Continua lindo

O Rio de Janeiro tem mais mortes que a China.

Eu não sei se você entendeu lendo apenas o cabeçalho deste texto, caro leitor. E também eu não quero ser aqui o arauto das más notícias, mas é que quando me dei conta deste número, acima de todos os outros, é que entendi a gravidade da situação em que estamos.

Estou dizendo que, em termos de pandemia, é melhor viver numa sociedade comunista num regime autoritário do que viver nestes país da alegria e do carnaval aqui. É disso que estou falando e, se você ainda não entendeu, eu vou repetir:

O Rio de Janeiro tem mais mortes que a China.

Não a cidade, mas o estado.

E, caso você queira fazer alguma conta para relativizar mortes frente à enorme normalização da pandemia, eu vou até te dar alguns dados aqui pra você poder trabalhar: O estado do Rio de Janeiro tem por volta de 16 milhões de habitantes. A China, 1.3 bilhão de habitantes. Está satisfeito agora?

Claro, aqui estou levando em conta a possibilidade do governo da China não estar divulgando o número completo, ou não estar fazendo testes o suficientes, encobrindo casos, e coisas assim. Mas o Brasil também não está divulgando o número completo por não termos testes RT-PCR o suficiente, tampouco conseguirmos coletar os dados com rapidez. Houve casos de mortes que foram reportadas até 60 dias depois do ocorrido. Sessenta dias.

Em dois meses a China entrou em Lockdown, proibiu pessoas de circularem, e monitorou os passos de todos, especialmente dos infectados. A segunda maior economia do mundo parou de girar, trazendo um déficit no seu PIB recorde das últimas décadas, lidou com o racismo e xenofobia, reduziu as mortes a menos de 100 por semana, e as transmissões a pouquíssimas em toda a província de Wuhan. Nós reportamos uma morte nesse tempo.

E, caso você tenha se perdido no meio dos últimos parágrafos deste texto, caro leitor…estou aqui para te lembrar:

O Rio de Janeiro tem mais mortes que a China.

Eu sou um lembrete

A partir do dia 20 de abril de 2020 eu passei a sair de máscara preta em lugares públicos ou com maiores aglomerações. Vou repetir: Eu uso uma máscara quando saio de casa. Uma máscara preta.

Algumas pessoas olham ainda com cara de assustadas. Outras olham como se eu fosse maluco alarmista, afinal existem poucos casos na cidade. Existem ainda as pessoas que também usam máscara, e olham com certa empatia e identificação.

Eu não estou usando máscara somente para evitar ser contaminado. Até porque, as máscaras caseiras não tem a mesma eficácia de máscaras de profissionais de saúde. Não estou usando máscara só para não transmitir o vírus a outras pessoas. Se quem estivesse contaminado usasse máscara, com certeza os números seriam diferentes, mas este não é o caso. Estou usando máscara em lugares públicos porque eu sou um lembrete.

Eu sou um lembrete de que a humanidade de janeiro de 2020 já passou, e não vai mais voltar. Os planos, as ideias, os costumes e até mesmo hábitos populares e o contato entre as pessoas não é mais o mesmo, e não será o mesmo de 2019 nunca mais.

Eu sou um lembrete de que estamos num novo normal. Esta não é uma fase que #vaipassar logo, e todos estaremos novamente enchendo estádios e cinemas da mesma forma que fazíamos antes. Eu sou um lembrete que o mundo mudou.

E quem está vivendo suas vidas como se nada tivesse acontecendo, ou continuou normalmente no trabalho, no churrasquinho do fim de semana, na confraternização entre família e colegas, me vê e faz cara de assustado.

Para as inúmeras Dorothy’s e Totós com o qual me deparo na rua, eu uso máscara como um lembrete, caro leitor, de que não estamos mais no Kansas.

O mundo mudou. E não tem mais volta.

#ficaemcasa

Contágio #6

Episódio anterior

 – Pai, eu trouxe para o senhor e pra mãe – disse a filha do seu Odair. Eram máscaras que ela mesma fez, junto com sua sobrinha, no último fim de semana. 

  – Não vou usar isso aqui, não – disse seu Odair. 

E o resto do dia foram discussões sobre a máscara afastar os clientes, e não ter casos confirmados na cidade ainda, ou que não é uma gripezinha que vai matar seu Odair, que já sobreviveu a um câncer. 

As vendas do seu mercadinho não caíram tanto quanto pensava. Com os grandes mercados proibindo a entrada de mais de uma pessoa por família, e alguns outros comércios começando a serem multados por não respeitarem a lei da quarentena, muitas pessoas preferiram comprar em mercadinhos menores como o do seu Odair. 

Finalmente, chegou o carregamento de álcool gel. Depois de ter zerado o estoque, e ele ter ligado várias vezes para o fornecedor. 

  – Só assinar, seu Odair Ribeiro?  – perguntou o homem enorme, de máscara. 
  – Isso mesmo 
  – Assine aqui. E aqui – apontou para o papel, deixando em evidência suas luvas brancas. 

Antes de entrar no caminhão, o homem tirou as luvas com muito cuidado, e passou álcool em gel nas mãos. Esterilizou o painel e o volante. Procurou na lista qual seria sua próxima entrega. 

Seu Odair observou, da entrada do mercado. A rua parecia vazia para qualquer lado que se olhasse. 

Voltou para trás do caixa, e colocou a máscara. Se encaixou perfeitamente em seu rosto. Olhou lá para o fundo, e a filha passava pano em um dos corredores, também usando máscara e luvas de limpeza. 

Tudo parecia tranquilo, até então. 

Assim, menos pessoas seriam contaminadas. 

Sua Responsabilidade

No último sábado, dia 25 de abril de 2020, eu publiquei o primeiro texto traduzido aqui no meu blog. Este texto é um resumo do que poderia ficar fixado na sua mente depois de ter acompanhado o post do último sábado.

É um texto muito mais extenso do que todos os outros que eu faço, e contém muitas informações que achei pertinentes serem publicadas aqui. Primeiro por ser o estudo de uma epidemiologista que trabalha num instituto que orientou as decisões de mitigação e quarentena de muitas nações, como o Reino Unido, Estados Unidos e Alemanha. Então ela sabe do que está falando muito mais do que o seu presidente.

Tendo dito isso, reforço aqui aspas da doutora Britta Jewell:

Se você agir hoje, você evita quatro vezes mais infecções no próximo mês […] Esse é o poder de evitar apenas uma infecção, e obviamente nós devemos evitar mais de uma.

Britta Jewell

A infecção de que estamos falando aqui, caro leitor, é a sua. Faça um exercício de imaginação, e pense se você fosse um portador assintomático do novo SARS-Cov-2 (que possui o vírus, mas não manifesta nenhum dos sintomas). Tente se lembrar de quantas pessoas você esteve contato nas últimas duas semanas. Seja contato físico, ou mesmo a uma distância menor que 2 metros.

Conseguiu fazer uma lista mental?

Ótimo. Todas essas pessoas seriam contaminadas com o coronavírus. Todas elas, sem exceção. O vírus é muito bem transmitido pelo ar.

Com base nos modelos epidemiológicos da doutora, uma pessoa contaminada hoje, pode resultar em 2.400 pessoas contaminadas daqui um mês. Duas mil e quatrocentas pessoas contaminadas pelo descuido de apenas uma. E, seguindo as estatísticas da porcentagem de casos fatais ao redor do mundo, dessas mais de 2 mil pessoas, mais de 200 estariam mortas em até 5 semanas.

200 pessoas mortas. Por causa do descuido ou relaxamento de apenas uma.

E lá na frente, se você for testado como negativo para coronavírus, mas seu corpo já possuir anticorpos, significa que você teve o vírus, participou da contaminação de outras pessoas, e não fez nada para que as consequências fossem menores.

Eu não quero viver com esse peso nas costas.

Espero que você também não queira.

Contágio #5

Episódio anterior

Seu Cido conhecia aquela casa como ninguém, até melhor que o dono. Ele quem havia construído cada parte dela, desde o início. 

  – Aqui, Cido. O vazamento começou faz uns três dias, aqui no banheiro, olha. 

Seu Guilherme o trouxe até o banheiro para mostrar que a parede parecia ter um vazamento por detrás dos pisos, e não saberia dizer qual a gravidade. 

  – Aconteceu alguma coisa quando começou a vazar, seu Guilherme? 
  – Minha mulher disse que o cano fez um barulho esses dias…não sei se tem a ver, não 

Seu Cido deu uma tossida na mão. Estranho aquilo ter acontecido numa casa que ele caprichou tanto, e há pouco tempo. 

  – Posso abrir aqui? 
  – Sim, pode abrir 

Ligou o chuveiro.  

Era muito mais fácil que seu Guilherme fazia parecer. Marcou um dia pra voltar e consertar tudo o que precisava. 

  – Você tá lá na obra do Damião? 
  – Tô sim 
  – Ele parou a obra, por causa dos negócio que tá acontecendo, Cido? 
  – Não parou, não 
  – Ah, que bom. Graças a Deus… 
  Saíram do banheiro. Guilherme ofereceu uma água, e seu Cido aceitou. Conversaram um pouco na cozinha. 

  – Esse governador é um filho da mãe, Cido. Tá ferrando com todo mundo, as decisões dele lá. Olha aqui esse vídeo que me mandaram… 

E seu Guilherme emprestou o celular para o Cido ver o vídeo. 

  – No próximo fim de semana vamos fazer uma carreata na cidade toda pra protestar contra essa paralização, que tá acabando com toda a cidade, Cido… 

Toda a família de seu Guilherme foi contaminada. Até aqui. 

Quatro pessoas contaminadas. 

 

Próximo episódio