Confissão

Antes de participar da Semana Santa, o padre havia dito sobre a importância da confissão. Achei melhor atender seu pedido. A igreja estava lotada, e para acolher todos os pecadores foram convocados seis párocos da região. Antes de ocupar o meu lugar na fila, resolvi escolher a que não me levava ao sacerdote da cidade.

Quando chegou minha vez contei os meus pecados ou os que poderiam ser ditos. Achei melhor omitir parte deles, tive medo da reação do padre. Onde ficaria minha reputação. A conversa fluiu; senti-me em uma mesa de bar, tomando drinks, conversando com os amigos, dando risadas e sem ver a hora passar. Quando terminamos, ele me deu uma penitência. Para ficar limpo, era preciso rezar um Pai-Nosso e meditar as frases da oração.

Escolhi um banco mais afastado e resolvi iniciar a minha penitência. Fiquei meio constrangido. A maioria foi embora. Neste lugar-comum ficaram poucos fiéis. As pessoas passaram e alguns risinhos saiam sorrateiramente do canto da boca. Senti-me como se tivesse uma peste bubônica pelo corpo. Precisei recolher minha vergonha para iniciar a proclamação da oração.

“Pai Nosso que estais no céu”. Ele está lá olhando por nós. É o que todos dizem. Eu também acredito, mas porque há tanto mal na terra. Ele deveria estar no meio de nós. Onde está quando uma criança morre de bala perdida. Onde esteve quando adolescentes foram mortos em um local feito para aprender. Talvez tenha sido muito duro com o pai. Fiquei pensando na minha fé e nos meus pecados. Vou continuar.

“Santificado seja vosso nome”. Isso me intriga um pouco. Todo aquele que crê e faz sua parte poderá ser salvo. O que me faz questionar é até quando iremos ver padres pedófilos e pastores roubando fiéis. Ambos falam em nome de Deus. Isso não seria pecado? Ou o pecado só habita na assembleia? Acho que serei excomungado.

“Venha nós o vosso reino”. Se sua morada for melhor, eu aceito. Já não aguento mais virar a página do jornal e ver mulheres sendo mortas, homossexuais sendo linchados até o último suspiro, negros sofrendo com o racismo ou idosos tendo seu salário mínimo subtraído por filhos e netos. Que reino é este que ainda não chegou? Senhor, caso eu esteja pecando, não é minha intenção.

“Seja feita vossa vontade, assim na terra como no céu”. Se sua vontade realmente fosse feita, não teríamos homens matando em seu nome ou líderes políticos destruindo a Amazônia. Qual vontade fala mais alto? Quem realmente manda nessa terra. Onde está o respeito ou próximo? Porque ainda há comunidades sem saneamento básico, sem água potável, sem alimentos?

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Porque pais no desespero roubam uma caixa de leite e passam a vida toda na cadeia e políticos corruptos com altos salários não são presos? Em muitas mesas a sobra vai para os porcos que comem filé mignon, costela e tantas outras receitas, por outro lado, há pessoas sendo comidas por seus próprios vermes? Onde está este pão que ainda não chegou à boca dos famintos?

“Perdoar-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos quem nos tem ofendido”. Como posso perdoar o estuprador? O aborto clandestino enquanto há métodos contraceptivos gratuitos? Como perdoar pais que mataram o filho e colocaram a culpa na queda da cama? Como perdoar o jovem alcoólatra e drogado ao matar um casal indo para o trabalho? Meus olhos queimaram, minha barriga ficou intoxicada de raiva e meu corpo tremeu de frio diante de uma temperatura de 40 graus.

“E não deixei cair em tentação”. São tantas tentações, mas todas cometidas pelas mãos de homens e mulheres. Deus é culpado? Não. O poder, o dinheiro, a inveja, luxúria e tantos outros pecados podem inverter a ordem lógica dos fatos, mas, não dá para culpar a Deus. Às vezes, me pergunto; qual a necessidade do ser humano diante de tanta dor.

“Mas livrar-nos do mal”. Neste momento, o silêncio adentrou meus pensamentos e bagunçou meus raciocínios. Meu corpo já esgotado pela penitência, ao fundo, já ouvia murmúrios de dirigentes desejando fechar a igreja. Quem faz o mal? Sobre a questão, para ilustrar a resposta, uso de pronomes pessoais: eu, você, nós.

Quantas vezes para resolver algo levantamos a mão: a mão que bate ou invés de dialogar, a mão que reforça a superioridade do rico sobre o pobre, a mão que comete assédio sexual nas mulheres, a mão que puxa o gatilho, as mãos que aplaudem quando o negro, o gay ou pessoas obesas são motivos de piadas, a mão que escolhe errado os políticos e as mãos que unem em oração e quando saem da igreja começam a falar mal do próximo.

Diante dessa interpretação, fico pensando se Deus estaria de acordo. Posso ter julgado sua capacidade de conversão, de perdão, de misericórdia. Não foi minha intenção. Sei que há muito a aprender e em Deus posso encontrar as respostas, já que nos homens, jamais irei entender o quanto desejam fazer mal ao próximo. Amém.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s