Linhas de sangue

A imagem me vem à cabeça como se fosse ontem. Me batem às pressas na porta, bem cedo, arrastam um homem, o qual não sei o nome, querem uma sentença logo. Era sábado, não trabalho, mas exigem com todo tipo de argumento que decorre em uma sentença. Mesmo assim não tenho tinta, trabalhei a semana toda e não abasteci meus tinteiros. A partir desse momento não consigo mensurar como chegamos naquele ponto.

O homem sem nome deitado no chão, provavelmente desidratado, sinais de torturas, mas nada que não fosse normal naqueles dias, eis que trazem uma navalha e me dão de tinta sangue.

Não colocam no tinteiro porque o sangue coagula rápido, me fazem carregar a pena no corpo moribundo. A rubra tinta discorre a sentença e de linhas vermelhas condeno um homem sem saber ao menos quem era. O sangue logo escurece em ferrugem, selo a carta, não cobro pelos serviços devido ao sábado, me despeço em desespero interno por aquele homem, entro em casa e me deito pensando que na próxima semana o moribundo pode ser eu. Segunda vou a cidade e compro tinta, talvez compre a mais para estoque.

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