Show do Fim do Mundo

Quando o fim do mundo chegou foi um espetáculo! Pena que poucos seres humanos puderam aproveitar a vista com o glamour que o evento pedia. Mas, bom, todos aproveitaram como puderam.

Como sempre, tudo começou em alguma sala de cientistas com computadores e telescópios. Não. Tudo começou ainda antes, com um senhor aposentado no Kansas, com seu Guia de Estrelas, uma lanterna e seu telescópio. Do quintal da sua casa ele viu os grandes meteoros se aproximando com toda a sua fúria celestial. Primeiro ele gritou para a esposa vir ver, e foi completamente ignorado. Depois ligou para seu melhor amigo que estava bêbado e, então, o ignorou. Por fim tentou chamar seu cachorro, mesmo que ele não conseguisse enxergar pelo binóculo. Ele latia exaustivamente para uma raposa, e acabou o ignorando.

O que esse senhor não sabia, é claro, era o número da NASA, ONU e órgãos competentes que cuidam da diplomacia com entidades cósmicas e chuvas de meteoros prestes a estilhaçar a terra. Esse senhor em questão terminou sua cerveja e entrou para ver o jogo. Ele não tinha nada a ver com aqueles meteoros, muito menos com os poucos seres humanos que assistiram ao fim do mundo de camarote.

Então tudo começou em alguma sala de cientistas com computadores e telescópios. Seria só mais uma segunda-feira de ressaca após um final de semana prolongado. O cientista de jaleco branco número Um limpou a remela dos olhos para ter certeza do que estava acontecendo. Bocejou, checou nos computadores e sensores, consultou o manual e olhou de novo para ter certeza do que estava acontecendo. Cutucou o cientista de jaleco branco número Dois que, usando toda sua experiência de décadas como cientista, confirmou a presença de vários corpos meteoritosos se aproximando do planetinha azul. Ele tinha certeza do que estava acontecendo. Ele sabia para quem ligar.

O presidente nada podia fazer quanto a meteoros do tamanho de ônibus ingleses descendo para a terra. O jornal podia noticiar as pessoas quanto ao fim iminente de sua vida – na verdade de toda a vida na Terra. Os médicos podiam tirar suas luvas e jalecos brancos. Os cientistas fizeram uma conferência internacional, choraram e vestiram seus jalecos brancos. Os blogueiros twittavam.

Virou trending na hora.

Um canal prometeu uma transmissão exclusiva ao vivo do fim do mundo, com comentaristas especiais. Outros canais reivindicaram a transmissão ao vivo do fim do mundo, e começaram uma guerra de direitos de imagem. Ainda outros começaram a passar a retrospectiva da raça humana, e já tinham toda a programação, com contagem regressiva. Um último começou a passar em loop aquele filme do Bruce Willis.

As hashtags subiam.

Com cervejas e fogos, ninguém sentiu o apocalipse chegando. Os americanos disseram que a melhor vista do fim do mundo foi a deles. Ingleses definiram o evento como “deslumbrante”. A Coreia do Norte declarou não ter nada a ver com o ocorrido. E os australianos disseram que não conseguiram ver nada de lá. Não há notícias, tweets nem notas do evento registradas pelos brasileiros.