Paranóia

Bati na porta e um homem barbudo com olhos verdes atendeu. Deveria ter no máximo quarenta anos. Ele segurava uma caneta prateada e uma agenda marrom. Me cumprimentou e fez sinal com a mão para eu entrar. Com tantos livros na prateleira, me senti dentro de uma biblioteca.

— Lisa, como falamos por telefone, nossa sessão tem a duração de quarenta minutos. Quero que diga tudo o que vier na sua mente com sinceridade e sem se importar comigo. Eu não estou aqui para te julgar.

— Esta bem! Posso me sentar?

— Por favor, fique a vontade. Se quiser, pode deitar no divã. Quero que feche os olhos, relaxe e se sinta a vontade. Imagine que aqui é um mundo só seu. Vou colocar uma música ambiente para você relaxar.

— Está bem!

Fechei meus olhos, inspirei fundo e como um filme, pude assistir na minha mente cada detalhe das coisas que aconteceram. Lembro que tudo começou numa sexta-feira no dia dez de outubro às sete horas da manhã. Coloquei a água para ferver, a caneca verde oliva e o coador vermelho na pia. Quando fui procurar a caixinha de filtro de papel… Não achava em lugar algum e ainda faltavam três para acabar. Fui questionar o meu marido, mas ele estava em ligação e não podia responder. Achei estranho, pois somente eu tomava café em casa. Como não queria me atrasar para o trabalho, abri outra caixinha que estava lacrada e coei o meu café. Antes de sair tentei falar com ele novamente. Mas, respondeu brevemente que não sabia onde estava. Como podia não saber? Ele trabalha de casa e só eu que tomo essa porra de café! Lembrei que ontem levei o lixo para fora. Mesmo apressada, fui até o -2 no prédio onde ficam as lixeiras, revirei cada sacola, até às do vizinho, mas não estava lá! Como pode a caixinha sumir assim? Enquanto dirigia para o trabalho, pensei, será que ele fez café para alguém? Será que esse filha da puta está me traindo enquanto trabalho o dia todo? Meu coração disparou e senti as mãos formigarem. Dei um soco no volante do carro. Meus dedos latejaram tanto de dor que tive que parar o carro. Tive que colocar a garrafinha de água gelada na mão para aliviar a dor. Enquanto isso, liguei para ele.

— Oi Marcos! Me responde uma coisa?
— Oi amor, o que foi?
— Me responde uma coisa?
— Tá! Mas por que está brava?
— O que você tem feito durante a semana? Alguém foi aí te visitar?
— Como assim, Lisa? Como todos os dias, trabalhei o dia todo! Ninguém veio em casa. Por que, o que está pensando agora? Qual é a novidade desse mês?
— Olha lá em Marcos, se eu souber que você está me traindo não sei o que sou capaz de fazer!
— De novo essa história, Lisa, puta que pariu! Estou cansado de você de novo com essa paranoia. Para com isso, eu te amo e não tenho por que te trair.
— Não sei! Vai que aquela vagabunda da sua ex namorada quer reviver alguma coisa! Te conheço seu safado!
— Mas que caralho! Faz seis anos que estamos casados, Lisa, e continua com essa ideia? Acorda!
— Não quero saber! O que você fez com a caixinha de filtro do papel? Haviam três ainda para acabar e ele sumiu!
— E como eu vou saber? Quem faz café aqui é você!
— Pois é! E se você fez café para alguma vagabunda?
— Lisa, você está louca! Para com essas ideias! Tenho reunião agora, tenho que desligar!

Eu não acredito que ele desligou o telefone na minha cara! Ah mas isso não vai ficar barato!

Mandei uma mensagem para o celular dele:

Olha aqui seu cachorro filho da puta, se você tiver me traindo vou acabar com a sua vida! Vou tirar cada centavo da sua conta bancária!

Ele respondeu em seguida:

Meu Deus do céu, Lisa, você está brigando comigo por causa de um filtro de papel? É sério isso? Eu ainda não acredito…

Eu não sou palhaça, Marcos! Acha que sou idiota?

Você precisa de ajuda e urgente!

Enquanto eu digitava outra mensagem ele me bloqueou!

— ME BLOQUEOU! EU NÃO ACREDITOOOO! gritei no posto, fazendo um monte de gente ficar me olhando. Entrei no carro e sai cantando pneu.

Cheguei no trabalho, joguei minha bolsa em cima da mesa. Meu gerente me encarou, mas ficou na dele. Por quatro horas pesquisei e comprei quatro câmeras de segurança para entrega imediata. Paguei um absurdo de caro, mas tinha que descobrir o que ele estava aprontando comigo.

Cheguei em casa as 21h e ele ainda estava trabalhando. A cama, o sofá e a cozinha estavam do mesmo jeito. Olhei nas roupas sujas. A camisa não tinha cheiro de perfume de alguma vagabunda e nenhuma marca de batom. Olhei até às cuecas para ver se tinha alguma marca.

Fui para o quarto e gritei:

— Posso saber por que não lavou a louça? Tá achando que sou sua empregada?

Ele fez sinal de silêncio com a mão e apontou na direção do computador. Estava em reunião.

Depois de tomar banho, fui para a sala e ele estava deitado no sofá, seu semblante demonstrava exaustão e claramente irritado.

— Olha Marcos, você está muito estranho para o meu gosto. O meu filtro de café sumiu, você não lavou a louça e eu continuo bloqueada no seu celular. O que está acontecendo?

Ele me olhou, levantou e foi para o banho. Continuei gritando pela casa, reclamando e ele continuava quieto. Depois deitou na cama e dormiu sem jantar. No dia seguinte, contei os filtros de café. Haviam 29 com o que eu havia acabado de usar. Coloquei as câmeras escondidas pela casa e fui trabalhar sem me despedir.

Deixei o celular deitado, de frente para meu notebook na mesa do trabalho, passando pelas câmeras como se estivesse assistindo o big brother. Estava tudo normal. Notei que ele se quer estava almoçando direito, comendo somente alguma fruta ou lanche rápido e voltava para o computador. Passava o dia todo dentro do quarto. Quase não ia ao banheiro ou tomava água. Passei três semanas observando a cada movimento que ele fazia. Nós não conversamos durante esses dias, eu apenas chegava, reclamava e ele fazia sempre a mesma coisa. Já estava cansada disso. Cansada dele me ignorar a todo momento. Quando ele estava dormindo, peguei o celular escondido e acessei cada uma das suas redes sociais e mensagens. Não achei nada anormal, mas algo estava errado. Por que ele não veio falar comigo todos esses dias e continuava frio sem demonstrar carinho por mim? Será que ele descobriu que escondi as câmeras e por isso estava tão estranho? Não consegui dormir. Era três horas da manhã quando levantei e acordei ele. Questionei por que estava estranho comigo e ele apenas me olhou e continuou sem responder absolutamente nada. Não aguentei. Ataquei o ferro de passar roupa no chão e comecei uma discussão. Ele estava aprontando algo e eu iria descobrir.

— Você está louca! Me deixa em paz!
— Você está me traindo! Quem é a outra?
— Lisa, olha o escândalo! Ainda é madrugada e vamos acordar os vizinhos!
— Foda-se! Quero que eles vão pro inferno! Não vou admitir que você continue me enganando desse jeito!
— Está bem, você pediu por isso! — Ele levantou, bateu a porta do quarto, vestiu a roupa, colocou o notebook na mochila saiu. Eu tentei impedir, mas não adiantou. Ele ficou parado na portaria do prédio e eu não consegui me conter. Xinguei e gritei da varanda do apartamento. Depois de uns dez minutos, um motorista de aplicativo chegou. Ele entrou no carro e foi para algum lugar. Eu continuei com meus gritos, xingos enquanto chorava. Só parei quando o porteiro me ligou no interfone e disse que iria chamar a polícia se eu continuasse com o escândalo. Horas depois, fiz meu café, tomei um enérgico para conseguir ficar acordada e fui trabalhar. No caminho, liguei para aquele maldito, mas o telefone estava dando caixa postal. Provavelmente estava no motel com alguma vagabunda. As sete horas da noite quando estava terminando de guardar minhas coisas, abri a gaveta do armário no escritório e para a minha surpresa, a caixinha com os três filtros de papel estava lá! Não podia acreditar! Como fui idiota, esqueci que havia levado para o trabalho pra tomar com as meninas, mas como ganhamos uma máquina de café expresso da empresa, deixei aqui guardado. Na mesma hora, tentei ligar para ele, mas sem sucesso. Mandei mensagens, mas estava bloqueada no aplicativo e nas redes sociais. Mesmo assim eu insisti em mandar algumas mensagens.

Mensagem enviada as 21:00h

Amor, eu achei o filtro de papel, estava aqui no trabalho. Desculpa por ter te culpado e achado que você estava me traindo.

Mensagem enviada as 23:55

Marcos, chega dessa palhaçada! Já estou cansada de você ficar me ignorando. Já pedi desculpas e você continua com essa infantilidade. Tá na hora de crescer e agir como gente. Você só sabe me evitar. Por que não conversa comigo? Com seus amigos você conversa!

Mensagem enviada as 7h da manhã:

Olha aqui seu maldito, já entendi. Você está aproveitando a situação para ficar com alguma vagabunda! Se eu descobrir que você me traiu, não faz ideia do que vou fazer com a merda da sua vida! TA ME ENTENDENDO? EU VOU QUEIMAR TODAS AS SUAS ROUPAS!

Mensagem enviada as 8h da manhã:

EU NÃO SOU PALHAÇA! OU ME RESPONDE OU SUAS ROUPAS VÃO PRO LIXO HOJE A NOITE!

As 15h o advogado do Marcos, me ligou para dar andamento no pedido de divórcio. Mas, não ia ficar barato. Não mesmo!

— E o que você fez? — perguntou o terapeuta anotando alguma coisa na agenda.
— Eu rasguei todas as camisas, ternos, gravatas e calças. Tudo, não deixei nada passar batido. Eu não sou Palhaça!
— Entendo, Lisa! Nossa sessão de terapia acabou por hoje. Mas quero que reflita sobre o que falamos aqui e quais atitudes poderia ter feito para evitar toda essa confusão. Até a semana que vem!
— Como assim evitado? Você prestou atenção no que eu disse? Ele estava me evitando, não olhava na minha cara, não queria conversar.
— Entendo. Na quarta que vem, retomamos a conversa. Obrigado, Lisa, tenha uma boa semana!

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