Ruas e suas histórias

Acordei preguiçosamente. Com os olhos entreabertos. Eram quase oito horas, acho que já era primavera. Ainda tentei virar na cama para ver se ainda pegava no sono, foi em vão. Era feriado. Não tomei café. Queria sair, ver as pessoas ou o que restou delas na cidade. O céu azulado. As folhas das copas das árvores em uma inércia: um prelúdio de mais um dia quente e abafado.

Nos sóbrios passos, dei-me conta que o silêncio fez-me recordar aquela menina com o decote levemente suado, aquele perfume adocicado que poderia ser um perigo para minha diabetes. Seu rosto, ainda lembro, era rosado, seu nome me forçava a lembrar do pecado original.

O som de uma buzina eclodiu, a poucos metros do cruzamento, olhei para o lado e vi na janela um rosto de um homem, carregava traços fortes, marcantes, a pele caída e queimada do sol. Aproximei e seus lábios a cada cinco segundos se uniam, o pulmão cheio de ar e ao romper o desejo de respirar, a melodia de um assobio circuncidava-me.

Agradeci seu João pelo momento e segui em frente. O semáforo pediu para interromper os passos. Do outro lado da calçada avistei uma senhora de quase 60 anos, calculei. Após 25 segundos, a cor verde se floriu e ela veio ao meu encontro. O congestionamento de pernas e braços fez-me recuar e ao partir, a mulher parou na minha frente. Fui para a direita, ela também. Sem entender, desloquei-me para a esquerda, involuntariamente, veio também.

Repetimos os passos por quatros vezes e quando o sinal atingiria o vermelho, ela sorriu e agradeceu por ter lhe tirado para dançar.  Nunca mais a vi, mas em todo semáforo, olho a frente, desejando que alguém dance comigo que, apenas, deixe sentir a emoção, a imaginação, o desejo. Talvez nossos nomes sejam poéticos certamente, curiosos, divertidos, gostosos, ligados à gente que tem o prazer de apenas olhar no rosto das pessoas e sentir suas histórias.

Se lhe deixei entediado, até poderia pedir desculpas. Não farei. Porque este gesto pode amenizar sua culpa de não olhar para as pessoas […] Ainda me lembro dos doces como se fossem joias. A padaria do prazer e da luxúria. Sim! Apolinário e Anabela, portugueses, faziam pães, roscas e todos os prazeres de Portugal. Sabia até a hora que os primeiros Brisas do Liz e os ovos moles de Aveiro eram produzidos. Lá do balcão o velho português já dizia: “Aqui estão seus preferidos. Venha e aprecie com o café que acabamos de passar”. Um ritual que levava a sério como as rezas dos padres nossos que mamãe custou a me ensinar.

Respirei. Capturar estas cenas é uma forma de reviver histórias que foram além da imaginação. De onde estou, consigo ver cada um a me olhar, sei que no dia seguinte sua vida será igual, depois de amanhã, tudo se repetirá. As histórias estão a nossa volta. Quantos sinais você já recolheu e as transformou em contos, crônicas ou poesias. Nossa! Desculpem! Tive que interromper esta fúria.

Foi naquele ponto que tomei meu primeiro táxi, o carro de aluguel. Somente em três ocasiões poderíamos chamar o chofer ou esperar até que ele aparecesse. Infelizmente não foi para ir a um velório de parentes ou para assistir um casamento, meu destino foi um hospital. Tive que operar da apendicite. No caminho, não sei se chorava ou ficava a admirar o trajeto. Fiquei feliz, ao ver dois amigos na calçada. Acenei para causar inveja. Recordo apenas de levantar na cama do hospital e pegando na mão da enfermeira. Se fosse à época do namoro dos meus pais, minha mãe iria dizer “Não acha que é um pouco cedo”.

Sou Clarissino Bertolino Filho, meu nome saiu de um túmulo do cemitério São Jorge. Meu pai achava que poderia surpreender a todos com um nome exótico. Já estou conformado. Ao retornar para casa, antes de escutar o portão ranger e os latidos dos cães, digo a você que está a ler ou a ouvir este texto. O que lhe dá prazer? O que já lhe deu prazer? Ultimamente há algo que lhe incomoda?

Talvez seja o olhar triste que custa a lhe abandonar, o espelho apenas faz um recorte da sua realidade. Há uma expressão neste olhar. Olhe para o mundo, veja as pessoas, aprecie o que é simples, reescreva sua história, seja com neologismos, com provocações, não importa. Não deixe que sua desesperadora impotência lhe deixe imóvel ou quieto. Tão imóvel que possa lhe transformar em um bicho empalhado. Pense um pouco e me dará razão.

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