Praça do Mercadão

Lentamente abro os olhos e o gosto do álcool da noite passada ainda eclode em meus lábios. Sinto também a fumaça do cigarro que me fizeram tragar inúmeras vezes. Disseram que era para ir devagar. Às 4 horas da manhã estava comendo um pastel no mercadão e comecei a contar minha história para quem desejava ouvir. Contei como a conheci e como amei aquela mulher. 

Por natureza sou muito emotivo, sujeito a angústias inenarráveis, já estava nervoso, durante duas semanas, me preparei para lhe convidar a sair, meu sistema nervoso quase parou, minhas inibições quase me impediram.

Cada lembrança mexia com meu aparelho digestivo e uma das fatalidades cômicas foi recordar todo o processo que fiz para convidar ela para sair; eis a verdade: ia balbuciando as palavras; pareciam frases intermináveis. Fiz uma poesia e diante dela, recitei lentamente em uma cerimônia involuntária. Assim que a tivesse em meus braços, iria propor casamento. A primeira noite é tudo, o resto não tem tanta importância.

Às 10 horas da noite, debaixo de uma garoa, tivemos nosso primeiro momento juntos. Fomos caminhar e a cada passo sentíamos o vento balançar nossos cabelos e o frio arrepiar nossos corpos. Histórias opostas. Contradições. Hiatos. O que nos unia era o olhar. Emitíamos sinceridade. Verdade. Pureza. Você com seus medos e eu com o prazer de nada sentir. Ela se surpreendeu quando contei que sentia prazer em partes inesperadas do corpo. Uma delas caia no esquecimento e alguns preferiam em outros locais, eu escolhia as orelhas. Apenas ao tocar. Não tire as mãos foi o que disse para aquela mulher que me tocava. Eu sentia uma sensação de liberdade. Senti prazer, seja nas subidas e descidas, daquelas mãos que usavam um esmalte vermelho.

Incrível. Aquele encontro nos colocava acima de qualquer dúvida: fomos feitos um para o outro. Sem excitação, numa calma intensa, coincidiu que ambos desejavam uma aproximação. Então, cruzando os braços, diante dela, disse palavras amáveis, toquei seus cabelos; ela elevou a voz, nem fez gestos e clamou por um beijo. Nossos lábios se tocaram, não sei se nossos beijos eram molhados ou era o suor devido à excitação dos nossos corpos. Assim, que nos beijamos, fiquei atônito, eu já lhe amava, esse negócio mexe com a gente, e quem não conhece o amor, não sabe o que é amar.

No dia seguinte fomos sentar na varanda. A grama estava mais verde. Nas pétalas das flores avistamos gotículas da garoa da noite passada. Você me afastou um pouco e me trouxe um cobertor. Pôs sobre meu corpo e começamos a conversar. Duas pessoas diferentes que se tornaram iguais. Contei detalhes da minha infância. Íamos a três pessoas no carro para o interior de São Paulo. Papai era atencioso. Minha mãe uma doçura de mulher. Quando avistava a chácara dos meus tios, já da cerca eu gritava: Bênçãos tia Josefa. Bênçãos tio Pedro.

Saia correndo. Que ironia dizer isso agora: pensei. Não importa. Corria até chegar naquele pé de jabuticaba. A fruta mais doce. Subia até o último galho. Tocava para sentir a sensação do frescor. Se apertasse forte o gozo do seu néctar saia ferozmente. De início, circundava em meus dedos a fruta, depois de me sentir confiante pegava de uma vez e já colocava na boca e seu sabor adocicado, era afável ao paladar, como o beijo da moça amada. Sensação vivida no interior. Na chácara dos meus tios.

Ela estava atônica. Observei que estava tocando os lábios, talvez seja para sentir o sabor da jabuticaba. Demos risadas. Gargalhadas. Quantas histórias contamos um para o outro. Anedotas. Contos. Um fato inesperado nos separou. Ela foi acudir um parente. Um garoto que se perdeu. Eu envelheci. Expulsei todos que tentavam ocupar o seu lugar. Não sabiam me domar. Ninguém conseguiu me fazer rir. Acredito que a partir deste momento, a cada dia eu morria um pouco. Passaram dias, semanas e anos. Ela nunca mais voltou. Disseram-me que ela havia se tornado uma mulher bem sucedida, eu; casei com a primeira que apareceu. 

Quando quero me lembrar de ti, peço a minha esposa para ficar atrás da minha cadeira de rodas e me levar até a praça, onde aconteceu nosso primeiro encontro. Nem minha paraplegia foi capaz de interromper esta história que se iniciou na praça do mercadão. Eu desejei morrer contigo, mas, inesperadamente, você sumiu, foi embora e levou de mim o amor. De vez em quando, ainda hoje, sinto seu beijo que deveria ser o ponto final de qualquer história, infelizmente, a minha, permanece no pânico desde o dia que você partiu.

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