Testamento

Faleceu aos 75 anos, a senhora, Roseli Rodrigues Pereira dos Santos. A família enlutada convida parentes e amigos para acompanhar o féretro que saíra às 9h. Em cidades do interior paulista o anúncio da morte é um acontecimento. Caso o morto tenha plano funerário, a família pode até inserir um trecho de música entre um parágrafo e outro. 

Fiquei sabendo da morte da minha tia por meio do carro de som, eu a chamava assim. Ela era rica e tinha algumas propriedades. Conhecendo os filhos, a disputa pela herança já deve ter iniciado. Fui até a casa dela para oferecer ajuda aos filhos e empregados. Nem parecia que alguém havia morrido. Os três herdeiros já estavam levando objetos de valor. Deixei a cena e fui ajudar no funeral.

Passados três horas, observei caminhões de mudança chegando à casa de titia. Enquanto o cortejo passava, os móveis e objetos de valor eram retirados. O corpo não havia esfriado e já estava sendo roubado. Depois de alguns dias, recebo uma ligação de um advogado. Fui convocado a participar da leitura do testamento de titia. 

Na quinta-feira, às 15h, estava no escritório. Logo que entrei, os filhos ficaram assustados e preocupados com a partilha da herança. Houve cochichos, mas, como não tínhamos contato, sentei longe dos três. O advogado anunciou os valores e imóveis para cada filho, para mim, ele entregou uma caixa de metal com uma folha com seis dígitos.

Quando cheguei a minha casa, não dei muita importância ao pacote. Fui terminar de lavar a louça e colocar roupa na máquina. Depois do jantar, quando estava deitado no sofá, lembrei-me do testamento e fui saber o que havia recebido pelos anos de amizade com titia. Digitei os números no cadeado e páginas foram abertas.

De início fui uma descoberta frustrante. Pensei encontrar algumas joias ou dinheiro do exterior, mas um diário. O que eu iria fazer com essas páginas escritas? Espero ler alguns textos sobre roubo, sexo ou fofoca dos membros da família. Na primeira página houve uma apresentação explícita, com traços nítidos dos filhos, chegando à observação psicológica, inclusive o contorno moral de cada um deles.

Fiquei pasmo com tantos detalhes, até então, audaciosos. Ela chegou a caracterizar as peripécias e algumas coincidências, as mais evidentes, o fato dos filhos roubarem suas economias. Nesta página havia um bilhete: “Procuro ocultar um detalhe da minha história”. Algo passou em meu coração: o que ela teria escondido da família?

Ora, como se entende isso? Inclino-me a responder a qualquer um, com a firmeza de um historiador que decide ecleticamente entre duas versões de um fato controvertido. Titia tinha segredos ou essa frase era mais uma das suas enigmáticas conversas. Ela sempre me tratou bem, ajudava a pagar a faculdade, auxiliava nas despesas de casa e me indicou a uma grande empresa, onde coordeno uma equipe de 50 pessoas.

Achei melhor seguir a leitura do diário. As próximas páginas eram sobre seus sentimentos. Mordi os beiços e cada frase era como se um martelo fosse descarregado em meu corpo, armei um sorriso constrangido, pouco animador, ao mesmo tempo, senti um forte arrepio, como se ela tivesse passado neste momento. Ela trocava tudo por alguns minutos de carinho, chegou a comprar algumas horas dos filhos para lhe dar atenção.

Neste momento ela mencionou meu nome. Como se eu fosse a uma única chama de amor dentro dela. Os filhos apenas sugavam seu dinheiro e o marido um alcoólatra declarado e um homem furtivo de muitos amores. Perdoe-me a franqueza titia, mas como aguentou por tantos anos sua narrativa. Lendo é possível sujeitar a uma rigorosa análise dos seus recônditos mistérios. 

Romantismo em ter uma família ou presa aos dogmas cristãos. Curvei-me as novas páginas e ela fez uma declaração a um antigo amor, com palavras de exaltação e uma descrição alongada deste homem. Foi seu primeiro amor, todavia, como fora prometida ao seu marido, teve que abdicar do outro. No final, ela dizia: “desejei entregar minha alma a ti, no entanto, somente pude lhe entregar um beijo, que ainda consigo sentir o gosto dos seus lábios”.

Note-se outro abrir de capítulo, em que titia prepara as páginas mais dolorosas de sua história. Quantas vezes tive que enxugar suas lágrimas e ajudar nos curativos. Foram tantas surras que em algumas páginas suas memórias eram escritas com sangue. Até o virar a folha era possível ouvir gritos e gemidos de dor ao sentir o caldo do matruz e arnica adentrar sua pele. Quantas vezes enfrentei este homem. Ela nunca deixou denunciá-lo. 

O enredo de sua história surgia com base na cronologia temporal. Ela citou como conseguiu suas propriedades e empresas. Trabalhava de sol a sol e ainda era a empregada do marido quando chegava a casa. Ela venceu como tantas outras mulheres; queria fechar por aqui a leitura dessa rápida retrospectiva.  Quando seu marido morreu, ela apenas citou: “fim de minhas dores e o início da minha morte”.

Depois da morte do seu homem, os filhos resolveram internar titia, como se ela tivesse louca. Foram cinco anos no manicômio. Afinal das contas, ela descreveu este período como: “suaves alegrias nestes anos, foram tantos momentos felizes e tantas fantasias, que ainda não sei se foram reais ou apenas os efeitos dos remédios”. 

Quando ela saiu, talvez por vontade própria, ela resolveu fazer um testamento. As dores do passado já estavam tirando a pulsação e desacelerando as batidas do coração, como costumava dizer. Eu participei de sua história e em muitas páginas sempre apareci de forma positiva, só deseja saber por que resolveu deixar um diário para mim. 

Faltavam poucas páginas e em uma breve citação sobre sexo, ela comentou sobre as infelizes noites com seu marido. “Era uma tortura sentir o gosto dos seus beijos, seu toque era como se estivesse arando a terra, deixava marcas, sua penetração era desprezível, como se eu fosse uma das prostitutas que ele comia, me fazia gemer, mas não sentia prazer e quando gozava, ele fugia, mas antes de sair do quarto, jogava uma nota, como se estivesse pagando a minha abertura de pernas.”

Ela cuidou muito bem dos filhos, das infelizes páginas, essas apresentam algumas alegrias, das quais desapareceram com o passar dos anos, com o crescimento deles. No fim, havia somente desprezo por parte deles e o desejo por sua morte, para que a herança logo fosse dividida. Ela me fez refletir quando apresentou a frase: “meu sangue materno perambula em quatro corpos”.

Fiquei intrigado com a última linha. Depois de tanto pensar, resolvi seguir nas duas últimas páginas do seu diário. Titia escreveu que no último ano de internação, ela havia encontrado seu primeiro namorado. Ele era voluntário. Até ser descoberta, ela conseguiu sentir o orgasmo de uma boa noite de sexo. Deste amor, nasceu uma criança, da qual teve que viver atrás de um orfanato.

Já estava perturbado, entre tantos sentimentos, resolvi me calar. Resolvi conversar com as trindades, meu coração caíra aos pés, fiquei desapontado e com a noite cerrada, resolvi finalizar o último parágrafo: “Por muito tempo desejei contar meu segredo. Não pude. Por medo, por não querer lhe contaminar com minha vida de dor, dentre minhas melhores intenções, lhe tirei do orfanato e ajudei a construir sua história. Peço perdão!”.

Na linha derradeira ela pediu para voltar ao advogado e lá minha história iria continuar…

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