Trocado no aeroporto

Emir era viciado em café. Quando o desejo aumentava algo estava para acontecer. Ele saiu do hospital, situado no bairro do Flamengo, com fraqueza em suas pernas e palidez no rosto, deu dez passos até chegar à rua Antônio Guedes. Embora a temperatura não fosse tão cálida, seu corpo havia transpirado, o que não aconteceu nos últimos vinte dias.

Todo ânimo adquirido nas últimas horas no trabalho com as vendas e o aumento da comissão, havia sumido, sem se despedir. Com a notícia, passou a andar em ziguezague, tropeçando nos paralelepípedos soltos na calçada, como um convalescente. Ruídos foram ouvidos no ponto de ônibus. Quem esperava fez comentários, como se ele já estivesse bêbado logo pela manhã.

Para tentar se recuperar das palavras, resolveu sentar em um banco improvisado com blocos de cimento e madeira à espera de algum amigo ou desconhecido que pudesse acalentar seu frágil corpo. Saltou inesperadamente, como se estivesse visto uma assombração, apareceu ao seu lado, uma senhora, a qual se atreveu a perguntar se estava passando mal:

— O senhor está bem? Carrega nos olhos uma preocupação. Se quiser conversar, empresto meus ouvidos às suas lamentações.

Emir respondeu:

— Nada tenho a responder, a não ser que estou saindo daquele hospital, onde sofro por causa de uma mulher a quem escolhi para ser minha, quando jamais deveria ter feito. Não saberei se foi por amor ou amargor, mas hoje carrego tais dores no corpo e na alma.

Resolvi sair daquela terapia sem me despedir. Achei melhor evitar piedade. As dores do corpo irão embora após um banho quente e uma xícara de café. As da alma não encontro remédio sequer para aliviá-las. Acima de qualquer dúvida, estão meus sentimentos, quando puder, contar-lhe-ei que foram mortificados. 

Tento abdicar do trauma naquele corredor da ala pediátrica. Havia dado o prometido e insistido para que ficasse. Ela estava encostada em um canto da janela, sentou-se num banco na sala de espera, cobriu seu rosto, não deixando ver seus lábios. Suas palavras eram doloridas, como se estivesse perfurando um dos meus órgãos, após uma briga.

Embora suplicasse a revisão de suas frases, ela parecia irredutível, para completar a história, fosse de caso pensado ou por simples acaso, ela pediu para ir e todo meu desejo de tê-la ficou pairando no ar, até minha vaidade pareceu sucumbir às minhas preocupações, eu bem sabia que a mudança só poderia acontecer se tivesse um amante.

Foi neste momento que aquela voz suave e penetrante da nossa última viagem veio contemplar nosso colóquio. Ela era pecadora e percebi em sua ausência durante os passeios já programados, não era o cansaço que a mantinha no quarto ou a dor de cabeça, mas àquele a quem conheceu na hora do embarque.

Eu, que estava sem juízo, não na cabeça, mas no coração, não havia percebido as cenas que minha imaginação pintava neste momento. Em Natal, estivemos sete dias e em todos eles não passou uma hora que não houvesse uma discussão. Durante as brigas, quando ia e vinha do quarto, seu telefone tocava e perto de mim, ela nunca atendia.

Infelizmente, estive só em todos os restaurantes e bares, então, deve ser por isso que sua intenção tão falsa e hipócrita preferiu ficar calada, tais motivos me fez recordar daquela frase, como se fosse uma verdade de confessionário, pois, quando desejei sair, ela não fez questão de me conter, ao fim da viagem, quando chegamos no aeroporto, eu queria descer do avião e o piloto se negava a deixá-la sair.

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