Contágio #8

Episódio anterior

Mateus se sentia cansado só de lembrar que no dia seguinte voltaria a trabalhar. Não queria dar desculpas para faltar ao primeiro dia de serviço depois de umas pequenas férias, mas sentia um pouco de dor nas costas e febre.

Antes de ligar o videogame, deixou por um tempo no jornal. Sua mãe fazia crochê na sala.

– A Claudia falou que parece que tem um caso confirmado na cidade, já.

– A Claudia, mãe? De onde que ela ouviu falar?

– Não sei. O pessoal na cidade ta falando…

No jornal, as notícias da demissão do ministro da saúde, e mudanças no ministério. Alguma coisa sobre sermos o único país a substituir o ministro da saúde no meio da maior crise sanitária do século. Todos os canais falavam sobre isso. Bom, na verdade quase todos. Alguns outros indicavam os números de casos confirmados e óbitos nas últimas 24 horas do país. Tudo isso, além de números internacionais.

Todos a queles números, e aquelas reportagens na frente de hospitais pareciam distantes demais para Mateus. Achou melhor ir dormir para estar descansado para o dia seguinte.

Série – Contágio

“Por enquanto tá tranquilo. Não tem nenhum caso confirmado aqui na cidade ainda” alguém argumenta para evitar, ou furar o isolamento social. Mas a Covid-19 chega para todo mundo, especialmente na situação em que Brasil se encontra.

Toda semana, aqui no blog, é publicado ao menos um episódio da série Contágio, que mostra como a Covid-19 pode chegar mesmo às cidades pequenas do interior. O primeiro episódio acompanha Carlos, um entregador de uma distribuidora de bebidas, e um pequeno desconforto que sentiu, por ser um transmissor assintomático do novo coronavírus. A partir da entrega em apenas um mercado pequeno, acompanhamos uma das cadeias de transmissão do contágio de uma pequena cidade, que poderia ser a sua.

Ao ler os episódios da série, identifique onde os personagens foram descuidados. Onde poderiam ter evitado o contágio e onde acabaram transmitindo o vírus. Faça o possível, nas próximas semanas e nos próximos meses, para não se contaminar, e não contaminar outros.

Leia a série Contágio, no link abaixo:

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Episódio 5

Contágio #6

Episódio anterior

 – Pai, eu trouxe para o senhor e pra mãe – disse a filha do seu Odair. Eram máscaras que ela mesma fez, junto com sua sobrinha, no último fim de semana. 

  – Não vou usar isso aqui, não – disse seu Odair. 

E o resto do dia foram discussões sobre a máscara afastar os clientes, e não ter casos confirmados na cidade ainda, ou que não é uma gripezinha que vai matar seu Odair, que já sobreviveu a um câncer. 

As vendas do seu mercadinho não caíram tanto quanto pensava. Com os grandes mercados proibindo a entrada de mais de uma pessoa por família, e alguns outros comércios começando a serem multados por não respeitarem a lei da quarentena, muitas pessoas preferiram comprar em mercadinhos menores como o do seu Odair. 

Finalmente, chegou o carregamento de álcool gel. Depois de ter zerado o estoque, e ele ter ligado várias vezes para o fornecedor. 

  – Só assinar, seu Odair Ribeiro?  – perguntou o homem enorme, de máscara. 
  – Isso mesmo 
  – Assine aqui. E aqui – apontou para o papel, deixando em evidência suas luvas brancas. 

Antes de entrar no caminhão, o homem tirou as luvas com muito cuidado, e passou álcool em gel nas mãos. Esterilizou o painel e o volante. Procurou na lista qual seria sua próxima entrega. 

Seu Odair observou, da entrada do mercado. A rua parecia vazia para qualquer lado que se olhasse. 

Voltou para trás do caixa, e colocou a máscara. Se encaixou perfeitamente em seu rosto. Olhou lá para o fundo, e a filha passava pano em um dos corredores, também usando máscara e luvas de limpeza. 

Tudo parecia tranquilo, até então. 

Assim, menos pessoas seriam contaminadas. 

Contágio #5

Episódio anterior

Seu Cido conhecia aquela casa como ninguém, até melhor que o dono. Ele quem havia construído cada parte dela, desde o início. 

  – Aqui, Cido. O vazamento começou faz uns três dias, aqui no banheiro, olha. 

Seu Guilherme o trouxe até o banheiro para mostrar que a parede parecia ter um vazamento por detrás dos pisos, e não saberia dizer qual a gravidade. 

  – Aconteceu alguma coisa quando começou a vazar, seu Guilherme? 
  – Minha mulher disse que o cano fez um barulho esses dias…não sei se tem a ver, não 

Seu Cido deu uma tossida na mão. Estranho aquilo ter acontecido numa casa que ele caprichou tanto, e há pouco tempo. 

  – Posso abrir aqui? 
  – Sim, pode abrir 

Ligou o chuveiro.  

Era muito mais fácil que seu Guilherme fazia parecer. Marcou um dia pra voltar e consertar tudo o que precisava. 

  – Você tá lá na obra do Damião? 
  – Tô sim 
  – Ele parou a obra, por causa dos negócio que tá acontecendo, Cido? 
  – Não parou, não 
  – Ah, que bom. Graças a Deus… 
  Saíram do banheiro. Guilherme ofereceu uma água, e seu Cido aceitou. Conversaram um pouco na cozinha. 

  – Esse governador é um filho da mãe, Cido. Tá ferrando com todo mundo, as decisões dele lá. Olha aqui esse vídeo que me mandaram… 

E seu Guilherme emprestou o celular para o Cido ver o vídeo. 

  – No próximo fim de semana vamos fazer uma carreata na cidade toda pra protestar contra essa paralização, que tá acabando com toda a cidade, Cido… 

Toda a família de seu Guilherme foi contaminada. Até aqui. 

Quatro pessoas contaminadas. 

 

Próximo episódio

Contágio #4

Episódio anterior

Mateus recebeu uma ligação.

Era seu melhor amigo perguntando se ele viria para um churrasquinho. Tinha umas pessoas lá também. Só a galera do serviço, e alguns da família. “Ainda não tem caso aqui na cidade, cara. Não tem problema você dar uma passada aqui” disse ele.

Mateus já estava em casa há mais de um mês, saindo somente para comprar o essencial para casa. Estava começando a sentir um resfriado com um pouco de febre, mas conversou com sua mãe, e ela achou que ele já estava em casa há um bom tempo. O menino merecia sair para descontrair um pouco. E foi.

Disse que estava um pouco resfriado, e por isso não tomaria cerveja com o pessoal, mas em menos de uma hora já estava na segunda latinha. A namorada do seu amigo fez uma batida. Era pouco pra tanta gente, mas eles acabaram dividindo o copo, mais ou menos um gole para cada.

Mateus se sentiu feliz. Por alguns momentos, esqueceu tudo o que o resto do mundo estava passando.

Doze pessoas contaminadas.

Próximo episódio