Na fila da confissão

Cheguei afobado e minha esposa já me esperava há meia hora na porta da igreja. Era dia de confissão e se eu não fosse ela iria descarregar todos os 10 mandamentos e ainda iria recitar até os sete pecados capitais. Para aproveitar o momento, resolvi pedir perdão e evitar uma discussão nas escadarias do santuário.

Como de costume, fiz o pelo sinal como gesto de respeito e iniciei uma oração, mas fui interrompido com os recados do padre. Ele pediu para os fieis ficarem em silêncio e meditar sobre seus pecados. Quando ele disse seus pecados, pensei, mas será que ele não tem pecado? Ele leu uma passagem da bíblia e fez uma pequena homilia. Em seguida, deu sinal para os ministros organizarem a fila.

Até chegar a minha vez, observei algumas pessoas. Uma senhora, de vestido todo florido, cabelos brancos, de batom vermelho fogo, nas mãos, carregava um rosário, enquanto aguardava, rezava muitas ave-marias. Fiquei incomodado, como alguém coloca essa cor de batom para confessar. Se fosse sacerdote, ficaria desejando seus lábios, neste contexto de indiscrição.

A fila dela andava mais rápido do que a minha. Então resolvi cobiçar outra vida. Na minha esquerda, um homem, de pele queimada do sol, sorriso branco e olhos castanhos, trazia nas mãos uma folha de caderno. Era uma lista de pecados: meu Deus! Quantos? Se eu fosse os organizadores, o deixava passar na frente. Coitado dos ouvidos do sacerdote, este deve ser um pecador voraz. Tenho até medo da penitência dele.

Logo em seguida, passei a observar uma criança. Fiquei até sem graça. Desde pequeno já indo à igreja. Eu não tinha este hábito ou talvez meus pais não me ensinaram a louvar a Deus. Quais seriam os pecados dela. Ter ficado mais tempo na rua jogando bola? Brigou com o coleguinha na aula? Não comeu toda a comida na hora do jantar?

Quando perdi o interesse pela criança, comecei a questionar um dos ministros. Ele tinha uma expressão fechada, beirando a inutilidade. Estava próximo do altar com seu ar arrogante e mesquinho. Percebi que ficava cochichando com uma mulher mais velha. Tenho quase certeza que é sobre os pecados alheios e das pessoas com baixa frequência nas celebrações.

De repente, um celular tira o silêncio da igreja e algumas gargalhas foram ouvidas por todo canto. O que chamou minha atenção não foi o toque ser um funk, claro que não era o local apropriado, mas, como alguém tem a audácia de não colocar o aparelho no vibra. Isso é pecado. Ele atrapalhou minha concentração em me distrair com as pessoas.

Minha vez se aproxima e por coincidência observei o padre a minha espera. Quando uma pessoa saia do seu lado, ele dava um suspiro, bebia alguns goles de água, coçava a cabeça e fazia um sinal com as mãos para o próximo abate. O gesto foi repetido cinco vezes até chegar a minha vez. Subi no altar, respirei fundo e desatei a falar.

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