Continua lindo

O Rio de Janeiro tem mais mortes que a China.

Eu não sei se você entendeu lendo apenas o cabeçalho deste texto, caro leitor. E também eu não quero ser aqui o arauto das más notícias, mas é que quando me dei conta deste número, acima de todos os outros, é que entendi a gravidade da situação em que estamos.

Estou dizendo que, em termos de pandemia, é melhor viver numa sociedade comunista num regime autoritário do que viver nestes país da alegria e do carnaval aqui. É disso que estou falando e, se você ainda não entendeu, eu vou repetir:

O Rio de Janeiro tem mais mortes que a China.

Não a cidade, mas o estado.

E, caso você queira fazer alguma conta para relativizar mortes frente à enorme normalização da pandemia, eu vou até te dar alguns dados aqui pra você poder trabalhar: O estado do Rio de Janeiro tem por volta de 16 milhões de habitantes. A China, 1.3 bilhão de habitantes. Está satisfeito agora?

Claro, aqui estou levando em conta a possibilidade do governo da China não estar divulgando o número completo, ou não estar fazendo testes o suficientes, encobrindo casos, e coisas assim. Mas o Brasil também não está divulgando o número completo por não termos testes RT-PCR o suficiente, tampouco conseguirmos coletar os dados com rapidez. Houve casos de mortes que foram reportadas até 60 dias depois do ocorrido. Sessenta dias.

Em dois meses a China entrou em Lockdown, proibiu pessoas de circularem, e monitorou os passos de todos, especialmente dos infectados. A segunda maior economia do mundo parou de girar, trazendo um déficit no seu PIB recorde das últimas décadas, lidou com o racismo e xenofobia, reduziu as mortes a menos de 100 por semana, e as transmissões a pouquíssimas em toda a província de Wuhan. Nós reportamos uma morte nesse tempo.

E, caso você tenha se perdido no meio dos últimos parágrafos deste texto, caro leitor…estou aqui para te lembrar:

O Rio de Janeiro tem mais mortes que a China.

Tchau Junho, Oi julho

Oi!

Como está sendo a sua quarentena? A minha estaria sendo ótima, se eu tivesse uma.

Acontece que eu tive dois meses escrevendo textos todos os dias por aqui. Eu gostei do ritmo, e da produtividade, mas precisava tirar um tempo para mim. E foi o que eu fiz durante o mês de junho.

Eu passei bastante tempo dos meses de abril e maio pesquisando informações e notícias para construir os textos que você leu por aqui. Eu falei sobre a importância do isolamento no começo da pandemia, sobre o que você pode fazer para não surtar ao lidar com tudo isso, e até sobre a importância de ser grato pelo que temos. Então eu resolvi tirar uma semana de folga dos textos. Agradeço a você, que me seguiu no instagram e acessou o blog mesmo sem nenhuma novidade.

Junho acabou. O Brasil é top em qualquer gráfico e tabela sobre o coronavirus. Além disso vamos continuar juntos tentando não surtar, pelo menos até dezembro.

Mas um passo de cada vez. Por hora, vamos tentar sobreviver a Julho.

Contágio #10

Episódio anterior

A filha do seu Odair estava na frente da casa do seu pai, com o celular na mão.

Ele não atendia as ligações, e agora também não atendia ao portão. Depois de chamar algumas vezes, ela se lembrou do lugar onde o pai escondia a chave. Passou a mão pelas grades e apalpou o muro até encontrar uma chave pendurada num prego. Abriu e entrou.

Um grito

Seu pai estava desmaiado no chão do corredor entre a sala e a cozinha.

O que aconteceu depois foi rápido demais para seu cérebro processar.

Ligou. Abriu o portão. A ambulância chegando. Seu pai na maca, desacordado. As sirenes ligadas. Segurando a mão de seu pai até o hospital.

Seu Odair foi transferido para a cidade grande mais próxima, e ficaria internado por, pelo menos, uma semana.


Oitenta e nove infectados. E subindo.

Informações na Pandemia

“Em uma pandemia, devemos escutar os cientistas.”


E isso não fui eu quem disse, não. Foi o Leandro Karnal, professor de história e doutor da universidade de Campinas.

Mas como ultimamente eu tenho mais colocado falas de outras pessoas aqui, o que não faz sentido com o nome do blog: Hoje é dia de curadoria! Onde eu indico melhores links da internet pra você passar seu tempo e se informar.

E a minha primeira curadoria aqui vai para ele, que é biólogo, pesquisador e paladino da quarentena, o Atila Iamarino. Ele é divulgador científico a muito mais tempo que a Covid existe, mas ganhou muito mais destaque com as Lives do seu canal no Youtube e o histórico programa do Roda Viva de recorde de audiência.

No instagram @oatila, ele tem vídeos divulgando pesquisas no IGTV sobre como funcionam os testes, como se proteger de forma prática.

E aqui eu indico o Twitter dele, @oatila. Mesmo que você não use o Twitter, vale a pena acessar, pois lá ele posta gráficos que ajudam a entender como a pandemia está acontecendo aqui e no mundo todo. E, caso você use o Twitter, siga @coisadpedro por lá.

Uma indicação bônus vai para o @capyvara. O Marcelo Oliveira é engenheiro de software e também tem postado gráficos muito interessantes e didáticos para entendermos tudo o que está acontecendo com a Covid.

É importante se manter informado. Mais importante ainda é manter-se informado sem se desesperar, mas sabendo como agir diante da informação.

Origem da Angústia

Perguntaram para o presidente daquele país “mais à esquerda” como serão as consequências psicológicas da quarentena. Abaixo a tradução da resposta, com o Tweet da Luciana Taddeo.

É angustiante se salvar? Angustiante é adoecer. Não é angustiante preservar a saúde. Isso é angustiante.

Angustiante é que o Estado te abandone, e te diga ‘se vire como puder’. Não que o Estado te diga ‘fique em casa e se cuide enquanto eu vou procurar onde está o vírus’. Isso é angustiante. Que o estado não esteja presente.

Escuto muito esse comentário e quero esclarecer. Eu falo com os epidemiologistas e seguindo o conselho deles é que lhes pedi que as criancas tenham um tempo para sair das casas, que as pessoas tenham um tempo para sair das casas. 

Estamos em uma pandemia que mata gente. Dá para entender?

Estamos em uma pandemia de um virus desconhecido. Dá pra entender?

Estamos em uma pandemia de um virus que não tem remédio nem vacina. Dá para entender?

Fiquem em casa e cuidem-se.

E tentem levar isso da melhor forma possível.

Todos teremos a possibilidade de sair, para arejar, quando preciso. Mas eu peço: deixem de semear angústia.

Angustiante é que não cuidem de você. Angustiante é que o Estado te abandone.

Angustiante é quando o Estado diz “aqui não está acontecendo nada”.

Estão acontecendo coisas sérias. E por isso agimos da forma como agimos.

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