Uma caixa de sapato selou meu destino

Não estou inventando: saiu no jornal “Em São Paulo, adolescente de dezesseis anos (dezesseis, sim) arma-se com um revólver e abre caminho até alcançar seu direito de ir e vir”. O repórter disse que um casal foi morto. Não posso dizer o nome porque não sou “dedo-duro”, poderia até dizer o milagre, mas sem revelar o nome do santo. O revólver encontrado, era um RT 605. Conhecido também na gíria como “berro”. Foram quatro disparos. Duas balas sobraram, caso os corpos ainda resistissem à morte, o jeito seria descarregar a munição. Tiros certeiros revelaram que o menor sabia atirar.

A caçada pelo adolescente já começou, diz o jornal. O fato assustador é que o suspeito é o filho do casal. Os vizinhos relataram que o convívio com a família era tranquilo. Uma das entrevistadas disse que o Leandro era estudioso, calmo e introspectivo. Sim! Ele era.

Outra notícia chamou minha atenção: Deputados aprovam redução na maioridade penal. Em silêncio, foram emitidos veementes protestos ao ver a notícia. Por coincidência do destino, completei a data limite da nova lei, mas, estar no Brasil me favorece. Tudo é esquecido. Resolvi dar sequência no meu direito de ir e vir pelas ruas paulistanas. Sinto-me perseguido. 

Debaixo de uma árvore, respirei meio receoso e o medo percorreu cada célula do corpo, busquei em pensamento ir até o porão, caso fosse capturado. Totalmente escuro, sem janelas, imagine o calor que deve fazer lá, nos meses de verão, principalmente em janeiro e fevereiro, em São Paulo. E no inverno, no frio, deve ser mal arejado. Despertei!

Na mentalidade da maioria das pessoas, quem comete esse crime deve apodrecer na cadeia. Também pensava assim. O ideal seria poder voltar ao passado e reparar um erro ou ser menos afoito nas decisões. O lado infeliz é que nunca vou poder me defender [da solicitude] das pessoas. Não serei mais o menino inteligente, calmo e introspectivo. Talvez o último adjetivo continue a me seguir, até o fim da vida.

Imagine o grau de indignação, de constrangimento e de cólera das pessoas que conviveram comigo durante dezesseis anos. No noticiário da tarde, diz que o menor foi visto na Avenida Paulista. Sei onde fica e acho que também o vi passando. Como disse não sou “dedo-duro”. 

Depois desse acontecimento, estou fadado a viver sozinho, na rua, sem ter a companhia de uma mulher, de uma companheira ao meu lado, que me fizesse carinho depois do trabalho e uma massagem para curar o reumatismo. Alguém que pudesse partilhar a surdez e as deficiências do corpo ou, simplesmente, uma pessoa para partilhar as memórias, os dissabores e as perenes aventuras de uma vida comum, até mesmo as lembranças do coração. Digo isso com lágrimas, temendo risos e revoltas. Quem vai admitir que um condenado tivesse lembrança de amor?

A condição para um delinquente não se sentir preso é deixá-lo sentir-se livre. Será que vou poder contar das dores do corpo ao médico, resolver meus problemas pessoais, me libertar ao menos da tutela dos entes queridos, mesmo que tropece em uma pedra, tudo é válido pelo exercício da liberdade.

Assim, condeno-me por ter matado meus pais. Serei preso. Talvez não tenha filhos. Fui vítima da arma. Agora as coisas devem ter piorado. Confessei meu crime e já posso ser encarcerado. Tenho dezesseis anos. Nunca queria ter visto meu pai guardar a arma naquela velha caixa de sapato. Depende de você saber usá-la, porque a arma é você.

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