O Palhaço e o Professor

O professor explicava a matéria a uma turma interessada. Geometria Analítica. Naquele momento, a porta se abre e o palhaço se senta na primeira fileira. Todos olharam curiosos e era esperado o momento certo para fazer a primeira pergunta ao novo aluno. 

As dúvidas pairavam entre os estudantes. Será que veio fazer propaganda do circo? Talvez tenha errado de escola. Aqui, é uma escola estadual. A das crianças fica a cinco quadras daqui. Ou, ainda, deve ter vindo para alegrar a turma neste período de volta as aulas.

O professor ainda não havia se manifestado. Todos aguardavam ansiosamente o seu ponto de vista. Ele era rígido e não gostava de brincadeiras e bagunça durante a exposição de conteúdo em aula. Na lousa, ele finalizou o conteúdo, dizendo:

— Dados os pontos A(xA, yA) e B(xB, yB), a distância (dAB) entre A e B é o comprimento do segmento de reta que os liga, que pode ser obtido pela seguinte fórmula:

https://static.mundoeducacao.uol.com.br/mundoeducacao/conteudo/distancia-entre-dois-pontos(1).jpg

Com o fim das anotações, o professor arriou os óculos, espreguiçou as sobrancelhas, franziu a testa e enxugou o suor que percorria pelo rosto. A turma foi prestando atenção, trocando risinhos, esperando curiosos e ele finalmente fala:

— Quem lhe deu autorização para entrar na minha sala de aula?

As palavras foram acentuadas com os gestos corporais. Pela entonação da frase, faltou saltar da boca a úlcera que tanto lhe incomodava nos finais de semestre. Entre os olhares dos alunos, todos aguardavam uma discussão e aos poucos, como em uma sinfonia, os celulares foram expostos, na tentativa de escolher os melhores ângulos para as redes sociais.

O palhaço ainda permanecia sentado. Sem reação. A expressão de sorriso ao entrar na sala de aula, foi-se embora, como se as cores em seu rosto perdessem a alegria, a magia e o encantamento. Ele se levantou, tirou da sua mala, uma folha de papel e começou a escrever. 

Todos ficaram agitados. Os olhares dos alunos se cruzavam na sala de aula e palavras estavam sendo jogadas, como se fosse uma disputa de rimas. A tensão aumentava e o professor resolveu ser mais agressivo, para evitar que suas palavras chegassem até a diretoria, resolveu fechar a porta e discorreu seu dicionário de ofensas.

— Palhaço!

Para os alunos soou redundante a palavra. O professor desejou pegar aquela figura estranha em sua sala de aula pelo braço e levá-lo para fora da escola, da vida dele. Alguns alunos se levantaram da cadeira e foram até o mestre. Palavras para acalmar seu stress foram proclamadas. Até um pequeno doce ele recebeu para domesticar seus nervos.

O personagem enigmático continuava a escrever. Não parecia uma redação de vestibular, tão pouco uma carta. O palhaço parecia selecionar cada palavra, como se cada vocábulo representasse uma história. Os que ficaram próximo ao professor, estavam organizando uma revolução. O clima dentro da sala de aula tornou-se tenso. Será que poderia ser a Revolta de Canudos?

Lá do fundo, uma pessoa gritou:

— Vamos tirar este palhaço à força. A cada minuto, novos estudantes incorporavam o desejo de linchar o intruso. O professor incrédulo não acreditava no que estava acontecendo. Como uma figura divertida poderia ter lhe tirado do sério. Poderia ter interrompido sua relação de amor. Ele perdeu todo o entusiasmo de continuar a aula, seu prazer foi sucumbido por um palhaço.

Ele se levantou e a cada passo gritava: 

— Saia da minha sala de aula ou serei obrigado a lhe tirar à força. Os alunos perceberam a tensão e seguiram em marcha até o inimigo. Palavras de ordem eram proclamadas. Um aluno escreveu em uma folha de caderno “Você não derrota um inimigo tirando sua coragem. Você derrota tirando sua esperança”. Ele seguia a frente, como se levasse a bandeira do país.

Quando todos chegaram próximo ao palhaço, a agitação já não poderia ser controlada, neste instante, o personagem se levantou, era possível, perceber o medo em seus olhos, já não havia sinais de segurança e a pupila estava dilatada, seu corpo se contraiu e seus lábios estavam ressecados.

O palhaço carregava em suas mãos a sua arma de rendição. Uma folha branca com algumas palavras. Os guerrilheiros imaginavam que seria a sua entrega. A guerra iria terminar, sem nenhuma baixa para a tropa e o inimigo seria exposto em praça pública.

O professor saiu de perto dos soldados e foi até o forte. O local mais seguro da batalha. Começou a ler as poucas palavras contidas na folha e os alunos em êxtase por ter vencido o combate. Todos aguardavam ansiosos por uma explicação e o professor ficou em choque. Será que se matarmos o palhaço, poderemos sofrer represálias? O silêncio tomou conta da sala e o professor pediu a todos os alunos para sentar que ele iria ler o texto.

— Quando criança, seu sonho era ser um palhaço. Daqueles que entram na vida do outro e deixam marcas de felicidade. Resolvi fazer isso para lhe dizer que sua vida terá uma nova expressão de amor e alegria. Você será papai. Estou grávida.

Quando ele terminou de ler. O palhaço começou a tirar a maquiagem e despir do seu personagem e o professor viu sua esposa se apresentando para todos os alunos, os quais encheram os pulmões de ar para gritar novas palavras de ordem, até a diretora entrar na sala e interromper o espetáculo.

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