Tá liberado o Streaming

Está todo mundo em casa. Pelo menos se o seu serviço não é essencial, como abastecimento de comida, combustível e medicamentos. Se você não é médico ou enfermeiro. Está compensando mais para a sociedade que você fique em casa, e não saia por aí espirrando e espalhando vírus para todo mundo.

E, se você está em casa, provavelmente está confinado num espaço com menos de 50m2 há mais de quinze dias e, mais provavelmente ainda, está enlouquecendo. Isso porque não fomos feitos para vivermos confinados. Mas também não fomos feitos para voar, e foi assim que a pandemia chegou aqui. Tendo tudo isso em mente, e pensando no bem de seus futuros clientes, muitos serviços disponibilizaram streaming gratuito na época da quarentena.

Vou repetir para você entender:

Você pode assinar serviços gratuitos de streaming neste período em que está em casa!

É claro que não é meu papel aqui fazer propaganda de nenhum serviço, tampouco trazer a notícia completa. Então você trate de pesquisar aí quais serviços disponibilizaram isso tudo. Pra adiantar, tem streaming de filme, de televisão, canais fechados, e até canais de esporte.

O streaming está tão liberado, que tem muita gente usando ao mesmo tempo, o tempo todo, no mundo inteiro. Portanto, não repare se a qualidade do seu filme ou série cair um pouco, porque alguns serviços diminuiram a qualidade e taxa de bits por segundo, visando manter a constância do serviço.

Não sei se você percebeu, caro leitor. Todos os textos nessa série de quarentena estão disponíveis para comentários. Então comente aqui embaixo, quais filmes e séries tem feito sua companhia e te distraído nesse momento?

Pelo bem do coletivo humano

A coletividade humana é impressionante. Qualquer timelapse de uma avenida movimentada, ou da construção de um arranha-céu ou de qualquer obra monumental deixa claro como os pequenos seres humanos, quando trabalhando juntos, conseguem fazer algo grandioso.

Isso porque o serviço de poucas pessoas já é louvável e merece atenção, como as grandes mentes que iluminaram toda a humanidade durante o Renascimento Científico. Mas o conhecimento científico, acadêmico e em cultural cresceu exponencialmente quando a humanidade começou a agir junta e simultaneamente, com a evolução dos meios de comunicação.

Cientistas dedicam suas vidas ao estudo, à pesquisa, ao desenvolvimento. Soldados dedicam suas vidas ao treinamento e aprimoramento de suas táticas. Médicos dedicam suas vidas ao tratamento e cuidado de doenças terríveis. Publicitários dedicam suas vidas ao cursinho de inglês e longas exibições de séries da Netflix.

Enfim, nunca nada foi pedido com tanta ênfase a pessoas de todas as classes, de todas as idades e formações. Países em línguas diferentes, médicos e biólogos, têm repetido e pedido com toda a urgência possível, que todos façam algo pelo bem do coletivo humano.

Essa coisa que estão pedindo não é fazer exercícios físicos, que para muita gente seria impossível. Não é dedicar sua vida a estudos e pesquisas, ou o treinamento intensivo de qualquer habilidade inalcançável.

Nunca, na história humana, precisamos de homens e mulheres, crianças e idosos, que fizessem algo tão importante para salvar a vida de muitos. E esse pedido não é difícil, não é impossível para a maioria:

Fique em casa.

A incrível arte de não fazer nada

Eu me preocupava muito com o mundo que eu deixaria depois de ir embora. Não somente com respeito à poluição, e as toneladas de lixo que eu deixaria por aqui. Não só sobre as árvores que eu desmatei indiretamente, só para escrever meus contos à mão, ou os peidos, das vacas que eu comi, que abririam um enorme buraco na camada de ozônio.

Não era só sobre tudo isso porque, afinal esse é o básico com o que se preocupar, enquanto ser humano vivendo neste planeta de recursos meio que limitados. Se você não se preocupa com essas coisas, deveria começar a pensar nisso.

Além disso tudo, eu me preocupava com a cultura e a arte, que todos sabemos ser essencial pra a raça humana. Não só para a raça humana como um todo, como também para humanos individuais.

Minha preocupação era: Um dia eu vou morrer, e espero ter deixado algo para que as pessoas pensem “é, ele até que era legal”. Foi por isso que escrevi os poemas no meu eBook Quebra Cabeça, e é por isso que existem textos como este aqui. São pequenas marquinhas que estou deixando no universo.

E essa responsabilidade com o universo me pesava, eu confesso. Meu cochilo de sábado à tarde era interrompido pelo ímpeto de “Ei, Pedro, o que você está fazendo aí? Vá escrever e fazer a diferença no mundo!”

A grande questão é que ninguém precisa fazer a diferença no mundo. E, mesmo que você faça, não fará a mínima diferença no sistema Solar. Se você for muuito bom mesmo, e fizer diferença, a galáxia vai sequer saber da sua existência.

É com base nesse tipo de pensamento que minha digníssima me ensinou a incrível arte de não fazer nada. É perfeito. Você para, senta ou deita em algum lugar. E faz absolutamente nada. Não é fantástico? Para mim foi.

E é até hoje. É uma filosofia de vida que me move a não me mover. Aproveitar o momento sem pensar no que poderia ter sido a minha manhã de domingo se eu fizesse um romance barroco ao invés de dormir até 12h.

Essa motivação tem me levado nestes últimos dias de (quase) quarentena, e é por isso que poucos textos apareceram por aqui nos últimos dias. Aproveite a sua também. Descompromize-se.

O Brasil não para

Depois das longas festividades da virada do ano, o brasileiro estava ansioso para a grande festa que é o carnaval. E, como todos sabemos, o ano no Brasil só começa depois do carnaval. É ou não é, Raquel?

– Isso mesmo, Evaristo. Estamos aqui na avenida mais movimentada de Salvador, e o olodum bate forte aqui. Ontem as celebrações de fim de carnaval foram até de madrugada, e agora à tarde já começamos com as preparações do ano novo. Que história é essa, Marquinhos?

– A gente terminou de desmontar os equipamentos do carnaval. E o ano começa agora em março, então bora comemorar esse fim de semana agora.

– É isso aí, pessoal! Parece que vocês tem um calendário, uma programação das festividades?

– Sim, Raquel. Terminando as comemorações de Verdadeiro Ano Novo a gente passa pras festas do Primeiro de Abril, Paixão de Cristo, emendando com o Dia do Trabalho, que a gente sabe que ninguém trabalha, não é mesmo?!

– É isso aí, por aqui as festas vão de janeiro a janeiro, e assim que o Brasil não para. É com você, Evaristo!

Nascimento da medicina

Os dois estavam sentados no chão, de frente para o corpo. Era uma situação esquisita mesmo ali, para aqueles dois homens do seu tempo, vivendo as suas vidas na tribo.

– É, ele morreu, né
– Como você sabe? Ele pode estar dormindo, sei lá. Ou quando as pessoas quase morrem…
– Não. Ele não está, não. Olha… – disse, levantando as pálpebras. O homem parecia mesmo morto.
– Sei lá, hein. Pode ser que ele esteja…como é que o Mameq falou? …
– Desmaiado.
– Isso. Não gostei muito dessa palavra.
– Também não. Mas ele tá aqui assim faz horas.
– E agora, o que a gente faz?
– É a primeira vez que você vê um desses?
– É. Desse jeito é a primeira vez. Teve o Daok, mas ele foi caçando Mamute, né. Aí morre diferente.
– É.

Os dois pararam, olhando para o corpo.
– O que acontece agora? – Perguntou o mais novo.
– Você tem uma faca?
– O que?! Você vai caçar ele?
– Não, não. Vou só abrir. Ver como é por dentro.
– Como assim, Bal-kuh? Tá ficando maluco?
– Você nunca imaginou como era por dentro? – disse, olhando para o próprio bucho.
– Não. Lógico que não. E você não vai fazer isso com ele. Nós nem sabemos de que tribo ele é, ou o que aconteceu com ele…
Mah-kao, se a gente não fizer…alguém vai fazer um dia
– Não.
– …se é que já não fizeram
– Tá errado.
– É por questão de cultura, Mah-kao.
– Eu não vou participar disso
– Conhecimento. Você não quer sobreviver?

Um silêncio entre os dois.
– Afinal, algum dia alguém vai ter que fazer isso. Vão saber como somos por dentro, fazer…experimentos.
– O que é experimento, Bal-kuh?
Cirurgia. É abrir o bucho com a pessoa viva. Mexer nela por dentro, pra que ela fique mais viva.

Mah-kao fez cara de nojo.
– Vamos. Isso aqui é para o futuro. Logo vamos estar modificando DNA, fazendo implantes no cérebro. Pegue lá a sua faca de pedra.

Mah-kao se levantou. Saiu resmungando…
– Isso vai dar trabalho. Eu já tô até vendo…