O português além da gramática

As aulas de língua portuguesa nunca foram minhas favoritas. Eu gostava das propostas de redação, e com certeza guardo com muito carinho até hoje os primeiros livros que fui incentivada a ler, mas, para falar a verdade, na maioria das vezes eu via aquelas aulas como um grande poço de tédio. Num cenário de escola pública, você já pode imaginar por quê.

Naquela época, eu nunca teria pensado em trabalhar ensinando português a outras pessoas. É por isso que preciso confessar: não foram as regras, os nomes nem toda a decoreba que me fizeram gostar do português. Não meeesmo! Imagine só: acordar e sentir um terrível amor por colocação pronominal. Ai, que delícia! (Rindo de nervoso.)

Para falar a verdade, meu plano era passar no vestibular, estudar tradução e trabalhar com livros — em língua estrangeira, é claro, porque aprender inglês era a minha parte favorita da escola.

Acontece que só fui descobrir quando já não havia mais como trancar a faculdade (mentira, essa parte é exagero) que, para traduzir bem, eu precisava estudar o português. Só no primeiro ano, para você ter uma ideia, em uma disciplina, eu tive mais de cento e oitenta horas de aulas de língua portuguesa. Foi… intenso.

Ao mesmo tempo, hoje reconheço como me ajudou ter tido essas e todas as outras aulas. Por mais cansativas e complexas que fossem, foi por causa delas que desenvolvi um olhar mais crítico ao escrever, uma habilidade importante para que o tradutor escolha bem suas palavras.

Isso é tão curioso que, como conto para minhas alunas, cada aluno trazia um texto diferente para as práticas de tradução. Um texto original, mas dezessete traduções. Foi quando entendi: existe mais de uma forma de escrever uma ideia, cada uma favorecendo uma construção de sentido. Eu percebi que tinha opções; que, se algo não me agradava ou não se encaixava bem no texto, eu podia reescrever até encontrar um substituto compatível.

Não havia tanta clareza na época como eu tenho hoje, mas foi isso o que me fez gostar do português: as possibilidades. De repente, eu sabia que, se eu escolhesse colocar uma vírgula em tal frase, poderia comprometer o sentido dela; ou que, se eu não invertesse a ordem aqui, aquele trecho ali poderia ficar ambíguo.

Eu peguei gosto por aprender língua portuguesa e escolhi trabalhar com ela quando entendi que as regras não são apenas regras nem que os nomes não são apenas nomes, mas formas de me explicar o funcionamento de uma ferramenta com a qual a gente se comunica — e, no nosso contexto, escreve.

Há poder no conhecimento. Ele não te emprisiona, mas te empodera.

Por isso, a partir de hoje, convido você a me encontrar nessa coluna, todo fim de mês, para falar sobre o português além da gramática. Nada de regras nem de decoreba; quero que a gente pense a língua portuguesa como uma ferramenta de escrita, de comunicação.

Quem sabe, no fim de tudo isso, você não vai estudar português porque acha que precisa, mas porque entende que esse conhecimento amplia sua forma de olhar o mundo e de desenvolver a própria escrita.

O convite está aberto.

Até mês que vem,

Camila Lima

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