador do bando de humanos

Meu caro amigo extraterreno,

Te escrevo novamente porque as coisas têm ficado realmente complicadas aqui embaixo. Se eu ficar muito tempo sem te explicar qualquer coisinha, tudo pode mudar e virar um caos.

Depois eu explico o que é caos.

Agora vou te explicar o que é go-ver-no.

Primeiramente, é bom explicar, a culpa é totalmente nossa. Na época que tínhamos mais medo dos outros animais aqui da terra do que dos nossos semelhantes, começamos a morar próximos uns dos outros. O ser humano não é um bicho muito social, como você pode reparar aí de cima, mas a gente vem se virando.

Nessa de morar perto, que chamamos de comunidade, começamos a precisar de coisas que outros tinham, e fazer trocas. Isso eu já te expliquei muito bem por aqui.

O problema é que nós somos muito carentes, meu caro amigo. Começamos a precisar de alguém para botar a culpa das mazelas da comunidade. Geralmente era quem tomava a frente em ser o maior predador do bando de humanos. Ele ganhava por escravizar outros e, portanto, não precisar trabalhar. Os escravos (que explico melhor sobre isso depois) sempre acabavam por depor o escravizador, prontamente elegendo alguém para dominá-los. Mas agora era diferente. Era alguém que eles conheciam. Até hoje nós elegemos nossos maiores predadores do bando de humanos. O processo de escravização acabava de ganhar uma nova etapa – e, como vou te explicar sobre isso mais pra frente, vamos pular para a parte que te interessa.

Quando você vier fazer-nos uma visita à terra, caro amigo, procure falar com o pre-si-den-te. Ele quem comanda as coisas por aqui. Quanto àquela de ter a culpa das mazelas da sociedade? Ele também. Ah! E é ele quem vai te dar um bom lugar pra morar, alguns folhetos de resorts e praias maravilhosos, para você aproveitar sua estadia por aqui.
Talvez você queira perguntar a ele sobre fome, saúde e desemprego, que são outras coisas que acontecem por aqui, e prefiro falar delas mais tarde, em outra ocasião.