Demissão

Eles se sentaram, cada um de um lado da mesa.

– Então, chefe…eu estava analisando como estão as coisas, sabe. O meu tempo, a questão do dinheiro também…E resolvi te chamar aqui, na minha sala, para conversar…

– Sim, Rogério, pode falar.

– É o seguinte. A gente tá fazendo uns cortes na questão de gerenciamento de tempo. E isso é porque eu quero preservar minha saúde mental e emocional, mesmo, sabe. A gente sabe que você se esforça muito em sempre me dar mais coisas para fazer aqui na empresa, e tudo…

– Como assim? – o chefe não entendeu direito.

– A gente conversou muito, e chegamos a essa decisão.

– A gente quem? Por que você tá falando na terceira pessoa? E que decisão é essa?!

– Então, eu decidi te demitir – disse, resolutamente

– Não, Rogério. Você não pode fazer isso.

– Podemos sim, e na verdade começamos a dar entrada na papelada. Você começa de aviso prévio na semana que vem.

– O quê?!

O chefe começou a ficar nervoso, batendo na mesa.

– Eu, particularmente, gosto muito de trabalhar aqui, e do serviço que eu presto na empresa. Mas acho que já estou me esgotando, e tá sugando demais o meu tempo, que eu deveria estar passando com a minha família, e com as coisas que eu realmente gosto…

– Não, Rogério. Eu vou correr atrás dos meus direitos. Você não pode me demitir e sair assim. E a falta que você vai fazer na empresa, Rogério?

– Isso tudo a gente já conversou, eu e as coisas aqui dentro da minha cabeça. Agora você sai aqui e passa no RH, tá bom? Obrigado…

– Eu vou procurar um advogado – disse, se levantando.

– Tá, tá bom. Quando sair chama o meu gerente pra mim, fazendo favor…

Reunião de Elite

– Bom, pessoal, fiquem à vontade. Quem quiser café, uma champanhe. Tá tudo aqui em cima.
– Não vamos para a sala de reunião?
– Ah, não. Aqui é a sala de reuniões.
– Está todo mundo aqui, senhor

Ele começou, aumentando a voz.

– Muito bom. Primeiramente gostaria de agradecer a presença de todos aqui. Estamos tentando há anos juntar os maiores bilionários do mundo, e não foi fácil ajustar a agenda de todos para que estivéssemos aqui. E, como todos sabem, nós que controlamos o mundo. Os governos ajudaram alguns de nós, no começo. Nós os ajudamos de volta depois, e agora muitos de nós aqui nesta sala têm mais dinheiro que países inteiros.

Alguém saudou. Outros puxaram um brinde em alguma língua que nem todos entendiam.

– Alguns de vocês ajudaram a mudar a terra. Fisicamente. Acabaram com florestas, mudaram o curso de rios e cachoeiras, fizeram e destruíram represas. Custaram algumas vidas, lógico. Mas se vocês estão aqui, é porque valeu à pena.

Novamente, alguém gritou alguma saudação e, à essa hora o champanhe começava a subir à cabeça. Ele continuou…

– E, eu andei pesquisando…parece que alguma empresa de alguém daqui conseguiu acabar com uma vastas espécie de pássaros do ártico, é isso mesmo?
Um senhor barbudo e de turbante levantou a mão.

– Também um investidor agrícola conseguiu acabar com grande parte das vacas que espalhavam doenças, e substituí-las por outra espécie de vaca num continente inteiro?
– Isso. Ele aqui, ó – apontou um senhor rico para outro senhor rico

– Então…eu gostaria de contar com a colaboração de vocês, que já fizeram o esforço de estarem presentes nessa breve reunião, para fazer um pedido bem…pessoal. – deu uma breve pausa. Tomou um gole da taça que segurava – eu gostaria de extinguir o escorpião.

Alguém cuspiu champanhe em outro alguém que ficou rico fabricando champanhes. Muitos começaram a resmungar e a conversar entre si. Um deles levantou a voz.

– Escorpião, senhor?
– Isso. Escorpião.
– Alguma raça, ou espécie específica?
– Não. Na verdade todos eles.
– Haveria algum motivo específico, senhor? – outro perguntou
– Eu sou bilionário. Não gosto de escorpiões. Simplesmente não aceito viver no mesmo mundo que eles…

– Eu ganho dinheiro extraindo veneno de escorpiões – gritou alguém lá do fundo, e começou um burburinho.

Com medo de perguntar o que ele ganhava extraindo veneno de escorpiões, ou para quem vendia, o dono do evento resolveu retomar as rédeas da situação elevando sua voz, e chamando a atenção de toda a gente da elite.

– Senhores, senhores. Todos nós temos algo pelo qual não gostamos, não é? – muitos balançavam a cabeça – O mundo é nosso. É só decidirmos mudar algo, que conseguimos. É por isso que eu criei esta sociedade aqui. O que deixa vocês indignados? O que vocês gostariam que acabasse nesse instante?

Todos levantaram a mão. Ele foi chamando, um por um, para dizerem quais eram seus desgostos pessoais…
– Eu não gosto de areia no sapato!
– Eu não gosto de carros com trava sem biometria!
– Eu não gosto de declarar imposto de renda!
– Eu não gosto de Movimentos Sem Terra!
– Eu não gosto de pobre!

Crise Criativa

– Preciso avisar aos meus colegas de equipe, que essa ideia já foi usada. Texto número 49. Virada. 25 de dezembro de 2018.
– É, ele está certo. Esse negócio de alienígenas observando a terra, e a inutilidade da virada de ano.
– Ah…
– Já faz um ano, isso?
– Já.
– Estamos no meio de uma crise criativa, time. Temos que fazer algo a respeito. E o maior problema não é que não estejamos tendo ideias. A questão é que estamos tendo ideias repetidas. Nós já pensamos em roubar ideias de outros blogs ou livros, mas não dá muito certo. E agora estamos chegando aos 150 textos. Muitas ideias que tínhamos já foram escritas…
– Que tal escrevermos textos que já escrevemos, mas de outro jeito?
–  Bom ponto. Gostei da ideia. Como assim, de outro jeito?
– Não sei, mudar uns personagens. Mudar a ordem dos eventos. Escrever numa linguagem mais rebuscada para ninguém entender
– Que negócio de ninguém entender, meu querido! As pessoas já entram aqui no blog e não entendem nada!
–  Já sei!

Todos olharam, atentamente. O novato chamou atenção com segurança de que iria mudar o rumo da reunião e de todas as coisas para sempre.

– Que tal escrevermos textos simples. Ideias que todo mundo já conhece, já lê nos livros de romance e séries? Assim mais pessoas leriam, e recomendariam as Coisas de Pedro para outras pessoas…

Dois segundos de silêncio.

Alguém estava tomando café, e cuspiu tudo na mesa. Todo o time de criativo começou a gargalhar imensamente. Alguns se jogaram em cima da mesa de reuniões. Outros tiraram a gravata e começaram a girar. Bagunçaram o cabelo do novato.

Enquanto isso, o Pedro mexia no Instagram…

Só uma reclamação

Nós, seres humaninhos, chegamos a um patamar excelente nas revoluções sociais e tecnológicas de tudo que nos distancia dos demais animais que convivemos.

Temos o ar condicionado, que nos possibilita controlar a temperatura artificialmente por meios naturais de pressão e compressão do ar. Temos a rede de internet e telefonia, que conecta todos na empresa sem saírem de seus assentos, permitindo até mesmo que eu peça para a recepcionista avisar para meu colega de sala que foi pegar café, trazer um copo para mim também.

Olha só, pessoal. Algumas coisas nos aproximam mais de outros animais do que podemos, um simples vislumbre, pensar.

Quem já teve gato sabe que precisa ter uma caixinha de areia. Seu gato vai até lá, faz suas necessidades e as cobre cuidadosamente com areia.

Quem tem cachorro sabe que precisa ter uma pazinha e uma vassoura prontas para qualquer surpresa que seu cachorro deixar bem frente à porta de entrada da casa. Eles ainda fazem um movimento com as patas, como se estivessem limpando o local, por pura sensação de higiene.

Quem aí é humano, e está me ouvindo aqui, nós fazemos nossas necessidades em vasos sanitários. É para isso que evoluímos tanto social e tecnologicamente, inclusive. Para o maior conforto ao momento de suprirmos nossas necessidades mais básicas. Falando nisso, parabéns a todos os seres humanos envolvidos na descoberta e fabricação da cerâmica, até hoje! Continuando…

O bicho homem, antes de tudo, é um ser social. A gente precisa de aceitação, galera. Não é?

É neste ponto que chegamos à finalidade disso tudo, meus amigos. Na busca de aproveitar melhor o espaço da empresa, colocaram a Natália do Telemarketing na frente do banheiro do segundo andar.

Ah não. Aqui é o limite. É muita pressão

A gente precisa de um pouco de espaço e privacidade antes e depois de fazermos nossas necessidades. É uma questão básica de sobrevivência em sociedade. Vocês não concordam?

Depois de um silêncio na sala, eu respirei fundo. O chefe limpou a garganta, e disse “obrigado pelo seu ponto, Rodrigo. Vamos ver o que podemos fazer a respeito. Mais alguém tem alguma reclamação? Não? Terminamos aqui a reunião da empresa. Estão dispensados. Até segunda-feira”

Direito à propriedade

É no trabalho que se põe a prova os limites da civilidade e ética do ser humano. Estou falando, sobretudo, do direito à propriedade.

No começo não existia isso. O pé de maçã estava na terra, que era de todos, então as maçãs eram de todos. Fulano começou a subir no coqueiro, e apanhar um côco, e logo o côco passou a ser dele. Ele não conseguia abrir, e então dividia com Ciclano, que sabia abrir côcos como ninguém. Logo Beltrano estava matando ovelhas, portanto as ovelhas eram dele, e só dele. Ele trocava por maçãs e côcos. Um dia, não se sabe quem, decidiu tomar a terra para si. Cercou-a com pedras e gravetos, delimitando um terreno que ele jugava ser bom para viver. Expulsou Fulano, Beltrano e Ciclano. Agora o pé de maçã, o coqueiro e as ovelhas eram dele.

Ciclano acabou devendo alguma coisa para esse sujeito, e não conseguiu pagar de jeito nenhum. Coitado, agora Ciclano também era dele. Começou a trabalhar pra ele, e servir a ele. Essa pessoa começou a possuir outras terras, negociando com Fulano e Beltrano, até que negociou Ciclano com eles também.

Os humanos foram ficando mais complicados, meu caro. Começaram a possuir mais maçãs e côcos, mais bichos, carros, prédios, ações da Petrobras, celulares e, olha só, pedaços de bolo na geladeira do serviço.

Em cima da geladeira, uma caneta piloto, que escrevia em qualquer potinho de sorteve reutilizado. Lilian, Jaques, Mateus, Wellington e Fernanda guardavam comida na geladeira em potinhos com seus nomes escritos. Estava tudo bem até que Wellington descobriu que Jaques guardava bolachinhas de maizena no seu potinho. Achou que não seria nada demais pegar algumas. Jaques nem ia notar. Lillian e Mateus pensaram o mesmo. Quando chegou pro lanche da tarde, Jaques não tinha mais bolachinhas, e ele foi reclamar para Fernanda, que não sabia de nada.

No final, tudo seria uma grande reclamação que chegaria nos ouvidos dos outros da empresa, que não guardavam comida na geladeira.

Logo o chefe, que possuía a propriedade de cerca de nove horas por dia de todos eles ali, decidiu parar com esse negócio de geladeira e potinhos, suspendendo o horário de lanche da tarde.

Como eu disse, o ambiente de trabalho põe à prova o limite da civilidade e ética.

No final, todos descobriram que não possuíam de verdade nada. Nem côcos, maçãs, ovelhas, potinhos com seus nomes escritos e as horas que passavam trabalhando para tentar possuir alguma coisa