Papo Cabeça

Lápis e papel na mão, celular do lado com o Word aberto e nenhuma ideia veio a mente. Faziam horas que estava no sofá ouvindo música e nada surgia.  

— Amor, vem dormir! — chama a minha esposa do quarto.   

— Tô sem sono, daqui a pouco e vou.  

Coloco a água para ferver e começo a rabiscar no caderno o desenho de alguma forma que nem eu sei o que é.  

Bebo o chá de camomila com uma colher de açúcar. O desenho se transforma em uma minhoca. Faço um pássaro que parece um demônio vesgo. Desisto.  

O sono não vem.  

Termino um outro rascunho. Agora era uma casa. Escovo os dentes e deito na cama. É mais de meia noite, minha esposa está no segundo sono e passo uma meia hora pensando em algo. Sinto que estou girando uma manivela para rodar as engrenagens do meu cérebro. Mais alguns minutos passam e uma imagem surge na minha mente como um filme no cinema.  

Um idoso segurando uma vara de pesca na mão indo para a beira de um cais. Ele caminha devagar, ajeita as calças jeans folgadas e desbotadas e segura um boné com as mãos por causa da ventania. Arrasta um caixote de madeira e senta de frente para o sol. Revira uma sacola preta e de dentro tirou algo. Assoprou uma esfera branca, derramando um líquido pegajoso no chão. Esticou o braço e observou o objeto contra o sol. A esfera é… um olho humano todo ensanguentado. Ele cravou o globo ocular na ponta afiada do anzol.  

Puta que pariu! A porra da ideia tá daora, vou ter que escrever isso. Peguei o celular e comecei a digitar no World.  

— Mano o que estou fazendo? Olha a hora, seu animal de teta! vai começar agora e vai trabalhar igual um zumbi amanhã! — digo para mim mesmo.  

Guardei o celular e coloquei a cabeça debaixo do travesseiro. Respiro fundo para tentar acalmar a minha mente.  

Não teve jeito, a imagem voltou. 

O velho acendeu um cigarro de palha e arremessou o azul para o fundo do lago. Enquanto tragava a fumaça para os pulmões, ele tirava e olhava os itens de dentro da sacola. Havia uma orelha, língua e dedos picotados.  

— Cara, aproveita enquanto a ideia tá fresca e vai lá escrever — disse uma voz na minha cabeça.  

Há, pronto! Agora estou falando sozinho com a minha consciência.  

— Nós somos brothers cara, estamos o dia todo juntos.  

— Será que o chá de camomila era realmente camomila? 

— E quem mais poderia ser, sua anta. Sou seu cérebro!  

— Decidiu acordar quando eu vou dormir, seu filho da puta!? 

— Quem manda ficar vendo rede social no celular, videozinho de Instagram, Tik Tok. Olha desperdício de tempo, mané! 

— É tão ruim assim? Isso deve ajudar a estimular alguma coisa.  

— Estimula sim… vai nessa! Só me faz ficar em stand by e perder o seu precioso tempo de vida.  

— Tendi. Mas preciso ir dormir, amanhã tenho uma penca de coisas pra fazer. Continuo pensando no velho do cais no busão ou quando chegar do trabalho.  

— Tá louco? Amanhã você vai pegar o ônibus lotado, mal vai dar pra se mexer.  

— Verdade…mas a noite eu faço isso.  

—  Que nada cara, você vai chegar cansado, vai jantar, bater um papo com a sua esposa e quando começar a escrever vai bater o sono e já era a ideia.  

— Pô velho, mas como faço? Até eu terminar de escrever isso aí já é de manhã. Desencana, vou dormir.  

Virei para o outro lado da cama, fechei os olhos e tentei relaxar.  

O sol não brilhava mais com tanta intensidade. Passaram-se horas desde que havia sentado. Suas costas latejavam, ar ficou gelado, uma garoa forte soprava o vento do oeste, empurrando o velho para trás. Ele recolheu a linha da água e guardou o dedo preso no anzol. Dois peixes de trezentos gramas cada sacudiam a sacola. Ele bateu a sacola no chão como se tivesse matando uma barata. Os peixes pararam e ele foi embora. A casa foi construída com centenas de pedaços de vários tamanhos e cores diferentes de madeira. Algumas estavam pregadas e outras presas em arames.  Ele abriu o cadeado preso a uma corrente e entrou no lugar que não haviam janelas, mas as frestas entre as madeiras faziam raios de luz rasgarem a escuridão. Ele girou uma lâmpada presa a um longo pedaço de fio vindo do telhado e ela iluminou um pouco do lugar. O fogão estava do lado da cama e uma bacia era usada como pia. No canto oposto havia uma caixa d’água. Ele arrastou a tampa e um cheiro de carne podre o fez tossir. Ele prendeu a respiração e jogou o que havia dentro da sacola. Dois peixes, o dedo, a orelha e um pouco de sangue. Um rosto branco, inchado e cheio de cicatrizes boiava na água. O velho a puxou pelos cabelos e a ergueu para observar seu estado de putrefação. A pele estava inchada e parecia quase desmanchar.  

— Como o velho morava ali mano, tá viajando já!  

— Tem razão! Perai… 

O local ficava dentro de um ferro velho e só era visitado dia sim, dia não. Estava escondido entre pilhas de carcaças de carros velhos.  

— É…tá melhorando. Mas como é a cara do velho?  

— Calma mano, você pra minha consciência tá chata em. Isso aqui é só uma ideia, esqueceu?  

— Ideia? Você está assistindo essa caralha na sua mente igual um seriado. São quatro horas da manhã e você nem tá com sono!  

— Puuuuta que pariu! Tô fudido! Porra, mano, por que você não me ajuda? Só me dá ideia boa de madrugada!  

— Já dizia o Nano Fregonese e o Bruno Crispim, quem faz a rotina de escrita é você. Eu não tenho nada a ver com isso.  

Humpf…tem razão, preciso mudar isso!  

— Chega mano, aproveita que você está bocejando e vai lá tomar mais um chá forte, agora você dorme.  

— Boa! Finalmente minha consciência querendo me ajudar.   

Três horas depois o despertador tocou, levantei com a cabeça doendo de sono. Fui pro banho, tomei um café, um Monster e fui trabalhar. Estou em dúvida se sonhei ou imaginei que estava falando com a minha mente. De qualquer forma, terminei a história daquele conto duas semanas depois e na madrugada de uma sexta-feira.

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