Na retaguarda do inimigo

A verdade é filha do tempo, não da autoridade.

Francis Bacon

I.

Informo-lhes que o presente artigo visa não só formular uma visão acerca do tema que pretende ser desenvolvido, entretanto, tende também a considerar um relato de vida pessoal, isto quer dizer, meu. Assim, peço encarecidamente que se dediquem a cada passo que a história pretende seguir, pois passamos por tempos sombrios e, sei o quanto tentamos construir dias melhores e mais cheios de sentido.

Tentarei, a seguir, construir a minha análise da linha do tempo do ano que se passou, isto é, dois mil e vinte um: o ano trágico que me fez chorar pela morte de meu pai – o qual nem sequer era presente em minha vida – todavia, colocou-me aos prantos, enquanto eu trabalhava numa empresa que me desagradava todos os dias. Juro que não sei o quanto de tempo e cabelo eu perdi durante meses à fio. No entanto, nem só de dores vive o homem, parte dos grandes dessabores dessa vida – e daquele ano – proporcionaram-me grandes experiências e pessoas maravilhosas, das quais hoje caminham esta longa jornada ao meu lado. Não à toa, encontrei a pessoa que produz esse projeto esplendido, cujo espaço faz-me sentir ainda mais viva.

O título que leva esse ensaio é extremamente proposital, sinceramente espero que possam entender a ideia por detrás de toda essa analogia. A retaguarda do inimigo constitui-se num termo amplamente utilizado em ambientes militares, tornando a significar uma certa distância que se tem de seu inimigo, como numa tropa, ou seja, dispostos a atacarem.

Com isso, lembro-me de quando comecei a estudar o fenômeno do denominado Bolsolavismo, ou ainda, Bolsonarismo, a depender do leitor. No início, tudo era muito novo e, portanto, mais difícil de se compreender, contudo, esse método de sustentar-se no Poder, criou uma série de apoiadores contumazes, os quais de fato, absurdamente, acreditam em inimigos constantes que ameaçam o curso da história, o que para esses seres, é sinônimo de comunismo.

A verdade é que é sempre um problema tratar de ideologias, eu compreendendo diametralmente, tendo em vista que fui alvo de decapitação – simbolicamente falando – por pessoas muito próximas a mim, justamente por não entenderem a lavagem cerebral que estavam sofrendo. Pois, sim, as pessoas que geralmente não conseguem enxergar ou entender opiniões distintas das suas, definitivamente, foi consumida pela própria bolha cognitiva. Exemplificando: quando o presidente da República se expressa contrariamente ao passaporte de vacina, para que as pessoas entrem no Brasil. No entendimento de seus assíduos apoiadores, significa que ele preza pela liberdade individual, quando, na realidade, não beneficia a ninguém, muito menos a nós que estamos a cada dia mais na contramão das decisões tomadas por países sérios.

Do mesmo modo, é possível evidenciar, o que o famigerado filme Não Olhe para Cima quis demonstrar com a questão polêmica de um meteoro atingir o planeta Terra. Não se trata de uma questão meramente política, mas humana, estamos falando do progresso – ou retrocesso – da humanidade, para onde iremos parar, qual será o nosso próximo apocalipse?

Ainda no breve relato acerca do filme que gerou grande comoção e crítica de estudiosos e de pessoas comuns, ressalto o ponto alto e, então, mais interessante na minha pequena visualização do problema. Quando um dos cientistas que descobriu a presença de um meteoro prestes a cair na Terra, o Dr. Randall Mindy, questiona o proprietário Peter da empresa “Bash Celulares” acerca dos rumos que estariam tomando, ao invés de combaterem o referido meteoro, Peter nos joga contra a parede, pois evidencia a verdadeira lógica por detrás dos algoritmos, na cena:

“Isso é a evolução da espécie humana. […] Meus algoritmos determinaram oito tipos de perfil de consumidor. Você é um idealista de estilo de vida. Acha que é motivado por crenças altamente éticas, mas você busca por prazer e foge da dor. Tipo um rato-de-campo. […]Nossos algoritmos podem prever como você vai morrer com 96,5% de precisão. […] Você vai morrer sozinho”. (grifo meu).

Não Olhe para Cima (2021)

Assim, é possível sentir um pouco do mal que as redes sociais nos proporcionam, haja vista que parte da fala de Peter é só a ponta do iceberg. Em conclusão, as mídias sociais alimentam e aumentam o alcance do poderio tanto das coisas boas e verdadeiras, quanto das más e falsas. Ainda mais quando há um título de autoridade em jogo, com isso explicito o fato de o filme também ter utilizado a personagem mais importante para um Estado Democrático de Direito, ou seja, o Presidente da República, como alguém que desleixa das coisas que realmente importam. Seja de um meteoro prestes a acabar com o planeta, ou uma pandemia que assola o mundo.

II.

Há um ser humano em específico que a humanidade precisa entender – e não é Adolf Hitler, sabemos o quanto de culpa possuí por todas as atrocidades que fez no século passado, e o terror que proporcionou nos anos da Segunda Guerra Mundial, a qual não faz nem um século –, falo de um outro ditador, o qual não citamos muito, às vezes e, por erro, nem o lembramos. Stalin. Nome de guerra, conhecido em russo por Homem de Aço, mas escondido por seu verdadeiro nome “Joseph Vissarionovich”.

Alguns historiadores optaram por utilizar o prenome Iosef, justamente porque muitas das assinaturas de Stalin eram escritas com as inicias I.V.; foi o que relatou Dimitri Volkogonov em seu primeiro volume de “Stalin: Triunfo e Tragédia”. A história de ascensão de Iosef dentro do Partido Comunista da Rússia não é relevante para a análise que pretendo traçar, contudo, importante evidenciar que Stalin não foi alguém que nascera dotado de personalidade “mística”, ou mesmo do gracejo de um líder, diferentemente de seu docente, Lenin, o qual foi capaz de movimentar milhares de pessoas durante a Revolução de 1917, na Rússia, mesmo enquanto acontecia a Primeira Guerra Mundial.

Lenin tinha o seu corpo de idealistas do socialismo que queriam implantar na antiga União Soviética, dentre eles encontrava-se Leon Trotsky, um menchevique, possuidor da ideia de implementação do comunismo em larga escala, ou seja, de que não só ficasse na Rússia, entretanto, que dominasse o mundo. Um típico idealista, contudo, muito diferente de Stalin, Leon possuía uma grande destreza com a escrita, tanto é que possui diversos artigos e livros publicados, principalmente, durante o período que ficou exilado – aproveitou-se para disseminar os planos sombrios de Stalin para a URSS, ao mundo.

Em breve síntese é claro, pois Stalin e Trotsky viveram muitos entraves, considerados mais que inimigos, o curso da história demonstrou que o ódio que Iosef tinha de Trotsky passou a fundamentar muitas de suas sentenças de fuzilamento, tendo em vista que além de atentar contra o Estado e Ordem postos, os agentes infiltrados – na cabeça de Stalin e de seus comandantes – eram considerados “inimigos do povo”.

Contudo, antes de chegarmos aos anos mais temerosos da era de Stalin, precisamos voltar ao tempo e entender um pouco de sua caminhada até o posto de 1º ministro do Partido Comunista antes da morte do líder Lenin. Parte da inteligência adquirida e ascensão capturada por Iosef deu-se após a sua condução durante a Revolução Russa, Dimitri conta que Stalin não era muito visto pelos membros do partido, começou a se tornar conhecido depois dos afazeres que realizava para o comandante Lenin, e foi quando começou a “subir” de cargo dentro do partido. No entanto, o poder é um pouco traiçoeiro, então, ao desejar ser mais do que podia, Iosef começou a ser alvo de alguns ataques internos do partido, por pessoas que, a posteriori, ele não deixaria barato. Todavia, parece-me que algumas coisas conspiraram a seu favor, uma vez que Lenin adoeceu e, Stalin já se encontrava no posto de 1º ministro.

Antes de falecer, Lenin fez um testamento para o Partido, o qual não era para ter chego ao consentimento de Iosef, porém, chegou. Nele, Lenin dizia que o 1º ministro possuía grandes ambições que estragariam o rumo do partido e, quem sabe da história do país. Alertava aos demais membros que não deixassem que ele se tornasse o próximo comandante. Contudo, a história nos apresentou o contrário.

Da forma como bem descreveu Dimitri Volkogonov, quando buscamos entender a razão pela qual o secretário-geral chegou a esse cargo e passou a agir como um agente sem limites, é possível evidenciar o fato de que a Rússia nunca teve um passado tão democrático, mas sempre com uma baixa cultura política, e um povo muito sofrido, o qual não possuía nem mesmo a maturidade de compreender o monstro que estavam criando, conjuntamente da série de abusos de poder envolvidas nas classes da URSS. O autor escreve, (2017, pg. 126):

Além do mais, havia o “segredo de invulnerabilidade” de Stalin, talvez a característica mais importante de todas. Ele usurpou o dinheiro de apresentar, interpretar e comentar das ideias de Lenin a ponto de um povo acreditar, no final, que ele caminhava lado a lado com o líder, que era, de fato, o camarada em armas, pupilo e sucessor de Lenin. Stalin foi um fenômeno social, histórico, espiritual, moral e psicológico. Lenin parece ter pressentido que o secretário-geral usaria o seu poder ilimitado para transformar o sistema emergente numa burocracia totalitária, e concluindo que Stalin não poderia ir adiante dentro do núcleo governante do partido. Mas o alerta de Lenin só pode ser propriamente entendido contra o plano de fundo do triunfo iminente de Stalin.

Dimitri Volkogonov

E mais: os atributos necessários para o triunfo de Stalin já estavam presentes – em partes – desde a sua infância, isto é, fora constatado que quando desde muito cedo o indivíduo é exposto a manias do sigilo, o cálculo, a aspereza, a desconfiança, a insensibilidade, podem com o correr do tempo, tornar-se mais enraizados do que abandonados. Assim, conseguimos entender, um pouco, o fato de que nem “todas as características humanas são passíveis de mudança”. No caso do autoritário em questão, este era dominado pelo           que Hegel denominou de probabilismo: “o tipo de personalidade que, tendo cometido um ato moralmente repreensível, tenta justificá-lo mentalmente e representá-lo para si mesmo como bom”.

Esse tipo de conduta deve-nos reportar ao que ficou conhecido na contemporaneidade como Dissonância Cognitiva, já que esta representaria, em tese, a formulação feita por Hegel, no entanto, com ênfases distintas, haja vista que, em matéria, o probabilismo passou a ocupar um espaço importante no arsenal de métodos políticos, com a intuição de amarrar a sociedade civil em um só nó – logo, o povo tinha que saber, e crer na falsa ideia de que tudo era feito em seu nome.

III. 

A retaguarda do inimigo deve ser traçada a partir deste ponto.

Como a sanidade mental deve ser vista como uma instituição social, na visão apresentada por Jordan B. Peterson, em seu livro Além da Ordem, faz-se absolutamente interessante o fato de que a oratória e as articulações corpóreas tendem a construir modelos de introduções aos discursos políticos, bem como a eficiência em um ser poder se autocompreender e elevar essas reflexões a um plano superior, ou seja, para dentro da sociedade complexamente desenvolvida.

Nesse ínterim, Peterson nos apresenta uma realidade vinculada aos pensamentos de Sigmund Freud e Carl Jung, filósofos e estudiosos da psique humana, acreditavam que “as pessoas eram bem ajustadas quando a expressão das subpesonalidades existentes dentro de cada um era adequadamente integrada e equilibrada”, sob esse aspecto, Freud e Jung compreendiam que a psique se tratava somente da relação indivíduo-indivíduo e não indivíduo-sociedade. Posteriormente, foi-se entendendo que a psique humana advém das relações sociais que o indivíduo possui, uma vez que ela pautará muitas das decisões e ações realizadas pelo ser. Vejamos:

As pessoas existem em um contexto social, e não como mentes puramente individuais. Um indivíduo não precisa ser tão bem-composto se puder manter um comportamento minimamente aceitável por outros. Em outras palavras: nós terceirizamos o problema da sanidade. As pessoas permanecem mentalmente saudáveis não apenas por causa da integridade de suas próprias mentes, mas porque estão sempre sendo lembradas de como pensar, agir e falar pelas outras pessoas ao seu redor.

Se você começar a se desviar do caminho virtuoso – se começar a agir de maneira inadequada –, as pessoas reagirão aos seus erros antes que eles se tornem grandes demais, e irão persuadir, rir, corrigir, e criticar até que você volte para o caminho. Elas irão desaprovar, sorrir (ou não) ou prestar atenção (ou não). Em outras palavras, se outras pessoas conseguem tolerar a sua presença, elas constantemente o lembrarão de não se comportar mal e, com a mesma frequência, exigirão que demonstre o seu melhor.

O problema dessa afirmativa é que nos tempos contemporâneos, há uma nova vertente a respeito da devida sanidade que deveríamos ter em relação a nós e à sociedade que nos cerca. Entretanto, depois da loucura vivenciada pela pandemia de Covid-19, pudermos observar uma nova reação diante da insanidade da sociedade civil – e não só no Brasil, como em todo o mundo.

No início da loucura não sabíamos como nos comportar à frente de uma doença que mata em massa, com o tempo fomos entendendo quais seriam as medidas eficazes a serem adotadas, e a partir disso floresceu a vertente que hoje denominados de negacionismo, contudo, o negacionismo requer uma atenção especial, já que se refere a “escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável”. Assim sendo, essa nova ramificação do ato de se tornar alguém naturalmente civilizado cai por terra, haja vista que os comportamentos anteriormente adotados já não nos servem mais.

Dessa maneira, o problema que surge é de que modo nos manteremos em alerta constante para não deixarmos normalizar a insanidade existente em pessoas altamente desequilibradas?  E, mais, como essas pessoas conseguem cooptar tantas outras para fazerem parte de seu espectro ideológico extremamente influenciável?

No capítulo anterior, eu citara pontos estratégicos utilizados pelo ditador Iosef, e podemos dizer que, após o período mais sombrio da Rússia no século passado, entre os anos de 1938/1939, foram excentricamente importantes para o avanço de totalitários implantando os seus métodos ao mundo. Tendo em mente essas colocações, preciso demonstrar a partir dos relatos extraídos de Volkogonov (2017, pg. 432) as experiências das pessoas que passaram pelos terríveis anos de comando de Stalin:

Cheguei à mais humilhante fase de minha vida: minha culpa genuinamente séria perante o partido e perante a você [Stalin]. Confessei a minha culpa em atividade contrarrevolucionária. Mas eis a situação: não fui capaz de suportar a tortura a que fui submetido por Ushakov e Nikolaev, principalmente o primeiro. Ele sabia que minhas costelas quebradas não tinham sarado e usou isso para infligir terrível dor durante o interrogatório, fazendo com que eu traísse outros e a mim mesmo. Peço-lhe que reveja meu caso, não para poupar-me, mas para desvendar toda a pútrida provocação que, como uma serpente, enleou tantas pessoas por causa de minha fraqueza e minha criminosa injúria. Jamais traí você ou o partido. Sei que devo morrer devido a uma miserável e torpe provocação fabricada contra mim por inimigos do partido e do povo. – (Carta de Eikhe a Stalin, o homem mais importante do partido e do Estado, já não mais lhe servia, foi à prisão e nunca mais voltou).  Grifo meu.

Apesar das atrocidades demonstradas, havia pessoas que seguiam e idolatravam a figura do líder, o que normalmente é um problema. Essas mesmas pessoas foram beneficiadas de alguma forma, seja por compartilharem do mesmo sentimento de autoritarismo, ou mesmo porque normalizaram essas condutas altamente reprováveis na sociedade atual. Entretanto, à época dos acontecimentos supracitados, é necessário trazer à tona que existiam pessoas que poderiam ter banido e punido da forma correta, mas, preferiram se manter inertes diante das condutas não humanas prestadas contra, no início, uma classe de pessoas especificas e que, a posteriori, passou a vincular todos os “inimigos do povo” – isto é, não se sabe ao certo as razões pelas quais se odiava tanto, pois eram tantas as sentenças.

Nesse diapasão, não podemos deixar de considerar os perigos que a democracia brasileira tem nos oferecido, justamente porque não há sistema perfeito e, em detrimento disso, precisamos aperfeiçoar a cada dia as nossas decisões e caminhos.

O sistema de coerção manipulado por Iosef durante os seus anos duros estão distantes dos métodos que hoje conhecemos para manipular as mentes, hoje as coisas começam pelos denominados algoritmos, – lembre-se da primeira citação deste artigo, há diversos meios e formas de entender como você se sente em frente a uma tela – e, baseado nisso que os empresários poderosos do ramo da tecnologia se utilizam para manter as pessoas conectadas e mais e mais enviesadas.

Nessa seara, em seu texto Apocalípticos e Bestializados [i], o escritor Martim Vasques da Cunha reporta acerca de um caso concreto que envolve a influência de um pastor evangélico no governo Bolsonaro e de como ele dissemina o seu conhecimento para tornar o grupo de pessoas que o assistem, em um típico exército, seja nas redes sociais – o que é o nosso maior problema – bem como nos convívios interpessoais. Porque o ponto de vista que se espalha num almoço em família tende a construir ou destruir laços. Assim, Martim explica uma das razões para termos criado tantos grupos por meio das mídias sociais, por exemplo, o caso do QAnon (uma teoria conspiratória que acabou por migrar para a política, objetivando o uso da violência). Além da finalidade desses grupos em caracterizar quem são os novos “inimigos do povo”. Escreve:

[Ronaldo] Lemos chegou à mesma conclusão de Walter Kirn sobre a inventividade de quem participa dessa rede: ‘O QAnon influencia porque incentiva as pessoas a se tornarem ‘detetives’ na internet, em busca da ‘verdade’. Para isso, os mantenedores da estratégia espalham pistas muito bem escondidas pela rede. Um vídeo ali, uma informação em um site aqui, uma frase de um discurso político acolá. Ao não entregar a informação pronta, o [movimento] dá às pessoas uma sensação de inteligência e satisfação ao permitir que descubram ‘por si mesmas’ essa verdade oculta, cuidadosamente espalhada.’ Em suma: com a ajuda de um imaginário deformado, não se trata mais de uma luta pelo poder por meio das categorias ultrapassadas de esquerda versus direita. Trata-se de uma luta a respeito de quem sobrevive no mundo da ficção e quem prevalece no mundo real.

IV.

Chego, portanto, a este último capítulo com toda essa Ressaca de Sentimentalismo Intelectual para declarar que não pude ser condescendente com toda essa reiteração de violência em qualquer dos ambientes que eu me colocasse. Na maioria deles, tentei fugir, não olhar, fingir que concordava e até mesmo tentei não esboçar qualquer tipo de reação, e reparei o quanto é difícil estarmos em uma sociedade politizada. Gostaria muito que isso fizesse bem, quer dizer, que pudéssemos discutir formas e maneiras de melhorar as políticas públicas implantadas, além de discordar sem que alguém me injuriasse, ou ainda, que não deixasse que uma opinião política desfizesse uma relação pessoal, pois aquela não pode se sobressair diante desta.

No entanto, parece-me – e digo com tristeza – que estamos produzindo mais ódio do que compreensão, poderia ser somente nas mídias sociais, contudo, percebo ser algo presente em nosso convívio. Elevamos o tom com quem discorda e queremos impor as nossas conclusões e visões de mundo no outro, porque “como ele não é favorável a isto?”.

Temos nos tornado intolerantes assíduos. E, preciso dizer que, em nenhum lugar do mundo a intolerância demonstrou ser boa, ao contrário, foi capaz de criar guilhotinas em Praças Públicas e, posteriormente, passou a acontecer às sombras, logo, criaram-se os gulags e os campos de concentração. Hoje, obviamente, não poderiam se chamar assim, entretanto, vamos incluindo os “inimigos do povo” em suas devidas celinhas, esperando para que possamos, na retaguarda do inimigo, atacar.

Com a intensificação dessas condutas, criamos a imaginação apocalíptica, que nada mais é do que manter as mentes dos seguidores em completa alucinação, alimentando a expectativa de que “sempre há um grande momento apocalíptico” – quando os nossos arqui-inimigos irão nos atacar? – essa mentalidade é capaz de induzir os seguidores a terem um “comportamento exaltado e extremo, que vai do ascetismo radical à generosidade extravagante, passando por atos violentos e a adoção de teorias conspiratórias” que o próprio líder as faz acreditar.

Concluo, diante da abordagem adotada por esse texto, que, a figura do Tolo, muito utilizada nas cartas de tarô, “é um homem jovem e bonito, que olha para cima, caminhando pelas montanhas, banhado pela reluzente luz do sol – prestes a despencar desatentamente em um abismo”. Esse Tolo não é o tolo que você pensou, não. Esse Tolo sou eu, pois a figura do arquétipo dessa personagem significa assumir o lugar na base da hierarquia. Isto é, encarar-se a si e a própria ignorância, é ter gratidão e humildade no espaço que detém do mundo.

A partir dos pequenos capítulos discorridos neste ensaio, espero que possa buscar fazer uma reflexão acerca da vida que caminha, perceber que há coisas boas dentro do caos que nos cerca, e que precisamos do caos para gerarmos o instinto de sobrevivência que há em nós.

Beatriz Ferrarez


[i]  Texto disponível em: https://martimvasques.substack.com/p/apocalpticos-e-bestializados

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