A crise da contemporaneidade e os grupos autoritários

Somos criaturas medíocres, brincando com a bebida, sexo e ambição, quando a alegria infinita nos é oferecida, como uma criança ignorante que prefere fazer castelos na lama em meio à insalubridade por não imaginar o que significa o convite de passar um feriado na praia. Nos contentamos com muito pouco. 

C.S. Lewis

I.

Não há sequer nenhum acontecimento histórico que não envolva a disputa entre poder e comando. O século XX é o exemplo crasso de como a sociedade pode se degradar diante de tanto egocentrismo. Constamos que não é só sobre ser o imperador, mas também sobre como conseguimos transformar as pessoas em mero resíduo. 

Podemos culpar todos aqueles dos quais conhecemos os nomes e crucificamos até hoje, entretanto, não parece ser a conclusão correta a se ter, pois, apesar dos pesares, a culpa é humana, meramente e humanamente desprezível da nossa própria natureza selvagem e absurda. Ninguém ascende sem que uma plateia o venere. 

E quando falamos do terror humano e acerca da capacidade de realizarmos coisas terríveis, seja com as próprias mãos, seja pelo poder de consumir e monopolizar as mentes, necessitamos discutir a respeito dos grupos terroristas que nos cercam e que estão mais presentes do que nunca na comunidade internacional. 

Em 16 de agosto, Suhail Shaheen, o porta-voz do grupo Talibã, disse que as meninas poderão estudar sob o seu atual regime no Afeganistão. Nas suas palavras: “as escolas serão abertas e as meninas e as mulheres irão para as escolas como alunas, como professoras”. 

Pode parecer bem convincente ao declarar que, dessa vez, as mulheres terão os seus direitos fundamentais garantidos. Contudo, já sabemos que quando o autoritário fala é apenas uma fala. A realidade é outra. 

Para um dos líderes do grupo terrorista, a volta do Talibã traz um novo Afeganistão “livre e independente”. Quando fala isso, é possível observar uma presença de ressentimento muito grande, já que são fundamentalistas, isto é, creem que a vida deve ser pautada somente pela leitura e compreensão que têm acerca do islamismo. No fim, é tudo sobre como nós, o corpo e semelhança de Deus, queremos nos tornar invencíveis, logo, imortais. 

Durante a entrevista concedida ao jornalista Roberto Cabrini, a rede Record, o líder Enamullah Samangani, expressa um claro arrependimento para com a sociedade mulçumana, tendo em vista que após os vinte anos longe do poder, o Talibã certamente sofreu um grande declínio em relação aos afegãos, pois, muitos desenvolveram-se, com o destaque às mulheres, e que, agora, temem serem prejudicadas e banidas de seus prazeres. 

II.

Com a devida excelência, o filósofo Leo Strauss, desenvolve em seu ensaio denominado Progresso ou retorno? A crise contemporânea da civilização ocidental, a exemplificação do que, na prática, a questão que envolve grupos autoritários que se baseiam na bíblia – ou qualquer outro livro que simbolize a sua religião -, se transformam e o porquê de prestigiarem excentricamente ao progresso ou ao retorno.

 […] Com efeito, nessa época tornou-se cada vez mais claro que a liberdade do homem é inseparável de uma dependência radical. No entanto, essa mesma dependência foi entendida como um produto da liberdade humana, e o nome dado a este produto foi história. A assim chamada descoberta da história consiste na conscientização, ou na suposta conscientização, de que a liberdade do homem é radicalmente limitada pelo uso anterior que ele fez dessa mesma liberdade, e não pela sua natureza ou por toda a ordem da natureza ou da criação. Esse elemento vem, segundo me parece, aumentando em importância. Tanto que hoje a tendência é dizer que o caráter específico do pensamento moderno é a ‘história’, uma noção que nessa forma moderna é, de modo evidente, inteiramente estranha ao pensamento clássico ou qualquer pensamento pré-moderno, incluindo o pensamento bíblico, muito naturalmente […]. (grifo meu).

A partir do destaque, é possível compreender o esclarecimento que realiza Strauss ao perceber que a liberdade humana – como achamos que a entendemos – na verdade, está interligada com as nossas espécies de dependências, que a história demonstra ser extremamente radical. Não à toa. Queimamos homens na fogueira por não compartilharem desse tipo de dependência, contudo, nos dias atuais, queimamos os mesmos homens, só que no meio virtual, uma vez que a nova Praça é a rede social e todos os aplicativos dos quais estão incluídos – fazendo com que o mundo subumano continue a existir e fomentar os nossos prazeres e desprazeres. 

Podemos tentar encontrar o verdadeiro significado para que grupos sectários produzam atrocidades pelo mundo, e haverá diversos motivos e razões para os feitos, dos quais não tenhamos a capacidade de entender, e, talvez, aqui se encontra a real chave para desbloquearmos a nossa reflexão acerca do ser humano. Pois, devemos falar sobre terrorismo e grupos que tentam, de qualquer forma, dizimar outros tipos de pensamento e modalidades da vida, ou seja, ditar como as pessoas devem viver, caso contrário, viveram em pecado. 

As religiões, como as seitas, tendem a fazer os líderes confundirem as reais intenções do Salvador – que, obviamente, não é o líder religioso, nem o político de estimação – o Salvador promove a nossa civilização, e não a degrada. É um erro entender que um líder, qualquer que ele seja, utilize-se da figura Suprema para justificar os desastres que mantém a atual comunidade nacional e internacional. Quem pode praticar em nome do Senhor a restrição das liberdades individuais? Em tese, ninguém poderia, – e aqui não faço o juízo de valor da própria religião, tendo em vista que a liberdade individual também angaria o que denominados de a liberdade de culto, ou seja, cada um pode exercer a sua crença da forma e do modo que bem entender. 

A problemática está no fato de grupos religiosos (ou não), acharem-se no direito de se incorporarem Deus e, dessa forma, ascenderem as suas tiranias em sociedades extremamente vulneráveis por seus exércitos violentos.  Não é sobre extinguir religiões, mas sim sobre como combater os grupos que querem transformar a religião em pretexto para a degradação da nossa civilização. 

III. 

Ao passarmos pela tragédia humana verificamos que nasce um sentimento de culpa, medo e vergonha. A culpa deveria ser vivida por quem comete as atrocidades, isto é, viola os princípios humanos da contemporaneidade, contudo, esse sentimento é experimentado por quem sofre a perda do Direito. O curso natural não deveria ser esse, mas sim o fato de o “sentimento de vergonha” vir daqueles que se utilizam das mentes machucadas para incorporar a consciência das suas próprias falhas. 

Por meio do argumento de “autoridade”, os líderes dos grupos que expusemos anteriormente, aplicam uma espécie de tragédia grega a qual obtém a função de “exercitar as paixões do medo e da piedade com a finalidade de purgá-las” . Por isso os sentimentos de medo e de piedade estão relacionados com a culpa, entretanto, esta última segue um caminho diferente do esperado, já que a mesma deveria estar vinculada aos corruptores e não às pessoas que sofrem a punição da falta de liberdade – em todos os sentidos, de cunho religioso ao sexual. 

A frase que necessariamente expressa o comportamento que devemos ter diante dos pesares do ser humano é “Conhece-te a ti mesmo”, o que significa, “para os gregos, conhece o que significa ser um ser humano, conhece qual é o lugar do homem no Universo, examina as tuas opiniões e teus preconceitos, e não ‘Perscruta o teu coração’. 

Infelizmente, encontramo-nos num ponto de divergências não apenas de opinião a respeito de uma visão de mundo, todavia contra fatos que, obviamente, são imutáveis e não possuem outros dizeres, ou seja, contra fatos não há contradição, podemos até pensar de maneiras diferentes de soluções, ou mesmo de como chegamos a este ponto crucial, mas isso ainda não anula o fato – o acontecimento. 

É extremamente natural que a humanidade só se dê conta dos horrores que produz quando estão à tona, quer dizer, a crise das mulheres do Afeganistão não foi ocasionada no dia em que houve o ataque a Cabul, muito distante disso. Desde o princípio, desde os nossos ancestrais temos fomentado a cultura de uma mulher submissa a sociedade que cresce preconceituosa e odiosa em relação às mulheres livres e independentes. 

Só nos damos conta da tragédia quando já nos deparamos com o deserto, pois é nele que o Deus bíblico se revela, contudo, não só ele. Uma vez que o deserto é o lugar mais árduo que qualquer ser humano pode se encontrar, as autoridades religiosas ou políticas desmistificam – se aproveitam – do estado de vulnerabilidade para destruir e corromper as mentalidades. A resposta não está na cidade, e muito menos na civilização, está no deserto. 

Desse modo, compreender que qualquer tipo alternativo de vida, ou de costume diferente, para esses grupos em questão, não se trata de um ponto de vista novo – em que possamos abrir os horizontes dos pensamentos – na verdade, eles os tacham de costumes em que precisam ser abominados, extintos. Pois apenas o que é conhecido – antigo, em essência – deve permanecer.

Entretanto, a ideia de que os nossos ancestrais foram necessariamente bons é equivocada, já que só temos as consequências de suas atitudes, as quais colhemos os frutos, ou dores atualmente. Portanto, apesar de existir uma ancestralidade, nós, seres humanos, temos de construir uma vida de maneira independente da nossa ancestralidade, senão, sempre viveremos na tragédia, na iminência de que grupos autoritários se achem autoridades o suficiente para destruir a evolução humana. 

Destarte, a crise da contemporaneidade é simplesmente a problemática entre o Deus e o Homem que insiste em ser mais do que a imagem e semelhança do Divino. O homem quer ter os poderes e age sob Seu nome para, justamente, não se sentir culpado, mas transferir a culpa para quem não a pertence. 

Assim, a lei divina, no sentido verdadeiro e estrito da expressão, é apenas o ponto de partida, o ponto de partida absolutamente essencial da filosofia grega, sendo, no entanto, abandonada no processo de ascensão. E quando ela é aceita pela filosofia grega, essa aceitação é apenas política, isto é, em nome da educação do vulgo, e não como algo que se sustenta de forma independente.

Leo Strauss, p. 273

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s