O ato de cozinhar

Hoje me lembrei da minha avó. Ela dizia que o ato de cozinhar demanda todo um preparo. Um ritual a ser seguido. Vovó afirmava que fazer comida é um amor que se renova a cada dia. Para mim, comida boa é aquela que mata a fome. Ela nunca discordou de mim, apenas, me mostrava outro lado.

Durante o preparo havia regras. O primeiro passo era colocar um pano na cabeça para evitar que alguns fios de cabelos caíssem na refeição. Em seguida, ela escolhia os melhores grãos de arroz, para que pudessem ser lavados. Seria pecado utilizar água da torneira, ela retirava do filtro de barro e a cada gole de água derramado no arroz, ela tocava suavemente, como se estivesse fazendo massagem.

Para vovó, era preciso depositar amor em cada gesto, não era apenas uma refeição, ela preparava um almoço repleto de compaixão. Não havia nada igual. Usava temperos caseiros e tudo tinha uma finalidade. Nada de truques, para ela, cada prato deveria harmonizar no paladar. Ao seu lado, eu escutava:

— “Senhor, tu estás no céu e na terra, faça dessa refeição a melhor que iremos comer e que não falte o pão em nossa mesa”.

Ao lembrar essa oração, meu coração se abriu de emoção. Antes que sentássemos para apreciar o cardápio, minha avó acrescentava: — “Que não deixemos um irmão passar fome, onde habita a fé, sempre haverá lugar para outro comer”.

Como era bom apreciar minha avó na cozinha. Tudo era uma arte. Suas orações e cantigas antigas ecoavam por toda a casa. Quando estava prestes a finalizar a refeição, ela cantava: “O cravo brigou com a rosa debaixo de uma sacada. O cravo saiu ferido e a rosa despedaçada […]”. No final da música, quem estive na cozinha juntava em um coro para cantar: “A rosa fez serenata. O cravo foi espiar. E as flores fizeram festa porque eles vão se casar”.

Tudo era simples e a cozinha era sua casa. Ela depositava amor e cada receita se prolongava no paladar. Era tudo muito simples. Ela nos deixou e levou consigo os temperos caseiros, a banha de porco, a carne de lata, as histórias antigas, os terços de junho e ainda sinto saudades do sinal da cruz que fazia na testa nos dando a bênção para ir embora.

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