Retrato do pecado

Quando Leandro chegou do trabalho estava com o rosto pálido e os olhos reluziam suas olheiras profundas. Ele acordava às 5h para se arrumar e evitar o trânsito de São Paulo. De segunda a sexta-feira usava roupa social para atuar na Bolsa de Valores. Era casado há 20 anos, com três filhos e aos 55 anos carregava alguns mistérios até então escondidos da família.

Nos últimos seis meses seu olhar doce e sincero passou a um tom escuro, que poderia se assemelhar a uma petúnia roxa. Suas sobrancelhas, antes eram feitas e bem curvadas, deixaram de representar sua personalidade sempre curiosa e indagadora. Até seus lábios carnudos e rosados deixaram de atrair olhares e desejos sexuais.

Diante do espelho era possível perceber as mudanças no corpo. As roupas antes coladas por causa do sobrepeso passaram a respirar com o decorrer dos dias. Não era regime ou atividade física, para a mulher, poderia ser o cansado do trabalho, por causa disso, ela evitava os diálogos. Na última tentativa, Leandro desenterrou ofensas causando mal-estar entre a família.

Ele começou a receber ligações em horários impróprios. Na madrugada, durante o almoço e até na hora do jogo. No horário das partidas de futebol, ele nunca atendia o celular, era um momento sagrado, qualquer conversa paralela poderia lhe distrair e interromper as vibrações ao seu time de coração, mas nada era como antes.

Quando a trepidação do aparelho ocupou a sala, todos olharam surpresos e já esperavam a ligação cair na caixa postal. Neste dia, ele pegou o celular, saiu da sala e sussurrou frases desconexas, com prejuízos na gramática e até com erros de português. Não viu o gol da classificação do seu time, pegou a chave do carro e saiu de casa.

Foram longas horas até seu retorno. Todos ficaram curiosos em saber onde ele teria ido. A esposa foi ao seu encontro e logo desferiu três perguntas em menos de 10 segundos: Onde esteve? Aonde foi? Porque saiu? Ele não respondeu nada e foi ao banheiro. Ele deseja se limpar e tentar eliminar toda a sujeira de seus atos e dos erros cometidos.

Novamente o celular toca e precisou sair do chuveiro e quando ouvia a voz do outro lado era como se cada palavra tirasse sua coragem, sua reputação e sua vontade de viver. Quando a última fala foi pronunciada, ele teve medo, não enxugou seu corpo já contraído de pecado. Vestiu a mesma roupa do dia anterior e saiu.

Ele chegou ao banco, suas mãos tremiam, seu olhar caído marcava a baixa pressão e por alguns minutos não conseguia lembrar a senha do banco. Precisou sair do caixa eletrônico para tomar um pouco de ar, o suor que descia da testa ressecava seus lábios e drenava sua sanidade. Voltou e fez uma transferência de R$ 6 mil.

Depois de duas semanas outra ligação. Ele quase foi surpreendido pela mulher. Seu segredo, mais cedo ou mais tarde, será revelado, era o que Leandro pensava. Em seus pensamentos pairavam algumas perguntas: Onde fui me meter? Por que fiz isso? Onde estava com a cabeça? Frases desarmoniosas surgiam a todo o momento, em muitas não era possível compreender se havia verbos, substantivos ou conjunções.

Na sexta-feira ele chegou depois das 21h em casa. Sua mulher questionou a demora em retornar do trabalho. Ele justificou sobre problemas no trânsito e no carro. Quando estava sozinho no quarto ficou relembrando o novo depósito, dessa vez no valor de R$ 4 mil, ao recordar, começou a chorar, porque o dinheiro foi tirado da poupança destinado à cirurgia do filho.

O clima na residência já beirava ao terror. Leandro já não procurava a esposa para fazer sexo. Suas refeições eram feitas no quintal de casa e até as memórias das canções de ninar foram esquecidas, com exceção de pequenos trechos, dos quais cantava para sua filha, ele dizia algo como:

Boa noite, linda menina, durma bem.

Sonhos doces venham para você,

Sonhos doces por toda noite.

A próxima canção da lista era boi, boi, boi… nesta ele fazia gestos e era acompanhado pela menina. A lembrança fez seu corpo arrepiar e surgiu uma forte palpitação no coração. Esperou alguns segundos e voltou a cantar:

Boi, boi, boi,

boi da cara preta,

pega essa menina

que tem medo de careta…

Quando sua filha já estava dormindo, ele a ajeitava no berço e finalizava com um pequeno refrão:

Nana neném

que a cuca vai pegar…

Ele despertou das lembranças e ao abrir os olhos sua esposa estava a sua frente. Não conteve a tristeza e um gélido abraço ele depositou sobre ela e saiu novamente. Enquanto dirigia, um novo telefonema. Como estava sozinho resolveu colocar no viva-voz:

— Sou eu novamente. O pai da garota que você estava mandando nudes. Senão me depositar a quantia de R$ 10 mil até amanhã irei levar o caso a polícia. Você achou que eu não iria querer mais dinheiro seu safado. Sei que é casado e tem filhos. É melhor me dar este dinheiro ou você estará ferrado.

Nem deu tempo de argumentar. O telefone desligou. Ele relembrou a primeira vez que entrou na rede social. Estava se sentindo velho e sua vida sem muita graça. Então resolveu navegar na internet e descobriu uma mulher atraente que logo de início deu atenção a ele. Cobriu-lhe de afetos e frases de encorajamento. Não demorou muito para as primeiras fotos serem trocadas. Leandro, todo empolgado, enviava quase todo dia fotos do seu pênis, até que um dia enviou uma imagem de corpo todo e pelado. Foi o retrato do pecado e o início de sua decadência.

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