Manifesto, fast food e a realidade

Minhocas.

Animais anelídeos, da subclasse Oligochaeta, de simetria bilateral, recobertos por uma fina cutícula pigmentada.

Quando mais novo, lembro de ser informado que o lanche do méqui era feito de minhocas. Com não mais que uns doze anos, tudo para você é verdade.

Lembro também que nessa época eu ainda não havia comido um méqui.

No dia seguinte, lembro de chegar na escola e espalhar essa notícia, dizer para todo mundo que havia um lanche de minhoca, muitos já sabiam dessa, como podemos chamar?

Lenda urbana.

Por algum motivo, essa informação era real, em minha mente, fazia total sentido um lanche que eu nunca comi, ser feito de minhoca.

O engraçado era que, mesmo sabendo que o lanche possivelmente era feito de minhoca, eu queria comer um. Mesmo que eu visse esse processo nojento de pessoas recolhendo minhocas do solo. 

Mesmo que eu visse, elas colocando essas minhocas em trituradores de carne e olhando a carne moída escorrer do outro lado e depois sendo jogada sobre uma bancada para ser preparada.

Sei que mesmo assim, depois que colocassem o cheddar, alface, bacon e os outros ingredientes que acompanham, eu provavelmente me sentiria bem comendo um méqui.

Você entende?

Existe algo na realidade que parece ocultar o mais estranho. Como uma neblina de necessidades de um querer louco que nos acompanha. Acredito que você também tenha algo que mesmo que trouxesse repulsa, você iria querer.

É como aquelas jujubas do Harry Potter, que mesmo sabendo que podemos pegar uma jujuba, sabor sabão, nos arriscamos e depois falamos: “droga, sabor areia!”

Existe essa realidade, que mesmo que não faça sentido para você, ela está pairando em algum lugar.

Fast food, esse é o real assunto por aqui. Comidas rápidas e fáceis, viciantes e que nos fazem ganhar um tempo. A praticidade em fazer mal para nosso organismo.

Isso não é um artigo culinário, eu estou aqui para criticar o conteúdo que estão criando por ai e eu mesmo fiquei criando por muito tempo. O conteúdo fast food, esse conteúdo rápido que não agrega em nada em nossa vida e ficamos horas olhando.

Recentemente, lendo uma das biografias do Philip K. Dick, um renomado escritor de ficção cientifica, fui surpreendido por uma nota do autor da biografia onde ele diz que Philip previu tudo que acontece agora.

Em seus livros PKD trás essa fuga ilusória da realidade, pessoas vão para outros lugares, usando drogas, equipamentos ou até mesmo morrendo. Essa fuga da realidade sempre procurando algo melhor que no fim se mostra, pior do que era.

Quando pego em meu celular, penso nisso.

Num momento estou em minha sala, os sofás cinza escuros ainda estão encostados nas paredes, o buraco onde antes tinha um prego também está lá. Meu irmão mais novo berra ao microfone com algum jogador do outro lado da tela.

Tudo está em seu devido lugar, e essa é a realidade.

Um ícone de distância entre o real e o que pode ser real, mas não tenho certeza.

O clique na tela é nossa forma de sair de um lugar para outro. Nossa péssima postura é como a chave de um portal magico com filtro de luz azul.

Sentado sobre o sofá, entrando nessa aventura magica, tudo que tenho que fazer é deslizar meu dedo. 

Gostaria de dizer que sento para ver coisas uteis. Sento e vejo marcas, tutoriais, cursos. Sento e vejo coisas que agregam. Isso que eu queria dizer.

No entanto, entre vinte vídeos de pessoas dançando a mesma coreografia, vídeos de pessoas caindo de algum lugar e fotos de viagens perfeitas, a última coisa que consigo absorver é algo que agregue.

Calma, isso não é uma crítica aos tiktokers, nem mesmo as pessoas que tem a vida perfeita da rede social. 

É um manifesto sobre mim, ou talvez sobre você, que assim como eu, é uma pessoa cansada, também não vou te vender nenhum curso, pode continuar lendo sem precisar ir buscar o cartão de crédito.

Quando comecei a criar conteúdo, notei que os criadores ou pelo menos, também estravam nesse tipo de realidade, você deve pensar que estou exagerando, talvez esteja mesmo, mas lembro de postar algo e a cada segundo olhar se alguém havia visto.

“Maicon, quer jantar?” perguntou minha mãe.

“Calma, já vou” respondi sentado no sofá, entrando e saindo daquele portal para ver se era minha internet que estava lenta.

Conteúdo fast food, isso não é sobre as pessoas que criam, mas sobre as que a absorvem e eu, a pessoa que cria e absorve.

Realmente estou cansado disso.

Como na ideia da minhoca, existe essa película de realidade que parece querer nos levar para algum lugar.

Mesmo sabendo que passar mais de uma hora rolando o feed seja algo inútil, eu estou lá e você também pode estar.

Nós sabemos disso, dos males, sabemos das dores no pescoço por ficar com a cabeça baixa por tempo demais, mas mesmo assim, ainda queremos esse lanche, esse fast food.

Faz um mês.

Acredito que tenha feito um mês que decidi encaixar uma nova ideia em minha mente viciada.

Conversei com amigos próximos como um bom usuário e fui aconselhado a tentar essa reabilitação mental.

Não iria mais ter esse interesse em provar a carne de minhoca. 

Sentado em minha cadeira de madeira, olhando para meu velho e bom notebook, escrevi o que poderíamos chamar de re-branding para a vida.

Nele, decidido escrevi coisas que deveriam sair da minha vida, e coisas que deveriam ter entrado faz uns dois meses.

E esse manifesto é uma dessas coisas, aqui eu quero dizer, não só para mim, mas para você também, que eu realmente cansei de conteúdo fast food.

Cansei de criar carrosséis no Instagram falando apenas 30% do que eu queria mesmo falar. Eu sei que esse conteúdo é o que vende, é o que atrai o pessoal para ler, porque o algoritmo gosta.

Vivemos para agradar algoritmo, nosso messias.

Eu sinceramente não quero atrair essas pessoas. Sou um escritor, pelo amor de Deus, levei meses para aceitar essa denominação, quero atrair pessoas que vão ler conteúdos densos, mesmo que a pessoa leve três meses para ler um texto, que ela leia pouquinho e pouquinho, como um filme de três horas que não conseguimos ver de uma vez.

Tem pessoas que respondem minha primeira nius ainda, e isso que importa, essas pessoas que levaram dois meses para descobrir, ou apenas para ler mesmo, elas finalizaram e vieram responder, é isso que importa, não é?

Tudo isso acaba sendo um desabafo atrasado, já que esse texto, na verdade, era um áudio de alguns minutos que mandei para o Dimitri, onde eu jogava meus pesares sobre uma criação de conteúdo fraca que eu me remeti a fazer nos últimos meses. 

Digo também nesse áudio longo que ele deve ter ouvi em velocidade maior, que, quero construir conteúdos, maiores, mais densos, e mais abraçáveis. Construir pouquinho a pouquinho.

Isso é sobre uma jornada, tudo isso.

Sobre uma realidade da qual quero fugir, por que já estive demais nela, uma realidade que fui entrando sem perceber, por viciar mesmo, não culpo ninguém por isso.

É algo como uma busca por raízes, recurar uma essência e conectar com um ancestral.

Isso tudo é sobre mudanças e sobre coisas que não fazem mais sentido. Uma fuga do egoinsta (criado pela Lu do Miolo.digital).

Por fim, isso é um manifesto que eu precisava escrever para meu cérebro entender o que está acontecendo. Faz sentido? Possivelmente.

Entrei nessa pira de falar muito sobre pouco, do que pouco sobre muito.

Obrigado por ler, nos vemos por aí. 

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