Não sou desatenta ou desleixada, só tenho TDAH por Isabelly Emiliano

“Não consigo me concentrar”, digo. 

Parece algo normal para se falar, já que tanta coisa pode tirar nossa atenção, principalmente no Home-office: a notificação do celular, a mãe chamando para enxugar os pratos, irmão querendo mostrar um áudio. São muitos ruídos juntos, mas não é isso que tira a minha atenção. 

Pode ser que esteja no quarto sozinha, televisão desligada, o único barulho que consigo ouvir sai do ar-condicionado, mesmo assim não consigo focar. Estudar é mais difícil, da mesma forma que escrever, por mais brilhante que possa ser nessas áreas. Olho para a tela do computador, tentando prestar atenção apenas às letras que ensinam algo novo, mas enquanto uso as “janelas da alma”, a mente vagueia entre um filme antigo que assisti, alguém que está para me responder na rede social e receitas de comida inclusiva que gostaria de aprender. 

Lembro que devia estar estudando para produzir conteúdo para um cliente, me sacudo e volto para o início do texto. Avançando pouco, minha consciência vai parar num outro lugar, faço isso inúmeras vezes. 

Não queria que isso acontecesse, mas é a minha realidade. 

Tenho transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, a TDAH, muita gente sabe o que é, mas conhece pouca gente que tem, ou que seja segura o bastante para revelar isso. É mais comum na infância, mas fui uma criança, aparentemente, normal, conseguia ficar quieta, não subia em móveis ou sequer dava sinais de que seria um problema. Era quieta e esforçada demais para ser a melhor aluna da sala. 

Lembro de estar sempre em terceiro lugar na turma, por mais que me esforçasse, era o dobro ou triplo das outras duas pessoas. Ainda consideravam-me brilhante e era  motivo suficiente para ter meu nome impresso na entrada da sala. 

Só conseguia focar numa coisa. 

Sempre tive poucos amigos porque não conseguia me concentrar em ser isso. Surgia convite para tudo que é canto, shopping, cinema, parque, todos eu recusava, porque não conseguia ouvir o que diziam, prestar atenção ou fingir ter os mesmos interesses.

Enquanto faço o suco ao lado do fogão, minha tapioca queima, porque em questão de 30 segundos, esqueci que deixei o fogo ligado. Tenho que tomar café da manhã com a goma de mandioca dura. 

Não me sinto segura em contar isso para todos, pois o fato de que não consigo deixar o meu guarda-roupas arrumado por mais de cinco dias, parece desleixo. Ou ter tirado nota baixa na prova por ter começado a pensar como era vida amorosa da professora parece preguiça de estudar. Ou esquecer o cuscuz no fogo depois de sentar para responder uns e-mails, parece desatenção. 

Sou desatenta, relaxada, relapsa, desorganizada e mais. Recebo um monte de adjetivos por ter uma patologia mental que vai me acompanhar para sempre, e piora muito mais quando a alimentação está  ruim, a rotina de atividade física é quase inexistente ou não há vagas para o psicoterapeuta. 

Posso fitar os olhos da pessoa que estou conversando e mesmo assim não ouvir nada do que ela está falando. Quando percebo que isso acontece, balanço a cabeça como aprendi na faculdade de jornalismo, motivando-o a continuar a narrativa, para eu ver se consigo descobrir qual é o assunto. 

Isso não acontece apenas uma vez. Tento duas, três, seis e muito mais até conseguir focar. 

É difícil ter TDAH e ser escritora, exercito meu hiperfoco, quando disponho palavras numa folha de papel em branco e consigo notar que escrevi um texto. Sinto-me grata e vitoriosa por conseguir cumprir a demanda do cliente ou de terminar o meu livro. 

Finalizar um livro em pouco mais de dois meses foi algo extraordinário, mas enquanto meu hiperfoco estava nas frases sobre restrição alimentar e o impacto social, as minhas relações familiares ficaram horríveis. Passando cerca de 18 horas em frente ao computador, além dos dias úteis, final de semana e feriado. Até que consegui terminar e mudei a atenção enquanto me dava algumas semanas de férias da escrita. 

Ser escritora com TDAH é se superar todo dia, não é simples. Não posso apenas querer focar numa coisa, não funciona assim. O tratamento é medicamentoso e psicoterapêutico. 

Eu não mereço um prêmio por ser brilhante, nem ser aplaudida de pé. Só desejo parar de ser rotulada por algo que luto todos os dias. 


Fofoqueira, jornalista, autora publicada e cheia de restrições alimentares, essa é Isabelly Emiliano, ou como gosta de ser chamada, Belly. Ama escrita e leitura desde que se entende por gente e até tenta aliar isso ao seu trabalho, mas resolveu que também queria ajudar mais pessoas como ela: celíacas e múltiplas alergias alimentares que ainda tem dificuldade em se alimentar, por isso resolver ser nutricionista. Além disso tudo, ainda produz conteúdo no @temglutenjornal tentando ser ponte entre informação e pessoas.

https://www.instagram.com/temglutenjornal/

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https://emilianoisabelly.medium.com/

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