Súplica

Amanhã faz dois meses que você está longe de casa. Quando volto ao primeiro dia, preciso confessar, quase não senti sua ausência. Com os problemas do trabalho e os remédios para dormir, pouco tempo tive para resgatar suas lembranças e perceber sua partida. Após uma semana, comecei a colher suas memórias.  A primeira foi à xícara de café com uma bituca de cigarro. Gostava de … Continuar lendo Súplica

Palavras em perigo na terapia

Perigo. Política. Polícia. Preconceito. Preto. Periferia. Professor. Papel. Prosa. Perdão. Possivelmente da mesma melancolia e da tristeza estas palavras surgiram durante a terapia. Medo, muito medo. Talvez por contar uma realidade vivida neste país. Neste ápice da obscuridade, vieram dez vocábulos, aos quais me assombram quando penso em unir neste flerte de histórias. Por delicadeza, pedi a voz. Instalo-me próximo a uma janela, com a … Continuar lendo Palavras em perigo na terapia

Cinderela

Poderia começar com os dizeres clássicos de minha infância, por exemplo, era uma vez e depois de sofrer um pouco, teria meu ápice durante minha partida repentina, por descuido deixaria meu sapatinho nas escadas, sem mencionar o beijo apaixonado com felizes para sempre. Este seria o final perfeito, todavia, a realidade é diferente das histórias contadas na escola. Pobre de mim, por desejar tanto um … Continuar lendo Cinderela

Querida mamãe

Acordei como se ainda estivesse deixado sobre meu velho colchão exposto ao piso de casa. É muito estranho entender estes momentos. Acho que gostaria de fazer terapia, mas tenho medo de assustar o psicólogo. Então, prefiro não gastar dinheiro com este profissional e resolvi escrever um texto, talvez seja uma poesia. Quero que entenda sobre meu vazio ou o vazio da minha poesia. Minha vida … Continuar lendo Querida mamãe

Mulher de rua

Acordei com frio e das lembranças recordei quando a professora iniciava a contação de histórias com era uma vez e todas as narrações seguiam até culminar em viveram felizes para sempre. Cresci e percebi o quanto a realidade é diferente das fábulas. Tive que correr porque um tremendo temporal caia aos borbotões. Como desejei estar confortavelmente instalada em frente a uma lareira, onde o fogo … Continuar lendo Mulher de rua

Do outro lado da cama

Não posso chorar. Não devo chorar. Não se permita chorar. Todos os dias a voz de um adulto sussurrava em mim. Eu tinha apenas 12 anos e diante dos sofrimentos dentro de casa precisei resgatar um amigo imaginário, entretanto, o meu já tinha barba, expressão sofrida, olhos marcados por olheiras, pelos pelo corpo e um jeito solitário de encarar a vida. Quando estava dentro do … Continuar lendo Do outro lado da cama

Retrato do pecado

Quando Leandro chegou do trabalho estava com o rosto pálido e os olhos reluziam suas olheiras profundas. Ele acordava às 5h para se arrumar e evitar o trânsito de São Paulo. De segunda a sexta-feira usava roupa social para atuar na Bolsa de Valores. Era casado há 20 anos, com três filhos e aos 55 anos carregava alguns mistérios até então escondidos da família. Nos … Continuar lendo Retrato do pecado

Na fila da confissão

Cheguei afobado e minha esposa já me esperava há meia hora na porta da igreja. Era dia de confissão e se eu não fosse ela iria descarregar todos os 10 mandamentos e ainda iria recitar até os sete pecados capitais. Para aproveitar o momento, resolvi pedir perdão e evitar uma discussão nas escadarias do santuário. Como de costume, fiz o pelo sinal como gesto de … Continuar lendo Na fila da confissão

Testamento

Faleceu aos 75 anos, a senhora, Roseli Rodrigues Pereira dos Santos. A família enlutada convida parentes e amigos para acompanhar o féretro que saíra às 9h. Em cidades do interior paulista o anúncio da morte é um acontecimento. Caso o morto tenha plano funerário, a família pode até inserir um trecho de música entre um parágrafo e outro.  Fiquei sabendo da morte da minha tia … Continuar lendo Testamento