Moça de Minas

Eu chego em casa no horário do almoço e ela fala “Vai almoçar”.

Mas, mãe…Foi só pra isso que eu vim pra casa. Eu sei…

E, dois minutos depois, estou pegando salada na mesa, e ela grita da sala “Tem salada na mesa!”.

Eu só respiro fundo porque, há mais de vinte anos, ela precisa mostrar quem manda em casa – e meu pai concordaria com isso plenamente.

Nascida numa fazenda pequena com seu monte de irmãs, numa terra distante chamada Minas, minha mãe veio pra São Paulo quando jovem. Deixou a vó e as irmãs pra traz para trabalhar como babá. Conheceu meu pai, e olha eu aqui.

Confie desconfiando“, é o ditado que me fez crescer fortalecendo a visão mineira sobre todas as coisas. Não só a visão, como também o gosto. Ninguém cozinha como nossas mães, é verdade, mas ninguém mesmo cozinha como a minha. Ela mesmo diz isso, sem modéstia alguma. Só realidade.

Além desse, herdei outros ditados, como “Chico não quer, Mané bafo”. Quer dizer basicamente “se você não tá com fome, eu tô!” e é geralmente sucedido pelo ato de tomar a refeição da mão de quem não quer, e comer. Tem também o “pé no chão, violão”, que quase sempre vem acompanhado por uma chinela voando no meio da sala, e é bom você desviar e calçá-la antes que venha a outra.

Quando aponto a câmera ou o celular ela foge. Às vezes me bate. “Não tira foto da mãe”. Mas eu tiro mesmo. Todo esculhambado. Um dia, pode ser que eu sinta saudade.