O trenzinho empoeirado

O trem anuncia a partida para um novo itinerário. Todos a bordo, disse o maquinista! Era meu aniversário. Extasiado, pois era a primeira vez que ouvia o barulho do trem. Uma melodia agradável aos ouvidos. Tinha sete anos. Sente-se! Foi à primeira frase que ouvi do meu pai: homem calvo, de olhos azuis, barba espessa, ficava a me admirar por causa da minha alegria.

Da janela, jovens acenavam para seus familiares, outros suspiravam com medo do desconhecido e as crianças rodopiavam ao som do barulho do trem. Senti medo quando o maquinista partiu, calafrios percorreram o corpo e uma tímida lágrima de emoção caminhou por minha pele macia e branca. Ao completar cinco anos, ganhei um pequeno trenzinho de brinquedo, de lá pra cá, nunca mais o abandonei. Desejava ser maquinista e viajar pelas ferrovias. Sentir a brisa da manhã. O sol escaldante do sertão e o frio da Europa brasileira.

Tudo parecia idêntico ao brinquedo. Havia pessoas desenhadas no meu trenzinho, bancos e até as onomatopeias emitidas pelo trem. Tantas semelhanças que me fizeram duvidar no início. Queria ficar pendurado na janela e sentir de perto as faíscas dos trilhos. Não perguntei por receio, mas tive a impressão de que o trem estava parado. Por muitos anos, fiquei com essa dúvida. Senti-me frágil ao ver a fumacinha branca que saia da chaminé, lentamente, levantei, fui até a janela para ver a cena. Papai ralhou comigo, sem titubear, procurei registrar este momento na memória. Até hoje sinto o sabor da fumaça quando volto aos meus sete anos.

Uma viagem prazerosa e lenta. Aos poucos, tirei da bolsa meu trenzinho. Os vagões eram verdes, as rodas vermelhas e a cabine toda preta. No lugar da imagem do maquinista, colei minha foto. Não sei se era imaginação ou realidade, mas todos os dias, ia visitar minha avó. Quando estava na cabine não conversava com ninguém, ficava atento à ferrovia. Meus primos adoravam brincar, mas eu gostava mais, não tinha preguiça de montar e desmontar os trilhos. Por incrível que pareça, até bonecos criei para simbolizar passageiros nas estações. Posso dizer que este brinquedo foi meu primeiro amor. Não queria carrinhos ou aviões. Adorava percorrer os trilhos e imaginar as histórias dos passageiros.

Chegamos a nossa estação. Arrumei e guardei meu trenzinho na bolsa. Esperei todos saírem do trem, triste, observei os últimos detalhes. Posso descrever cada local daquele trem, mas, o que realmente me marcou foi poder encher meus pulmões daquela fumacinha branca. Foi minha primeira e única viagem de trem. Nunca mais voltei. Cresci com o progresso. Papai dizia que era preciso abandonar o passado por carros de última geração. Ele estava errado. O som do Piuiiiiiiii foi substituído por buzinas, brigas e acidentes de trânsito, todo aquele sentimento lúdico foi trocado pelo stress e horas paradas nos congestionamentos.

Não é possível voltar aos meus sete anos, mas, na solidão, volto a brincar com meu velho trenzinho. Tenho-o até hoje. Fica guardado no fundo do guarda-roupa. Nos momentos de solidão monto-o e, aos poucos, revivo todas as histórias. Nem ligo para a poeira, o que busco é sentir novamente o sabor daquela fumaça, assim, a cada estação, acolho meus passageiros e desejo-lhes uma boa viagem.

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