Os acordes dos encontros

Desculpem, mas volto no dia 26 de fevereiro de 2020, um dia que não levamos a sério. Estávamos reunidos entre amigos. Chegamos à noite, éramos quatro casais, além das crianças e agregados. Aos poucos víamos cada um descarregando bolsas com roupas, sacolas com verduras, frutas, leite, carnes e inúmeras cervejas e destilados. Por fim, alguns pen drives com músicas para acompanhar as conversas.

Havia para todos os gostos, parecia uma rádio e a cada programação os estilos eram alterados: MPB, rock, sertanejo, samba, pagode, funk e até marchinhas de carnaval. Todos despreocupados, apenas com o desejo de se divertir, esquecer os problemas, o cansaço do trabalho e ter histórias para contar quando estivéssemos bêbados. Pensando neste capítulo da vida, uma palavra ecoou nesta lembrança, acho que um dos integrantes, tinha mencionado o vocábulo saudade.

O dicionário diz: “Sentimento nostálgico causado pela ausência de algo, de alguém, de um lugar…”. Lembrar-se disso, me faz perceber, ora, que naquele tempo, eu não era agradecido, somente vivia, bebia e queria sexo a cada dois dias. Tinha também os encontros em botecos. Hoje, digo que podem levar tudo, só não levem minha vida. Estranho dizer isso, sabendo que estou vivo. As músicas que, outrora, me contagiavam, me faziam inventar passos, foram substituídos por canções mais calmas, até instrumentais, pequenos gestos que, antes pareciam insignificantes, hoje, chega a doer no peito. Quero um abraço. Quero um aperto de mão, daqueles que deixam marcas. Quero poder beijar meus amigos, familiares e até os desconhecidos.

Já não lembro a cor dos olhos das pessoas, talvez, nunca havia observado que isso era importante. A internet deixou as relações frias, sem graça e, infelizmente, nos grupos, se falam de novos casos, falecimentos, gripezinha e o aumento das filas. São tantas notícias tristes que o acorde passou a ser fúnebre. Quando resgatei a palavra saudade naquele contexto, parecia erro de concordância, hoje, nas noites em claro, remexo na cama, chego a gemer e a chorar, pelas vítimas, pela falta de empatia e por não ter mais um acorde que pudesse interromper as mortes dos brasileiros.

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