Varrer a Calçada

– Amor! Amor vem cá!
– Que foi?
– Vem cá, Rogério!

Ela gritou, sussurrando.

– Olha lá, olha lá.
Apontou lá fora, para o portão.

– O vizinho está varrendo nosso quintal de novo.
– O quê?
– Varrendo nosso quintal.
– Ah não!

Ele virou as costas, indo pro quarto. Ia pegar o taco de beisebol.

– Calma, vamos ver aqui – disse ela, pegando o tablet. Abriu a câmera da rua. Ele voltou segurando o taco nas costas.
– Ele tá varrendo as folhas de novo. O que será que ele quer? – Ela sussurrou novamente.
– Como assim, o que será que ele quer? Daqui a pouco ele tá passando pano na sala, limpando nosso banheiro.
– Espera, espera – apontando para a tela – ele tá juntando em montinhos.
– De novo.
– Vai recolher…

Recolheu.

– Sabia! Ele tá recolhendo nossas folhas. Aposto que também inspeciona nosso lixo de noite
– Será?
– Certeza!
– E o que você vai fazer?
– Eu vou lá resolver isso – respondeu racionalmente, batendo o taco na mão
– Não! Não vai

Pousou um pequeno silêncio na cozinha. Ambos olharam da tela do tablet para a janela, à sua frente, para o portão de grade.

O vizinho acenou.

Acenaram de volta e sorriram, cinicamente.

– Cínico – ela disse
– Essa coisa de varrer a calçada não vai acabar por aqui – disse ele
– Eu não sei qual é a intenção dele, Rogério
– Ele quer uma guerra, Manu – ele estava nervosíssimo, hiperventilando – é uma guerra que ele vai ter!

E foi guardar o taco no quarto. Ela o acompanhou com os olhos. Voltou do quarto e correu para a varanda dos fundos. Passou pela cozinha novamente com uma lata de tinta e um pincel.

– Eu vou pintar a nossa calçada, Manu…

E, depois de uma pausa dramática

– … e a calçada dele também!