Sobre Tweets e Explosões

Há pouco mais de um mês, houve uma explosão em Beirute.

E isso me dá muito assunto sobre muita coisa. Primeiramente, o meu atraso e total displicência ao escrever sobre atualidades. Na verdade, eu não gosto de datar textos com informações que são somente relevantes no momento, e no futuro as pessoas que lerem vão se perguntar “do que ele está falando?”.

Além disso, nós vimos mais uma vez como estamos conectados, e como nada mais passa despercebido. Uma explosão próximo a um porto no Oriente Médio? Tweets no mesmo minuto. Vídeos sendo subidos no Youtube, antes mesmo que qualquer jornal pudesse noticiar. Se você quiser ver a explosão do porto, de um prédio à distância, de uma loja mais perto, dentro de uma igreja? Você consegue com apenas uma busca. Por dia o Youtube recebe, em média, cinco anos de conteúdo em minutos de vídeo. Isso te dá uma ideia do quanto estamos arquivando nossas vidas em servidores em algum lugar do mundo.

E, por último, meu compromisso ao lidar com esse blog é muito maior do que certas autoridades lidando com materiais explosivos em grandes quantidades, então…eu venho pesquisando muito sobre o Líbano e conflitos do Oriente Médio. É quase como ler livros de ficção científica sobre sociedades de outros planetas. Uma realidade completamente diferente da que vivemos na América do Sul.

É por isso que eu percebi ser impossível escrever sobre tudo. Ou você faz bem feito e embasado em pesquisas e fatos, ou você abre um Twitter.

Tédio atualizado

Eu tenho uma nova descrição para Tédio.

Geralmente o tédio é causado pela falta do que fazer. Uma sala de espera, o fim de semana em hotel fazenda (ou qualquer hotel normal) são geradores de tédio que, se pudessem gerar energia elétrica, estaríamos feitos para todo o sempre.

Elevadores são perfeitos geradores de tédio, porém o tempo em que você passa neles são curtos. Estamos falando do tempo real. O tempo imaginário são sempre medidos em meses ou anos na linha temporal dos elevadores.

Enfim, o tédio é mais do que o estado de falta do que fazer. Vai além da sensação que esse estado causa. Pra mim é outra coisa.

Quando não tenho nada pra fazer eu, geralmente, crio. Uma fila do banco, geralmente, me rende várias ideias para textos aqui para o blog. Uns 30 minutos na porta de casa esperando uma carona que demorou me renderiam ótimos roteiros imaginários de filmes de ação. O meu problema é com ter coisas pra fazer.

Quando eu tenho algo pra fazer, eu procrastino. Evito o máximo fazer o que precisa ser feito. E aí que eu me vejo na obrigação de arranjar algo pra fazer. Qualquer coisa, menos a minha tarefa principal. É aí que se encaixa o meu tédio.

Exatamente aí, entre o que eu quero fazer o no momento, e o que eu deveria ter feito há 2 dias. Existe um pequeno momento em que eu me contento que “tá bom, eu preciso fazer isso. E não há nada que eu possa fazer para procrastinar”. Então eu fico entediado. Apoio o cotovelo no sofá, o queixo na mão. Encaro o vazio da existência e da sala. Eu tenho mesmo que fazer isso? Que tédio…

(postado numa quinta feira de tédio)

Dias Cinzas

Temos tido dias cinzas ultimamente.

Não somente pelo sentido poético, de dias sem cor e vida. Sem saber ao certo o que vai acontecer no futuro ou sem muita certeza do que está acontecendo atualmente.

Literalmente, o céu tem estado cinza. Em muitas partes do país a previsão do tempo não registrava Nublado ou Ensolarado, mas dizia “fumaça”. Isso é o que todos teremos no céu por alguns dias, até virem as primeiras chuvas da primavera, e nós sabemos o porquê.

Só não sabemos quando vai parar.

Querido Jerry

O dia em que eu fui expulso do meu próprio quarto.

Eu estava prestes a dormir, caindo no sono ao mesmo tempo em que caia uma garoa fina. Aos poucos fui ouvindo um barulho que se parecia com o da garoa, mas muito mais…superficial. E mais próximo que as gotas que lá fora caíam. Levantei, e liguei a lanterna do celular. Apontei para a cômoda, embaixo da cama, a poltrona. Nada.

Devagar, me aproximei do guarda roupas apontando o facho de luz para a fresta que ali existia. E ali estava. Um pequeno roedor fazendo barulhinhos com o plástico, como estivesse se divertindo. E estava, até minha luz atrapalhar sua brincadeira. Ele olhou para mim, para o plástico. Eu olhei pra ele, para a fresta do guarda roupa. Ele correu para o outro lado, e deu a volta no móvel grande, fazendo-se perder de vista. E perdi. A vista, a calma, o sono.

Os momentos seguintes passei tomando um resto de refrigerante, e procurando na internet como fazer uma ratoeira com garrafa pet. Fiz a armadilha para o pequeno camundongo e deixei ali, na fresta do guarda roupa, na esperança que ele cedesse ao delicioso cheiro de um pedacinho de carne dentro da garrafa.

Ali eu não dormiria. U-hum. Não mais.

Eles usavam ratos em tortura na Idade Média. Além disso a peste bulbônica tá aí voltando a todo vapor. Vai que ele vem cheirar meu nariz no meio da noite? Não durmo nesse quarto com esse rato nem morto.

Peguei meu notebook, meu celular e fui pra sala. Dormi no sofá. Fui expulso do meu quarto por um roedor que, nos dias seguintes, movimentou a casa e transformou num período de férias de caça ao rato.

Atenção, nenhum animal foi ferido na transcrição deste texto. Até o momento de publicação, nenhum roedor do esgoto foi capturado.

Começa agora, sério

Eu tenho um arquivo do Word no meu OneDrive de 44 mil palavras.

Não, não é um livro. E não é algo que eu vá publicar. É o meu diário.

E eu tenho escrito alguns dias durante a semana. Descrevendo todos os meus dias em detalhes que só eu lembraria. Em algum lugar eu ouvi a frase “Você lembra o que estava acontecendo há exatamente seis meses atrás?” e eu não lembrei. Mas meu diário, sim.
Aqui um breve trecho do meu dia 17 de março:

“Algo que não falei muito por aqui, é que o surto do coronavírus está chegando no interior bem rápido. Nossa assembleia foi cancelada, nossa campanha de convites pra celebração paralisada. Estou me policiando quanto a colocar as mãos no rosto, e vou começar a fazer uma lista diária de pessoas que tive contato* a partir dessa semana.”

17 de março, 2020

Viu? Não preciso dizer mais nada para te convencer a começar um diário hoje mesmo. Você pode ter a sua vida escrita e registrada da forma que você quiser. Pegue um caderno e caneta, um aplicativo de texto que você goste, e comece a escrever!

* (sim, eu tenho uma lista de pessoas com quem tive contato. Assim, caso eu tenha sintomas, posso avisar a todos que estiveram próximos a mim nos últimos dias com muito mais precisão do que certos aplicativos por aí)