Burrice é sinal de Inteligência, diz estudo

Cientistas acordaram muito tarde, e ficaram trinta minutos rolando o feed do Instagram. Depois de procrastinarem um projeto por cerca de seis meses, começaram a analisar o comportamento de pessoas que, assim como eles, tem certa dificuldade em começar coisas, e mais dificuldade ainda em terminá-las.

É difícil dizer exatamente quando o estudo começou a ser feito, já que eles procrastinaram realmente por muito tempo. O que foi bom para a pesquisa, que contou somente com pessoas inteligentes que procrastinam.

O estudo foi feito na universidade de Califórnia, e passou pelas mãos de inúmeros cientistas de diversas áreas, como neurologistas, psiquiatras e psicólogos. Fizeram uma amostra com cerca de um grande número de pessoas, que acabaram ficando com preguiça de contar. Mas, não é por nada, já que eles foram movidos e estimulados por uma pesquisa recente, que dizia que dificuldade em contar números em sequência, e fazer contas de cabeça é um sinal de inteligência.

A divulgação dessa pesquisa se valeu do esforço de inúmeros divulgadores científicos, que acordaram tarde e fizeram seu café hipster. Estes divulgadores foram selecionados à dedo pelos cientistas, já que ela precisava ser divulgada por blogs e revistas de pessoas inteligentes. Acordar tarde, fazer café e ser publicitário são fortes indícios de pessoas inteligentes.

Novos estudos tem aprimorado a nossa percepção do que é um ser inteligente, e graças aos blogs, grupos de whatsapp e posts no Facebook, a divulgação científica nunca atingiu tantas áreas diferentes. Chegamos ao ponto de poder dizer, com total segurança, que quem lê blogs é mais inteligente, sim.

Protocolo Conversinha

– Isso, isso. Continua andando – disse o comandante, de sua ponte de comando – mais uns dois quarteirões a gente chega lá

De repente aparecem nos monitores um rosto conhecido
– Setor de reconhecimento! 
– Sim senhor! – gritou um dos homenzinhos de sua mesa, lá debaixo
– Rosto familiar. Acionar setor! 

O telefone toca. O comandante atende
– Alô
– Senhor, entraram em contato. Observe no monitor 15
– Monitor 15, monitor 15…aqui! 
– Setor de reconhecimento, senhor – apareceu um homenzinho do seu lado, trazendo uma pasta
– O nome dela é Helena
– De onde conhecemos ela?
– O setor está trabalhando nisso, senhor – disse, apertando o fone na orelha

O telefone tocou de novo
– Ela permanece em contato, senhor.

O comandante digita um código no seu teclado, e aparece em todos os monitores
PROTOCOLO CONVERSINHA

– Rápido, reconhecimento!
– Achamos a ficha, senhor. Ela é caixa do mercado. Compramos duas vezes com ela no último mês…
– E porque ela está mantendo contato?!
– A conhecemos também da festa na Cláudia, dois meses atrás. Parece que ela é esposa do Marcos.
– Protocolo conversinha ativado! – alguém gritou das mesas lá embaixo.
– E aí Helena! Como é que vai o Marcão?…

 

Terapia da Linguística

Um novo método revolucionário, e inusitado, de terapia está ajudando muitos casais em crise, e tem chegado no Brasil com força nos últimos meses. Ele recebeu o nome de Terapia da Linguística, e já foi adotado por casais de diferentes idades, e problemas diferentes, inclusive alguns casais famosos. É isso mesmo, Aninha?

– É isso mesmo, Fátima! O Método é uma junção da ciência da Psicologia com as Linguagens, e vem sido estudada há muitos anos pela maioria das escolas de psicologia, e tem sido posta em prática nos últimos anos lá fora, e chegou aqui recentemente. Estamos aqui com o psicólogo Raj Abdu, que vai nos explicar melhor esse tipo de terapia. Como funciona essa terapia da Linguística, doutor?

– Muito bem, Ana… É assim. A maioria dos casais briga, e não sabem porque estão brigando. Isso acontece muito. Então o que fazemos? Colocamos uma pessoa de outro idioma no cotidiano do casal. Na casa deles. Na cozinha ou na sala. Essa pessoa tem outra cultura, outro idioma, e pra ela a briga faz menos sentido ainda!

– Olha só, muito interessante, doutor…Mas qual foi o estudo que originou essa técnica, como que nasceu esse tipo de terapia Linguística?

– É simples, Ana. Olha. Você briga. Palavras saem da sua boca. São somente sons, que seu marido, esposa, entende e devolve outros sons. Um haitiano vendo você gritar com seu marido, por exemplo, não entende. Ele dá risada. Repete palavras que, pra ele, são engraçadas. A briga, em si, se dilui. O casal entende que brigar não faz sentido. São só barulhos. É magnífico!

– Excelente, doutor! É isso aí…A terapia dá super certo por aqui. O que você achou, Fátima?

Conversa com doutor

“Hoje aconteceu uma coisa estranha” disse ele, sentado no divã de couro. Toda a decoração tinha um tom bege. O outro sofá, a mesa, a pele do seu doutor…

“Logo quando cheguei no trabalho. Eu cumprimentava as pessoas, mas não via seus rostos, entende?”

“Hum-hum”

“No lugar da face, eu via borrões, somente. Eu não enxergava os olhos ou as feições. Você está me entendendo?”

“Hum-hum” repetia pontualmente

“Eu tinha a impressão de que todos olhavam para mim. Todos no escritório. Meu estômago começou a embrulhar. E tenho certeza de que isso foi real. Aconteceu hoje de manhã. Eu não costumo inventar essas coisas, você sabe. E foi realmente estranho. Muito estranho mesmo…”

Sua reticência gerou um estranho silêncio na sala. Somente o barulho do ar condicionado, e de alguma buzina da cidade, lá fora.

“E depois?”

“Eu fui no banheiro. Pensei que ia vomitar. Na verdade não vomitei, mas fiquei lá parado. Depois eu lavei o rosto e percebi que eu não tinha rosto. Você percebe como isso é estranho, doutor? Eu olhava no espelho mas não via meu rosto. Somente um borrão. Tentei limpar o espelho, mas nada acontecia. Então eu tomei meu remédio, ali mesmo. Dois comprimidos, como o senhor falou.”

“Eu falei?”

“Sim. Falou semana passada”

“Hum”

“Então eu melhorei e voltei a trabalhar. Não acha isso estranho, doutor?”

“Sim…”

Então depois de cerca de um minuto ele se levantou e continuou falando, olhando pela janela.

“Todas essas pessoas lá embaixo. Você acha que são normais? Que pensam, e refletem nas coisas, doutor?”

“Por que diz isso?”

“Minha mãe costuma dizer que a gente é vivo porque pensa. Ela fala que as pessoas que não pensam direito morrem cedo. Diz isso por causa da minha tia avó, que morreu quando ainda era nova, já te contei essa história, doutor?” Disse, esboçando um sorriso

“Sim, acho que já contou”

“Ela atormentava os animais dos sítios vizinhos. Todos eles. A vila sabia que ela era louca. Um dia ela tentou montar num dos búfalos da fazenda.” contava, dando pausas entre pequenos risos.

“E tiveram que juntar os pedaços dela” disse o doutor.

“Como você sabe?”

“Você já contou”

“Hum” exprimiu, estremecido.

E o silêncio retornou. Doutor escrevia alguma coisa no seu pequeno bloco de notas, depois começou a dar batidas na mesa com a ponta dos dedos. Seu paciente ainda olhava pela janela.

“Você trouxe seu remédio?”

“Que remédio?”

“O que está tomando”

“Ah não. Ficou em casa. Ou no serviço. Não sei” respondeu prestando estrita atenção à rua, lá embaixo…

Um problema com o Tempo

Eu tenho um problema com o tempo. E este texto não é sobre conjugação verbal, apesar de eu não me dar muito bem com ela. Também não é sobre minha dificuldade em chegar no horário. Esse é outro texto.

Meu problema com o tempo é: Não consigo mensurar o futuro. Às vezes não consigo nem imaginar que ele existe.

Tá ok, eu aceito sua existência. Tenho vinte e um anos de idade, e sei que vinte e um anos é um número considerável de voltas do planetinha Terra ao redor do Sol, e é preciso o tempo passar para a Terra girar, senão ela não gira, e o tempo não passa. Mas ela girou. Vinte e uma vezes. Meu problema não é com o passado. Você já entendeu isso até aqui. Meu problema é com o futuro. Será que ela vai girar mais vinte e uma? Ninguém sabe. O meu problema é não saber, por exemplo, quanto vale um ano.

Gui tem nove anos de idade. Gui disse que quer ir em casa jogar videogame. Eu disse “Gui, vai em casa sábado” ao que ele me perguntou “quantos dias tem que passar pra chegar sábado?”.

A noção de tempo de Gui me resume.

Não saber quanto tempo precisa passar até chegar o dia de eu entregar aquele livro de 200 páginas é um problemão, entende? Procrastinação é o pior sintoma. Não saber medir o futuro me faz viver num eterno presente. Na minha cabeça limitada temporariamente, não preciso me preocupar com, por exemplo, a morte, ou as contas no fim do mês. O que dificulta muito, já que não sei qual dos dois vai chegar primeiro.

Se as contas no fim do mês chegarem primeiro, é melhor eu parar de enrolar no serviço e voltar a trabalhar agora mesmo. Se a morte chegar primeiro, não sei quanto tempo vai demorar mesmo, então imagino que está tudo bem eu manter aqueles projetos de dez anos atrás na gaveta.

É grave, doutor? Não sei…